20/12/2020 às 00h27min - Atualizada em 20/12/2020 às 00h27min

TUDO VAI SER DIFERENTE

Rui Guilherme. Foto:Arquivo Pessoal


Na virada de 2019 para 2020, multidões se aglomeraram no mundo inteiro para comemorar a chegada do ano novo. Em Nova Iorque, repetiu-se na Times Square a famosa contagem regressiva esperando descer aquela bolona para trocar beijos. Em Paris, o show de música e cores no céu de inverno sobre a Torre Eiffel encantou a quem o assistiu. Em Sidney, na Austrália, onde o réveillon por causa do fuso horário acontece muito antes do Brasil, a linda baía, com a Ópera em forma de asas de gaivota, foi encimada pela pirotecnia multicolorida. Em Londres, o habitualmente enfarruscado céu sobre o Big Ben encheu-se de cor e alegria, com o povo brindando com gim e cerveja quente e cantando o tradicional Auld lang syne. Em Berlim, a euforia era alimentada pelo cantar do Ein Prosit, regado com gigantescas canecas de cerveja pilsen, sob a foguetaria colorida a iluminar o firmamento sobre o Portão de Brandenburgo. 

Em nosso país, de norte ao sul, de leste a oeste, as comemorações vararam a madrugada. Fortaleza, Recife, Belém, Macapá, Florianópolis, São Paulo, Porto Alegre, BH, em todas as capitais e em outros centros, a euforia com a chegada de 2020 contagiava a todos. 

No Rio de Janeiro, palco de um dos mais belos espetáculos de fim de ano do mundo, mais de dois milhões de pessoas acorreram às praias da Zona Sul, em especial à Copacabana, a eterna Princesinha do Mar. De balsas ancoradas ao largo da baía de Guanabara, a queima artística de fogos de artifício durante mais de vinte minutos emocionou os assistentes. Cantavam-se, entre outros hinos, o “este ano / quero paz no meu coração / quem quiser ser meu amigo / que me dê a mão”. Espoucavam-se champanhas e cidras, bandas apresentavam-se em palcos montados na areia; o povaréu cantava, brindava, dançava, numa antecipação do carnaval que se aproximava. Ninguém, que eu lembre, nem mesmo os videntes de plantão, alertavam para a terrível ameaça que ainda antes do final de fevereiro sairia da China e se espalharia pelo mundo. Ninguém, enquanto a farra corria solta por conta da chegada do ano novo, no Brasil e no mundo afora, estava devidamente preparado para o tsunami de mortes que seriam provocadas pelo vírus originário do Extremo Oriente.

À medida que avançava o fatídico 2020, a mídia brasileira e internacional dedicava-se quase que exclusivamente a informar o número de mortos e de contaminados pela Covid 19. As cifras atingiam casas de milhões no mundo inteiro. Os noticiários na maior parte do tempo só falavam em taxas de mortalidade, de números de contaminados, de ameaças de falência dos sistemas de saúde, de desemprego crescente, do debacle econômico, de auxílio emergencial para, de algum modo, amenizar o desabastecimento e amparar famílias que se tornavam paulatinamente mais incapazes de prover o próprio sustento. Um ano de calamidades de proporções inimagináveis pelos que festejavam o último réveillon.

Este ano de pandemia está em seus estertores finais. O vírus letal, todavia, recrudesce em ondas ameaçadoras em todos os continentes. As taxas de contaminação e o número de óbitos apresentam curvas crescentes, obrigando a que se endureçam as políticas preventivas de isolamento social, de assistência aos desvalidos, possível reabertura de hospitais de campanha, uso de máscaras e higienização frequente das mãos e do corpo. Em suma: irresponsáveis e até desumanos são aqueles que propalam a ideia leviana de que a Covid 19 é uma gripezinha, de que o pior já passou, que está na hora de se retomar o convívio social, de se reabrir os pontos turísticos, de shoppings, clubes, bares, restaurantes, bailes e raves voltarem a acontecer. Muito ao contrário, é preciso não baixar a guarda. O inimigo é invisível a olhos nu, mas nem por isso é menos perigoso, menos mortal. Que o digam os muitos milhares de familiares enlutados a prantear a perda de seus entes queridos.

Não é a chegada da vacina que decretará de per se a derrota do corona vírus. Vacina leva à imunização, e tornar-se imune significa dotar o organismo de agentes defensivos que levam o vacinado a não contrair a doença, ou ao menos de tornar-se mais resistente aos efeitos letais da contaminação, além de possivelmente deixarem de ser vetores de transmissão da moléstia. Daí a conveniência, e até necessidade de adesão em massa quando já estiverem operando os centros de vacinação, pois reduzirá e quiçá até elimine a transmissão do mal.  

     As celebrações deste Natal serão em casa, com o menor número possível de participantes. Réveillon com champagne, show de artistas nas praias, fogos de artifício a iluminar o firmamento, nada disso deverá haver para recepcionar 2021.  Nada obstante, notícias cada vez mais concretas da chegada de vacinas salvadoras abrem neste cenário melancólico uma esperança, ainda que tênue, embora ainda tímida, imprecisa, vaga, de que a ciência prevalecerá, permitindo que venha a ser debelada a pandemia. Sob tais desejados augúrios, a humanidade ansiosamente aposta que, ainda que o Ano Novo não possa ser recebido com festas, brindes, celebrações, demonstrações vivas de alegria, em comparação à lamentável tragédia que foi o ano de 2020 que se encerra, em 2021, com a chegada da vacina para o mundo todo, tudo vai ser diferente.


Rui Guilherme 
Juiz de Direito e Escritor.
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