13/06/2019 às 06h00min - Atualizada em 13/06/2019 às 06h00min

O caminho da longa vida

Estamos vivendo mais, mas não necessariamente melhor. Enquanto a ciência ainda corre atrás do gene da longevidade e a sociedade tenta entender o impacto dos anos a mais na economia e na saúde, a medicina garante que, quanto mais cedo se pensar na velhice, melhor ela será

Oswaldo Cruz
Dr. Jaluul lembra ainda que é preciso colocar nessa equação o planejamento da vida financeira, afinal, se vivemos mais, precisamos ter dinheiro para bancar esse tempo extra. (Oswaldo Cruz)
Washington Luís era o presidente do Brasil quando Elvi Donini Pinhel veio ao mundo, no dia 1º de junho de 1928. A expectativa de vida de uma pessoa que nascia naquela época era de meros 36 anos. Aos 91 anos, e com uma memória excelente a ponto de se lembrar dos 23 presidentes brasileiros que testemunhou ao longo de sua vida, dona Elvi superou em 55 anos a expectativa de vida de sua geração. Professora aposentada pelo Estado de São Paulo, ela supera até mesmo a projeção de quem está nascendo agora, em 2019: de 80 anos para mulheres.

Embora tenha se aposentado em 1985, aos 57 anos, Elvi ainda trabalha. Todos os dias, das 9h às 15h, ela dá expediente em uma associação de professores aposentados, rotina que leva desde que encerrou a carreira como docente, iniciada na zona rural de Andradina, interior paulista, até a última sala de aula em que lecionou, já na capital. Trabalhar aos 91 anos não é cansativo? “Fico um pouquinho cansada, sim, mas faz parte, né?” Em casa, ainda faz tricô e crochê e adora cozinhar para a família – são três filhos e dois netos.

Apesar de sempre ter se alimentado bem, ser física e intelectualmente ativa – só largou o pilates porque a aula mudou de horário e ela não queria abrir mão do trabalho –, Elvi é uma exceção: é o que os pesquisadores e médicos chamam de geneticamente favorecidos – ou sortudos. “É o ganhador da loteria, que não só vive muito como vive bem”, define o Dr. Omar Jaluul, geriatra do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Tirando esses poucos, todos os outros têm que suar a camisa se quiserem ter uma vida longa e próspera. “Longevidade é 30% componente genético e 70% estilo de vida”, completa o especialista.
“Suar a camisa” significa seguir a cartilha básica da vida saudável para qualquer idade: ter boa alimentação, praticar atividade física, investir em cuidados preventivos, como fazer check-up médico regularmente, e cultivar boas relações sociais. Inclui, ainda, não ter vícios – cigarro, álcool e açúcar são, sim, os grandes vilões da vida saudável. E pequenas mudanças de hábitos já impactam na vida de quem tem mais de 60 anos. Comer mais “gordura boa”, aquela do azeite de oliva, do abacate e das oleaginosas, ajuda a proteger o coração e fortalecer o sistema nervoso central. Além de menos açúcar, menos sal também é a regra, em especial para quem tem hipertensão e problemas renais. Aumentar o consumo de fibras garante o bom funcionamento do intestino que, como todo o corpo no processo de envelhecimento, fica mais lento. Exercício físico considerado ideal é aquele que se encaixa melhor na rotina e no gosto de cada um, mas os especialistas são unânimes em relação a uma certeza: musculação se torna cada vez mais essencial conforme os anos se passam. “A partir dos 30 anos, a gente já começa a perder massa muscular”, explica Dr. Jaluul. Atividade física também é uma aliada do bom sono. Muitos idosos se queixam da perda da qualidade do sono, o que, em parte, é do próprio processo de envelhecimento. No entanto, comer coisas pesadas à noite, tirar sonecas ao longo do dia e diminuir as atividades da rotina contribuem para um sono pior. Manter-se ativo, como se pode ver, é essencial para estar bem não apenas durante o dia, mas também na hora de dormir.

Dr. Jaluul lembra ainda que é preciso colocar nessa equação o planejamento da vida financeira, afinal, se vivemos mais, precisamos ter dinheiro para bancar esse tempo extra. “Se fizermos tudo isso, a chance de vivermos mais e com qualidade é maior”, diz o médico. E, de preferência, recomenda-se não deixar para começar a fazer isso aos 60 anos – se nos planejarmos desde os 30, 40 anos para a velhice, mais preparados estaremos para ela.

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