06/03/2021 às 19h52min - Atualizada em 06/03/2021 às 19h52min

OTIMISMO ASSASSINO

Rui Guilherme Juiz de Direito e Escritor. Foto: Arquivo Pessoal

  Nos tempos bíblicos, a lepra era considerada uma punição de Deus ao pecador; ou uma prova, como aquela que o Senhor permitiu que Satanás desse a Jó.

Morador da terra de Uz, Jó era o homem mais rico e feliz de todo o Oriente. Tinha sete filhos e três filhas, sete mil ovelhas, três mil camelos, mil bois e quinhentas jumentas e um grande número de escravos, aos quais tratava com grande bondade. Viviam todos na abundância, os filhos promovendo festas e banquetes em que todos se regozijavam à farta. Depois dos banquetes, Jó louvava o Senhor e Lhe oferecia sacrifícios, demonstrando sua gratidão por tudo quanto Deus lhes propiciava.

Satanás pôs em dúvida a sinceridade de Jó na forma como ele louvava a Deus, dizendo que é fácil dar graças quando se é próspero e feliz, mas se lhe fossem tiradas as benesses, iria maldizer ao Senhor. Deus, então, permitiu a Satanás que pusesse Jó à prova, de modo que Jó começou perdendo  todos os bens materiais, mas não só: um vendaval soprou sobre a  casa onde festejavam os filhos e filhas de Jó, matando todos os que lá estavam.

Quando o único empregado sobrevivente lhe relatou esse último infortúnio, Jó rasgou suas roupas e rapou a cabeça, ajoelhou-se e louvou ao Senhor, dizendo:- Nasci nu, sem nada, e sem nada vou morrer. O Senhor deu, o Senhor tirou. Louvado seja o Seu nome!
Quando Satanás voltou diante do Senhor e que lhe foi dito como era inabalável a fé do infeliz Jó, obteve autorização para atingir Jó em sua saúde, de modo que Jó ficou leproso, usando um caco de telha para coçar as ulcerações. Quando a mulher lhe reprovou sua fidelidade para com o Altíssimo, Jó lhe respondeu:- Se recebemos de Deus as coisas boas, por que não vamos aceitar também as desgraças?

A história de Jó tem um final feliz. Depois de se ter lastimado pelas duras provas pelas quais passara e das conversas que teve com três amigos que não foram justos para com Deus, Jó se retrata. O Senhor então lhe manda oferecer sacrifícios e orar pelos três amigos, que também não foram castigados. Além disso, diz a Bíblia que Deus fez com que Jó ficasse rico de novo e lhe deu em dobro todos os bens que antes possuíra, além de lhe dar sete filhos e três filhas, permitindo-lhe viver cento e quarenta anos, o bastante para ver netos e bisnetos.

O arquipélago do Havaí é formado por sete ilhas. Uma delas, Molokai, era usada para abrigar os muitos leprosos para lá segregados e onde iam esperar a morte, pois no tempo dos polinésios não havia cura para a hanseníase. Para evitar o contágio, os doentes eram depositados em Molokai, de onde ficavam impedidos de sair. Não lhes era permitido ter embarcações e, se tentassem fugir nadando, não teriam nunca sucesso naquelas águas turbulentas e infestadas de tubarões.

Na Idade Média, a peste bubônica, chamada de morte negra, levou a óbito um imenso contingente de pessoas. Morriam como moscas, e o contágio só fazia aumentar o número de vítimas fatais da doença provocada pela pulga no pelo de ratos que viviam na imundície das cidades, vilas e castelos medievais. Morreram de 75 a 200 milhões de pessoas na Eurásia, o pico atingindo a Europa entre os anos de 1347 a 1351. Da Grande Peste, resultou a morte de um terço da população europeia no curto período de quatro anos.

A gripe espanhola assolou o mundo de janeiro de 1918 a dezembro de 1920. Pandemia do vírus influenza, infectou uma estimativa de 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época. E isso em não mais que dois anos.
O coronavírus, em estimativa às 14 horas do dia 5 de março de 2021, já infectou 111.781.179 pessoas no mundo. Estão morrendo cerca de 11 mil por dia.

A ciência já produziu, em vários países, a vacina para que os imunizados possam desenvolver anticorpos capazes de combater o vírus.

Países há em que a pandemia começa a ser controlada. Alguns, os dotados de maior civismo e consciência social, entre os quais se destacam Nova Zelândia, países escandinavos, Israel, Grã-Bretanha, a própria China (de onde veio a Covid 19).

Portugal, que enfrentou um tsunami no aumento de casos da doença provocado pelo relaxamento nas medidas de isolamento social, ao aumentar as iniciativas profiláticas e com apoio da vacinação, conseguiu reduzir significativamente o avanço da pandemia. Ainda assim, mantém o lockdown.

Enquanto o mundo civilizado encara com seriedade a ameaça da Covid 19, o Brasil, que, em conjunto com a Inglaterra e com a África do Sul já conseguiu produzir uma nova cepa do vírus que aumenta em até seis vezes o risco de contaminação, tanto pela ação das autoridades, a começar do presidente da República e seus seguidores, passando pelo povo que continua desrespeitando as regras de isolamento social, continua encarando com um otimismo assassino a contaminação desse mal que pode ser mortífero.

O presidente, em seu habitual destempero, recentemente mandou que fossem comprar na casa da mãe os que querem adquirir vacinas. De outra feita, ao ser perguntado por que se estava demorando tanto para comprar vacinas, respondeu que o Brasil era um imenso mercado com mais de duzentos milhões de compradores, por isso não era o governo federal que deveria pôr-se em campo para comprar e/ou produzir a vacina salvadora, mas sim os produtores; eles, sim, é que deveriam vir de pires na mão enfileirar-se às portas do Palácio da Alvorada, batendo continência e apresentando-se submissos ao capitão comandante com humildade e temor reverencial.

Dá raiva, muita raiva, impotente raiva, ver a lentidão com que a vacinação avança no Brasil de norte a sul, de leste a oeste; o constante atraso no calendário de imunização; as bizarrices da diplomacia brasileira nas démarches para aquisição de insumos e/ou vacinas prontas; o atabalhoamento daqueles de quem mais se esperam medidas racionais e efetivas para poder livrar o povo brasileiro da ameaça viral.  Tudo isso dá raiva, muita raiva mesmo. Raiva impotente de quem se vê diante de uma ameaça séria à vida e à saúde própria e de seus familiares e amigos, constatando que nada pode fazer além de ficar passivamente à espera da vez na fila de vacinação.

Mas raiva mesmo, aquela raiva que dá vontade de pegar um megafone e sair por aí aos berros, é o que sinto quando vejo um bando de desalmados aglomerando-se nas praias, nos bares, nos bailaricos, nas boates, celebrando a vida enquanto a Dama da Foice zombeteiramente os contempla em suas farras temerárias só esperando o momento de lhes cortar o tênue fio da existência. Se a atitude desses desumanos se espelha no exemplo de autoridades que chamam a pandemia de gripezinha; de diplomatas que fazem pouco dos países onde se produzem insumos e vacinas, dificultando as negociações para compra do antídoto; que se deixam seduzir por aquela escória que promove os eventos onde o esfrega-esfrega de um com o outro faz aumentar a contaminação, o que posso dizer é, se as aglomerações se devem a uma paranoica ideia de que não serão contaminados; de que, mesmo que adoeçam,  sempre haverá vaga para eles nos hospitais; e de que, embora a Covid os atinja em cheio, não irão transmiti-la a seus próximos, tudo que posso fazer é registrar neste artigo que esses idiotas não estão sendo movidos por uma esperança sadia e racional, mas, sim, por um otimismo assassino.
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