05/07/2020 às 07h00min - Atualizada em 05/07/2020 às 07h00min

A Vida pelo Rádio

José Altino. Foto:Arquivo Pessoal.

Velhos e bons tempos aqueles sem internet...e/ou celular.

Morava em Santarém, no Pará, especialíssima amizade. Mulher das mais respeitadas e queridas da região. Estando por lá, em visita, impressionava-me, a hora de seu homem chamá-la pelo rádio. Por tudo, pela disponibilidade que punha para seu companheiro, pelo respeito com que tinha pelo dono da casa e pela solenidade do momento. Estivessem todos, fazendo o que fosse naquela determinada hora, parava-se tudo, ligava-se o rádio transmissor/ receptor, fazendo silêncio reverencial na espera tranquila do chamado radiofônico. O êxtase do instante.

Ao primeiro sinal dele, ao primeiro cambio, havia sempre um misto de emoção e nervosismo, medo mesmo de errar; desenvolvendo-se um diálogo que nem um bom cineasta teria imaginado. Era passado um “relatório” sobre os filhos, dinheiro, empregados, saúde, quantidade de comida, casa, cachorro, no mesmo diapasão, como se fosse para o homem, entre outras coisas, medir o tempo de voltar. Ele então, passava algumas orientações. Tudo meio seco, monossilábico, quase formal. Aí, timidamente, sem querer saber muito, perguntava de tudo e de todos. Depois, rapidamente, as filhas falavam com o pai, no sentido de pedir sua bênção, devolvendo, finalmente, a interlocução para a mãe, que, num momento de absoluta alucinação, com duas ou três palavras mágicas, escolhidas por eles, reacendia a paixão do macho e fêmea, como só uma boa prostituta saberia fazer. E ela virava novamente só mulher nesse fugaz segundo, e ele começava a pensar em diminuir o tempo de permanência no garimpo, fazendo juras dissimuladas; e ela sorria com cara de excitação. Ele desligava, voltava tudo ao normal. 

Amanhã, no mesmíssimo horário, novamente o mesmo ritual e a mais maravilhosa relação que um ser humano consegue estabelecer. 

Mas, o que realmente chamava a atenção de qualquer observador externo, é que as maiorias dos diálogos, aconteciam com audição coletiva. No momento, centenas de outros rádios sintonizados à mesma operadora central da frequência, que atendiam a múltiplos garimpos fazendo sua conexão com o mundo exterior, participavam, aguardando vez. Para que se entenda melhor, tais centrais existiam pela Amazônia, até em bom número, com a finalidade de fazer as conexões das fonias de todos no interior da floresta, com o sistema de telefonias do país.

Domingo, para quem estava no meio do mato era terrível. Não se tinha sequer o trabalho como distração. Pelo menos, com a forçada ociosidade matutina conseguíamos acabar um pouco, ficando próximos ao rádio, escutando recados, brigas, saudades e até mesmo diálogos amorosos.  Quase com certeza, aconteciam pelo menos uma, duas ou três passagens, que nos faziam sorrir e amenizavam a solidão.

Esposa nervosa chama o marido, pela décima vez como dizia, e fala para ele mandar dinheiro ou ouro e principalmente melhorar a assistência ao lar, caso contrário ela daria o jeito dela e que ele sabia que jeito era. O marido ia logo dizendo que já estava indo... 

Outra, com mais raiva ainda e depois de bastante esperar em     demorada fila por sua vez de falar, começou monólogo com série de impropérios dirigidos a seu homem, pela longa ausência. Emendou contando que estivera no médico, e que ele diagnosticara infecção uterina, inflamação de ovários e um punhado de outras coisas. Foi só o marido responder que de tanta coisa ela parecia estar podre, para ela apelar. Brava, acabou xingando de volta não só a ele, mas toda a classe garimpeira que dizia não valer nada e que quem mais estivesse escutando e achasse ruim, enfiasse o rádio naquele lugar.
                
Uma mais jovem, chama seu marido e terminadas as notícias preliminares, começa a falar da falta sentida, pelas noites que se tornaram longas com a separação imposta pelo trabalho. Nem um mês casados e ele se fora para o mato. Ela contando que dormindo agarrava-se aos lençóis, mordendo os travesseiros, e ele logo respondendo, chamando-a de “rapaz”, que ficasse calma que tinha muita gente escutando. Sem se importar, ela afirmava que não era da conta de ninguém, e continuava seu público eroti-fone. No ar, o clima de uma mais que saudável sacanagem. E todo mundo, respeitosamente, agora já não apenas aguardando vez, mas prestando lasciva atenção ao romance e pensando em suas próprias amantes. 

Um irmão, quando por lá esteve comigo, entupia toda a fonia por horas e horas. Era tanta “saudade”, que só mesmo a curiosidade junto à paciência coletiva e anônima, para aturar...

Com tantos outros modernismos na Amazônia, lá se foram graça e prazer...ainda mais que até as mulheres mudaram muiiiiito.



José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.
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