06/02/2021 às 20h36min - Atualizada em 06/02/2021 às 20h36min

Loucos, bêbados e côrnos

José Altino. Foto:Arquivo Pessoal.
 
 
Manaus. Em casa, recebi revista com o artigo sobre a Amazônia e garimpos. Havia um quadrado fechado, chamado “box”, falando a meu respeito.  Lá dizia que, para pessoas de fora desse universo amazônico ou com interesses contrariados a ele, eu seria apenas algo como a um vulgar assaltante de estrada! Mas, para os que nela viviam, não era nada disso, sendo inclusive, uma pessoa muito importante para eles. Complementava com a seguinte frase: "Dotado de uma coragem incomum!" Pensei com meus botões: gente, de onde esse repórter tirou tal conclusão? Nunca passara tanto medo, como no dia em que voara com ele. Não sei como, nem onde notara essa "coragem incomum!”
 
O que acontecia é que acostumáramos a conviver com o medo, sabendo nos comportar diante dele. Entendíamos bem, que em nosso caso, pânico ou o descontrole seriam fatais. Éramos os condutores únicos da segurança e da possibilidade de continuarmos vivos. E isso não nos transformava em pessoas, para os de fora, excepcionais, mas, até pelo contrário, extremamente chatas!
 
Quando em repouso, à falta da adrenalina, que sempre gerávamos no longo trabalho constante, fez com que alguns se tornem agressivos e outros se entregassem à bebida. Bebiam feito gambá! Foi a constatação que feita, apoiada em afirmações médicas, que diziam ser ela, inebriante toxina.
 
Uma pesquisa ainda mostrava que, meio a meus companheiros de profissão, encontrara uma triste revelação. Incrível, mas grande percentual dos pilotos de garimpo era formado por cachaceiros!  Conclusão pior, “cornos” também. Chato, não é? 
 
O caso era que as mulheres dos pilotos não agüentavam a barra e o casamento acabava da pior forma. E o mais curioso, elas os traíam ou os deixavam ou eram abandonadas depois que traíam, e, estranhamente, eles não se importavam muito! Trocavam de mulher e a história acabava por aí. 
 
Essa é uma boa diferença que tive em relação a eles, talvez por ter escolhido “melhor” minhas mulheres. De mim, a primeira levou dinheiro, e não foi pouco; a segunda, união indesejada. Tanto que, chegando do garimpo à casa de minha filha Rachel, onde ficava quando estava em Roraima, direto ao banheiro, banho tomado, enrolado na toalha, nu estava. No guarda-roupa, nem uma peça minha. A “segunda”, gaúcha de boa cêpa, cheia de más intenções, tinha levado tudo para a casa dela. Fui lá buscar, acho que a culpa foi ir sem cueca por baixo da calça, que coisa, tchê!  Levei quase cinco anos para voltar com o vestuário, ainda assim incompleto. Essa produziu acomodação, esgotou minha silenciosa paciência e traumatizou-me com menopausa. Ainda assim, achei bom, pois talvez não quisesse passar o dissabor que um piloto meu, teve. 
 
Belo dia, na cidade de Manaus, no escritório anteriormente conduzido por Rachel, onde se faziam os despachos para o garimpo, o telefone tocou. Era um rapaz que voou para mim muitos anos, um português/angolano, contando, lá de Itaituba (PA), que a mulher dele “tinha dado”:
¬– “Olhe, chefe, eu estou aqui num aborrecimento doido, porque minha mulher “deu”. Também portuguesa, tinha vindo com ele. 
 
Na hora, fiquei foi com raiva dele, porque tinha previsto a possibilidade disso acontecer. Tinha dito isso a ele! E ainda cantara a bola. 
 
Seria com um outro português, recém-chegado, a quem ele estaria tentando arrumar emprego, garantindo o rapaz. Levava–o para casa, enquanto se arrumasse.  O jeito do cara, olhar para o chão, mão suada e muito lisa, fez me chamar o “mano” de lado e prevenir: –- Não faça isso, porque “isso” não é gente pra se colocar em nossa casa! 
 
Mas, ele levou o cara. Depois teve que sair pra fazer um vôo e quando voltou, encontrou a triste realidade do hóspede na cama com sua mulher. O pranto e o pavor do rapaz acabaram me levando a Itaituba, o mais rápido possível. Lá, liguei para alguns colegas aviadores e procurando falar com um deles, rapaz de grande conceito e respeito de todos, pedindo para que contornasse a situação, evitando assim coisa pior. 
 
Tempos depois, meu filho José, preocupado, deu-me a notícia de que o “mano” havia perdoado a mulher e se mudara para uma casa emprestada, lá mesmo, porém dentro da área do Batalhão de Selva, do Exército. 
 
Vizinhança fardada e sexualmente faminta... Inocente, azarado.



José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, ex-fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.
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