21/02/2021 às 00h27min - Atualizada em 21/02/2021 às 00h27min

ACHEI UM “DOUTOR”

José Altino. Foto:Arquivo Pessoal.

                                     Logo após a publicação do artigo “Onde Andará Meu Doutor”, que como bem disse não era de minha autoria e apenas lhe dava acolhimento, recebo a seguir, mensagem de profissional médico membro do Conselho Estadual de Medicina- MG. Assim, volto a eles a questão. 

Estão todos, meio loucuras incontroláveis, atual e melhor adjetivação para o esforçado sistema de saúde pública em nosso país. Imagino no passado terem sido tomados por uma boa idéia, não a vendo jamais como é sonho e utopia que não encontra praticidade em resposta à tão gigantesca tarefa. Ao conceberem seu funcionamento sequer bem planejaram sua melhor condição para sustentação. Quanto melhor fica, pior vai ficando. Tornou-se um buraco negro, onde os recursos nunca são suficientes e onde as políticas e discursos para o setor se tornam cada vez mais catastróficos. Maldade maior é que muitos ainda conseguem votos e preferências em cima da desgraça de tantos.

Com melhor senso de justiça reconheço que mesmo assim, já evoluímos bastante. Há não muitos anos atrás sequer estes reconhecidos “desastres” de agora existiam. O caos só não era maior porque no cotidiano, os farmacêuticos pacientemente acudiam aos mais humildes, dividindo com doutores o trato comezinho. Leve-se em conta ainda que as velocidades nas quais os homens viviam, eram bem aquém da atual.  Cair de escada, burro, charrete ou bicicleta causava estrago menor, por isso não convivíamos pelas ruas, com tantas sirenes e loucas corridas de ambulância.

Malandragem maior é a continuada disseminação da crença que apenas o poder público possui deveres e obrigações em cuidar da saúde de todo mundo e que o faça direitinho. Tal raciocínio beira a sandice, pois tudo é responsabilidade nossa, de nosso voto e cultura. É omisso e inútil proceder como se tudo só existisse no acidente e doença alheia para os outros, de modo tal que quem dela não necessita no momento e instante é como se não fosse com eles. Nosso país não é absolutamente uma governança por sangue real, nem tampouco tirana ditadura. Tenhamos sempre em mente, que todo mundo que lá está e que constitui o poder, fomos nós mesmo como maioria que constituímos e delegamos força sobre nossa vida e bens. 

Entretanto, se a culpa é tão somente de governantes e desacerto governamental como protesta e afirma o senhor membro do conselho regional de medicina em sua publica carta, a incoerência torna-se total, pois nem o citado desacerto governamental seria de responsabilidade isolada e exclusiva da sociedade que produz governos e os envolve. Mais de cinqüenta deputados federais são médicos. E também médicos, muitos são os senadores, governadores e prefeitos. Sempre foram até por méritos, maior das vezes, participantes das atividades políticas nacionais. É de um deles a invenção da CPMF salvadora... em todos os estados na contagem por tempo de mandatos, ganham com folga...por isso não estou entendendo.

Na mesma mensagem, ele critica ainda os planos de saúde que retiraram dos médicos a condição de profissionais liberais, transformando-os em míseros cooperados. Vivi então ate aqui em permanente engano. Para mim, os mais importantes planos do país foram gerados e mantidos pela própria classe médica. 

Em seu escrito o conselheiro pegou pesado demais. Dizer que no plano social e no geral, o medico é de classe baixa e que como resultado disto o medico está triste, revoltado e reprimido, não tendo adequação psicossocial para estar bem biologicamente, demonstra inteligência bem diferente da imensa maioria de sua classe. A tolice é grande, e com ela não posso concordar nunca, pois ate sendo filho de pai que lhe agüentou pagar o curso, não poderia advir da mencionada classe. 

Todo e qualquer médico, seja da classe econômica que for, por si só já goza de um tremendo privilégio Divino, pelo talento recebido para o aprendizado em tão alto grau, bastante valioso e importante na difícil profissão escolhida, uma das mais procuradas e ate mesmo nobre para muitos. Há que ser e continuar assim. A opção pessoal de sacerdócio adquirido deveria ser continuada, e como vaidade maior, o bem-estar do ser humano, apenas o que a vida lhe cobra. Há que existir compreensão de que todas as miscigenadas classes que os procuram, jamais podem lhes igualar em cultura, saber ou mesmo educação, precisam sim do que eles aprenderam.

Talvez, com o academismo falando mais alto que o próprio coração, é que também outros como tal conselheiro, não estejam conseguindo ajustar suas mentes e próprias razões ao espírito da coisa. Deveriam levar sempre em conta que são as mais caras formações profissionais que existe em todos os países, e quando não há a paternidade rica para emergi-las, paga o Estado (leia-se o povo) através das universidades públicas, mantidas tão somente por toda a clientela dependente da medicina, rica ou carente.
Acredito mesmo, que os não pacientes e pacientes, não tem tanta culpa, as escolhas foram de Deus, da própria fortuna e de uma maioria de homens.

O artigo “Onde andará meu doutor”, uma obra prima aos meios de comunicação, “A ARTE DA MEDICINA ESTÁ EM OBSERVAR Olhe para mim”... é de autoria da médica sanitarista pernambucana dra. Tatiana Brusky.


José Altino
Jornalista diário, escritor, aviador, fundador da União Sindical dos Garimpeiros da Amazônia Legal, ex-membro do Conselho Superior de Minas.
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