13/02/2021 às 17h25min - Atualizada em 13/02/2021 às 17h25min

O SILÊNCIO DOS TAMBORINS

Rui Guilherme. Foto:Arquivo Pessoal
 2020 fica na história como o ano da pandemia do corona vírus. Como o bicho só começou a pegar no Brasil no fim de fevereiro, início de março, o réveillon 2019/2020 ainda foi celebrado com muito champanhe e queima de fogos. Copacabana foi aquela lindeza de sempre. A bolona desceu pra o chão da Times Square ao ritmo da contagem regressiva; a Torre Eiffel foi aquela festa de luzes; a baía de Sidney refletiu as imagens coloridas da pirotecnia exibida nos céus sobre as asas de gaivota da Ópera; na Avenida Paulista, no Farol da Barra, na Ponte Hercílio Luz, na orla de Macapá, na Doca de Souza Franco em Belém, em toda parte brindava-se pela chegada do ano novo. Festejava-se no mundo todo com esperança de dias melhores que acabariam não vindo durante todo o ano da pandemia. No Brasil, curada a ressaca do réveillon, chegou e foi vivida com toda pompa e circunstância a folia do Carnaval de 2020. Logo em seguida a alegria daria lugar ao medo, à tristeza, à autorreclusão, ao esvaziamento das ruas e praias, ao cancelamento dos shows, ao fechamento dos cinemas e teatros. 

As máscaras bufas do carnaval que passou deram lugar a máscaras cirúrgicas, tudo isso a despeito da esquisita postura negacionista do exótico presidente dos Estados Unidos e de seu colega e entusiasmado seguidor no Brasil. Bolsonaro chegou a afirmar que a Covid 19 que ceifaria milhões de vidas no mundo não passava de uma “gripezinha”. Espelhando-se em Trump, fez pouco da profilaxia recomendada pelas autoridades sanitárias; obstinava-se em não manter isolamento social; recusava-se a usar máscaras; trocava em rápida sucessão os ministros da Saúde, recomendando tratamento preventivo com uso da cloroquina associada a um remédio para piolho: quem tomasse tais drogas, diziam Bolsonaro e seguidores, evitaria ou ficaria milagrosamente curado da “gripezinha”. Tudo balela, como a ciência logo provou.

Na passagem de 2020 para 2021 não houve comemorações. Nem as celebrações do Natal aconteceram. O tempo das boas festas foi marcado pelo recolhimento, pelo isolamento social, pela espera da tão desejada vacina. Em alguns lugares do mundo, as campanhas de imunização começaram ainda no correr do ano passado, paralelamente a uma nova onda da pandemia e mutações virais na Grã Bretanha e na África do Sul.

 Em terras tupiniquins, junto com o recrudescimento da infecção, inclusive com o surgimento de nova cepa no Amazonas, onde também se registrou uma tragédia sem precedentes com a falta de oxigênio causando a morte de pessoas infectadas por asfixia, como que morrendo afogadas em terra firme, o povo assistia atônito as marchas e contramarchas na aquisição de vacinas prontas ou do IFA – insumo farmacêutico ativo – para produção das doses no Instituto Butantan e na Fiocruz.

Eis que chega fevereiro. Começa a vacinação em marcha lenta e hesitante. Enfim, o calendário anuncia o chamado tríduo momesco. Mas... cadê o Rei Momo? Por onde andam as sonoras baterias? As sensuais sambistas? O colorido das fantasias?  O confete, a serpentina, a lança-perfume, aquele riso bobo na cara das pessoas, onde foi parar tudo isso?

Velha marchinha dizia que “eu vou botar / meu bloco na rua / eu vou / botar pra quebrar”. Outra cantava:- “tanto riso, oh, tanta alegria / mais de mil palhaços no salão / Arlequim está chorando / Pelo amor da Colombina / No meio da multidão”. O sambista convidava, sedutoramente:- “Violão, pandeiro / tamborim na marcação / e reco-reco / meu samba / viva meu samba verdadeiro / porque tem / teleco-teco”.

Melancólico carnaval este dos tempos de pandemia. Rei Momo não tirou a coroa da gaveta. Meu  bloco, nem o meu, nem o teu, nem o  de ninguém, vai pra rua. O Bola Preta já gravou vídeo no Teatro Rival. O Boi Tátá também vai transmitir seu samba pela internet. A Banda de Ipanema vaio ter de ficar em casa; quando muito, as garotas com seus minúsculos biquinis e os marmanjos em sungas e bermudas vão pegar cedo uma praia, mas logo vão ter de deixar as areias e seguir para o trabalho, pois  foram cancelados os feriados da quadra carnavalesca. O Sambódromo vai ficar com cara de cemitério: só as lufadas quentes dos ventos do verão carioca vão fazer fantasmagoricamente dançar jornais velhos na pista e nas arquibancadas. As baianas, as rainhas da bateria, as porta-bandeiras, os mestres-sala, as comissões de frente, os carros alegóricos, nada disso vai aparecer na Sapucaí. A polícia vai estar na rua, prometendo cana para foliões rebeldes que pretendam se arriscar saindo em blocos de sujos clandestinos.

Choram os hotéis com as baixas taxas de ocupação. Nas praias, os vendedores em vão procuram fregueses com a pele da cor de camarão frito para poder empurrar-lhes as bugigangas com preços superfaturados. Lastimam os taxistas a falta de passageiros que dão gorjeta em dólar ao serem afagados com informações sobre as maravilhas do Rio prestadas em inglês macarrônico, adoçado pela musicalidade do sotaque carioca.  

A ordem do dia é precaver-se contra a Covid 19: usar máscara, higienizar as mãos com água e sabão, álcool gel e spray a toda hora, ficar em casa, manter o isolamento social. Esse último é que é o xis da questão. Aqui, na Europa, nas Américas, em todo lugar, o mais difícil tem sido convencer o público de que manter a distância um do outro, evitar aglomerações, manter-se em casa, é uma das mais eficientes alternativas para ajudar a conter a contaminação por essa minúscula partícula que causa infecção grave, podendo levar a óbito.  

Recordem-se os versos do compositor:- “Quem não gosta de samba / bom sujeito não é / é ruim da cabeça / ou doente do pé”. E prossegue, em outra música: - “Samba da minha terra / Deixa a gente mole / Quando se samba / Todo mundo bole”. Como segurar quieto em casa esse povo que tem ginga no corpo, malemolência na dança, samba no pé, futebol no coração, alegria em meio à desgraça, otimismo e fé em em Deus no auge do desemprego, sorridente na fila para receber o auxílio emergencial? – “Brasil, meu Brasil brasileiro / Meu mulato inzoneiro / Vou cantar-te nos meus versos”, assim começa a icônica “Aquarela do Brasil”.

Pendurado na porta do trem, Zé Marmita vai e vem até que chega em casa. Dá graças a Deus pela Maria que o espera no barraco coberto com telha de zinco,  por ter comido sua bóia fria no intervalo pro almoço, pois enquanto muitos vizinhos arrancam os cabelos por estarem sem emprego, sem renda, sem esmola pública, ele ainda se mantém com carteira assinada como auxiliar de pedreiro. E, preparando-se para uma rápida voltinha pela comunidade, pede da cabrocha o batom e a maquiagem, a saia velha e o sutiã para poder, vestido de mulher, festejar, mesmo que a medo, mesmo que só por ali, pertinho do barraco, a passagem do carnaval. Se a polícia chegar, paciência. Se não conseguir escapar da Dona Justa, é curtir um tempinho em cana. Coisa pouca, que não está praticando nenhum crime.

Zé Marmita e tantos outros súditos de Momo dificilmente deixarão de curtir o carnaval. Não se lhes toca a consciência que, evitando sair em grupos, estarão evitando de pegar a Covid 19, deixando de por em risco a si próprios e às suas Marias, Zezinhos e Mariazinhas.  

A vacina já chegou. A imunização pode andar em passos de cágado, mas está em curso. A pandemia passará, como tudo na vida. É duro um ano sem carnaval, mas pior ainda é cair no samba para depois cair de cama e até vestir o paletó de madeira, tornando-se morador permanente da Cidade dos Pés Juntos.

Para fugir da ameaça invisível e sorrateira, o melhor que se pode fazer é pedir perdão a Momo, a Baco, a quem quer que esteja lhe piscando o olho e o convidando para a folia. Para este carnaval em meio à pandemia, é prudente e solidário manter em silêncio os tamborins.




Rui Guilherme 
Juiz de Direito e Escritor.
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