03/01/2021 às 00h02min - Atualizada em 03/01/2021 às 00h02min

RETROSPECTIVA

Rui Guilherme. Foto:Arquivo Pessoal

É o que primeiro vem à cabeça quando se está nas últimas horas do último dia do último mês de um ano que todo mundo torceu para acabar. Com efeito, 2020 começou festivo. Aqui onde moro, em Copacabana, na virada de 2019 para 2020 tudo era festa. Praia lotada com milhões de pessoas trajando roupas claras, com predomínio do branco. Montados na areia, vários palcos. Em volta, enquanto bandas tocavam músicas animadas, dançava-se, brindava-se, sorria-se, trocavam-se beijos e abraços enquanto se aguardava a contagem regressiva ao fim da qual começaria a queima de fogos. Perto da meia noite do 31 de dezembro de 2019, todo mundo com suas champanhas na mão, esbanjava-se alegria. À zero hora, das balsas ancoradas, viria uma profusão de estrondos, uma orgia de luzes que faria do céu carioca um dos mais bonitos réveillons da Terra. No ar, vibrava a expectativa de que o ano novo só traria coisas boas. Ledo engano...

No fim do verão já se espalhavam notícias de que um vírus originário da China estava a caminho do Brasil. Logo do Brasil, tão distante da Ásia, e justo na espera da folia do Carnaval; do Brasil das praias onde se destacavam os lotes de esperados turistas que vinham em busca do verão tropical, trazendo seus esperados dólares e euros. Tudo parece tão distante daquele janeiro pressuroso que dá até para se ter dúvida se houve carnaval em 2020. 

As más notícias não paravam de chegar. A mídia cada vez mais se dedicava quase que exclusivamente a informar sobre o avassalador aumento do número de infectados e de óbitos diários no mundo inteiro. A economia mundial andava para trás. Fortunas incalculáveis eram direcionadas ao combate contra o inimigo invisível. Hospitais de campanha eram montados às pressas. Angustiava-se o país ao saber da letalidade do corona vírus, da insuficiência dos leitos de UTI, da falta de respiradores. Anunciava-se a falência do sistema de saúde. Os mortos eram tantos que já não havia covas que bastassem para receber os cadáveres. Os sobreviventes enlutados já nem mesmo podiam se dar ao conforto moral de organizar os funerais, com enterros feitos às pressas e limitado número de participantes nas cerimônias de despedida. Temia-se o desabastecimento, enquanto se inaugurava a mania de higienizar as mãos, a obrigatoriedade de se usar máscaras cirúrgicas, o uso histérico do álcool em gel – rebatizado de “alquingel” -, o medo de sair de casa, a prisão domiciliar autoimposta, popularizando-se a palavra inglesa “lockdown”. O isolamento social obrigou a adoção de medidas restritivas a fim de evitar aglomerações que facilitavam a contaminação. Era um mundo novo, sem abraços, sem contato físico; mundo novo e muito feio, esse que se inaugurava no ano 2020. Mundo que se tornava mais apavorante na medida em que corria o tempo.

Os templos esvaziaram-se. As orações se faziam em casa, ou, quando muito, em zooms pelas redes sociais. Quebravam-se tradições multisseculares, como a não realização da procissão do Círio de Nazaré em Belém do Pará. Que enorme tristeza para os cristãos paraenses que há quase trezentos anos sempre aguardavam o segundo domingo de outubro como uma data tão ou até mais esperada que o Natal...

Na Bahia, não houve a lavagem da escadaria do Bonfim. No Nordeste, passou em branco a quadra junina. Ninguém podia imaginar que em 2020 as quadrilhas não dançariam, não haveria casamentos na roça, nem fogueiras, nem canjica de milho verde.

No Maranhão, lá como em Parintins, os bois não marcaram presença. Caprichoso e Garantido não sairiam dos barracões.

Paulistas e mineiros não se reuniriam para os festejos tradicionais de junho, com a natureza conspirando ao não trazer o frio do inverno do hemisfério sul, quiçá para que os patrícios do sul não sentissem tanto a falta do quentão.

Suspenderam-se todas as competições esportivas. O futebol, quando recomeçou, mostrava o melancólico cenário das arquibancadas sem torcedores – algo fantasmagórico de se ver quando mostrado pela televisão.

O governo brasileiro trocava em veloz sucessão os ministros da saúde. O chefe do Executivo obstinava-se em tratar a pandemia como uma “gripezinha”, desautorizando medidas profiláticas vindas da Organização Mundial da Saúde e virando as costas para exemplos do mundo inteiro que davam provas de como a praga se disseminava com brutal rapidez em países como a Itália, França, Espanha, o Reino Unido, a Alemanha, os Estados Unidos, quando as recomendações deixavam de ser atendidas.

No último trimestre do aziago 2020, começaram a chegar notícias sobre a produção de vacinas em vários países, inclusive no Brasil: em São Paulo, no Instituto Butantã; no Rio, na Fundação Osvaldo Cruz. Enquanto isso, proliferavam informações desencontradas falando de drogas tais como a cloroquina e a hidroxicloroquina, as quais, associadas à ivermectina/azitromicina e outros medicamentos, se precoce e adequadamente ministradas, tornariam possível curar a infecção ou minimizar-lhe os efeitos danosos. 
Próximo do fim do ano chega a alvíssara: começou no mundo a vacinação. A ciência está vencendo o vírus. Mas... e em nosso país?
Do outro lado do planeta, ainda que em nosso mesmo hemisfério sul, num pequeno país de cinco milhões de habitantes – a terça parte da população da Grande São Paulo – chamado Nova Zelândia, 2020 chega ao fim com a pandemia inteiramente controlada. A firmeza na condução dos negócios de estado, aliada à delicadeza da primeira ministra de 40 anos de idade, senhora Jacinda Ardern, somadas à adesão de um povo civilizado e altamente politizado às medidas de prevenção contra a Covid 19, tudo isso permitiria com que a Nova Zelândia fechasse o ano com apenas vinte e nove mortes causadas pelo corona vírus. 

A assertividade de valorosas mulheres na chefia do Executivo, a começar pela ministra alemã Angela Merkel, e em países como Dinamarca, Noruega, Islândia e Finlândia, garantiu que fossem minimizados os danos à saúde pública causados pela pandemia. Registre-se que na Finlândia o Executivo é capitaneado pela mais jovem mulher a exercer tal cargo, a senhora Sanna Marin, com trinta e cinco anos de idade. Essa idade, pela Constituição brasileira, é marco mínimo para exercer certos cargos, como o de senador e de presidente da República.

Esta matéria está sendo finalizada no primeiro de janeiro de 2021. 2020 foi embora, e já foi tarde. Por aqui, no que tange à vacinação contra a Covid 19, o gigante continua deitado eternamente em berço esplêndido. Nem se pode dizer que está de ressaca de um réveillon que não foi comemorado com copiosas taças de espumante. Com um colossal bocejo, o gigante puxa para se cobrir um edredom onde o verde apresenta muitas falhas, com buracos quilométricos provocados pelo desmatamento e pelas queimadas. Furos há também criados pelos quase duzentos mil túmulos escavados para receber os cadáveres das vítimas do corona vírus. 

Na Nova Zelândia, vítimas fatais da pandemia foram vinte e cinco cidadãos. Isso mesmo, em algarismos e por extenso: 25 (vinte e cinco). 

No Brasil, bem... As últimas informações sobre óbitos diários no Brasil falam em 784 mortes. Isso mesmo: 784 (setecentos e oitenta e quatro) cidadãos brasileiros morrendo por dia de Covid 19. Os números são frios, porque gélida é a estatística quando somente considerada em si mesma. Mas vá tentar consolar quem perdeu seu pai, sua mãe, seu marido, sua mulher, seu filho, por conta da pandemia. Vá dizer aos brasileiros que pranteiam seus entes queridos enterrados em buracos cavados às pressas pelas retroescavadoras que não há problema em esperar mais um ou dois meses em 2021 para que se cumpram os protocolos da ANVISA a fim de que se comece a vacinação. Os mortos não têm voz nem voto. Os que sobreviveram, ah, esses têm voz, muitos deles votam. Irão votar em 2022. Que tenham voz firme e voto consciente; mais que tudo, que tenham boa memória.



Rui Guilherme 
Juiz de Direito e Escritor.
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