09/01/2021 às 22h00min - Atualizada em 09/01/2021 às 22h00min

PRIMA CECÍLIA

Rui Guilherme. Foto:Arquivo Pessoal

 Má notícia para a literatura brasileira: não pretendo parar de escrever senão no dia de minha morte. Ou no dia em que... Epa! Aí, é muito pior! Melhor morrer!

 A primeira hipótese é certa. A segunda, possível, na esperança de que seja improvável. De todo modo, e como continuo na ativa, vou me valer deste espaço para fazer uma reparação com Prima Cecília. 

Para aqueles meus olhos de menino, Prima Cecília sempre fora velha e gorda. Mas, como todo ser humano, aquela senhora atrelada à máquina de costura Singer ao lado da janela por onde entrava o sol da manhã, lá pelo final do século dezenove fora jovem. Jovem, mas se foi bonita, tenho cá minhas dúvidas. Quase certo que não o foi, porque naquele tempo as meninas eram educadas para se desabrocharem como moças bonitas, sílfides prontas para   um dia casar e ter filhos. Isso, todavia, nunca aconteceu com Prima Cecília, moça desprovida de atrativos que morreu solteirona. Moça velha, como se dizia. 

Minha avó paterna Clara Linda gostava que nós, seus netos, a chamássemos Grand-mère. Lembranças da mocidade, tempos em que batucava com alguma destreza mazurcas e declamava poemas românticos, ainda recordava alguns versos em francês. Talvez por isso é que nos cumprimentava no idioma de Racine:- “Bonjour, mon enfant. Comment ça va de la santé?” ao que respondíamos:- “Bonjour, Grand-mère.”

Clara e Cecília eram primas. Muito amigas, muito chegadas, mais ou  menos da mesma idade, ambas nascidas e criadas no Ceará. Clara era vivaz, inteligente, brejeira. Seu pai, professor, era muito inventivo e talentoso. Dizem que chamou a atenção dos engenheiros que estavam construindo uma ferrovia, alertando-os para mudar o percurso da linha férrea. A princípio, não lhe deram atenção. Depois, contudo, perceberam que o rumo dado às obras não estava correto, o que os levou a procurar o bisavô. Este, atendeu aos apelos e deu a consultoria adequada, fazendo com que a ferrovia afinal desse certo.

Clara  herdara a inteligência do pai. Normalista graduada, fez carreira como professora, sendo também muito requisitada para declamar nos saraus e tocar ao piano peças de Chopin. E enquanto a estrela de Clara Linda brilhava, em torno dela como satélite sem brilho próprio orbitava a amiga de sempre e sua dama de companhia, a prima Cecília.

No início do século vinte, Clara conheceu um conterrâneo viúvo e pai de quatro filhos. Coronel da Guarda Nacional, comerciante forte no Pará, dono de extensas terras com incontáveis seringais no município de Breves, amealhou fortuna com a borracha e outros produtos da floresta. Casaram. Clara mudou-se com o marido para o Norte. Com o casal lá veio prima Cecília.

Em novembro de 1917, Clara e seu marido estavam a bordo do vapor Guaíba, torpedeado por um submarino alemão no penúltimo ano da Primeira Guerra Mundial. Salvaram-se todos os passageiros. Entre eles, Clara Linda, seu marido e a companheira de todas as horas, prima Cecília.

Sou filho do primogênito de minha avó Clara Linda. Dela, minhas recordações mais nítidas vêm quando ela já estava senil, a cabeleira branca amarrada em coque, trajando vestidinhos de casa, arrastando os pés ao caminhar, caduca. Prima Cecília, toda a vida fazendo companhia à avó Clara Linda, era uma matrona gorda com um pouco mais de mobilidade, sempre dedicada à costura. Um de seus traços mais evidentes era a gula: Prima Cecília adorava comer e vivia   eternamente à cata de docinhos e petiscos para manducar. Isso me levou, com a crueldade habitual das crianças, a inventar uma forma de torturar a boa prima: depois do “bonjour, grand-mère”, dava bom-dia à prima e sentava-me próximo a ela. Então, levava a mão à boca, fingindo estar engolindo alguma coisa. Cecília logo tinha sua atenção despertada e passava a me olhar, implorante, com os óculos acavalados na ponta do nariz, até que não aguentava  mais e suplicava:- “O que é que você está comendo?”. Era a conta para eu espalmar a mão e responder, caindo na gargalhada:- “Nada!”

Meu gesto levava Prima Cecília a sair da mesa de costura aos prantos, enquanto eu dobrava risadas torcendo para que nenhum adulto tivesse visto o que eu fizera para atanazar a pobre senhora. A esta cena que eu repetia amiúde acompanhava a Grand-mère, inteiramente inconsciente do que se passava em sua volta, absorta, quem sabe, nas lembranças da rica vida que vivera.

Por mais vigorosa que aparentasse ser, Prima Cecília acabou morrendo antes de Clara Linda. Cá estou, no ocaso de minha existência, a lembrar das duas amigas inseparáveis, imaginando as confidências que trocaram em meninas, os mexericos da vida adulta, os sonhos, os devaneios, as leituras de romances e poemas açucarados, seus queixumes, suas alegrias compartilhadas, suas esperanças, seus sonhos, seus amores. E aqui fico, Prima Cecília, ensaiando esta pífia e tardia reparação. Que bela e exemplar foi a amizade que devotou àquela que viria a ser mãe de meu pai!

 Obrigado, boa e comilona Prima Cecília. Aceite este pedido de perdão feito muitas décadas depois daquele tempo em que o menino travesso despertava sua vontade de comer bombons, fazendo-a chorar – mais criança do que a criança peralta – ao lhe mostrar a mão vazia e a boca sem nada dentro. Para você, Prima Cecília, não há lugar melhor do que o céu com muitos cortes de bons tecidos, uma boa máquina Singer à disposição e revoadas de anjinhos gorduchos trazendo-lhe sem parar generosas porções de doces e salgadinhos.



Rui Guilherme 
Juiz de Direito e Escritor.
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