14/07/2019 às 17h30min - Atualizada em 14/07/2019 às 14h00min

Roraima vive colapso social e crise humanitária, aponta audiência

Mecias de Jesus confirmou que a situação em seu estado é "dramática", atinge brasileiros e venezuelanos, e cobra ações mais efetivas por parte do governo federal.

Agência Senado
O debate, além de apontar o quadro de emergência no estado, reconheceu ações de apoio aos imigrantes, mas cobrou mais empenho do governo federal para reforçar ações de educação, saúde e segurança. (Geraldo Magela/Agência Senado)

Fome, desemprego, desassistência social, aumento da violência e ausência de infraestrutura de saúde e educação. Esse é o cenário vivido por Roraima em 2019, segundo participantes de audiência das Comissões de Relações Exteriores (CRE) e de Direitos Humanos (CDH) que debateram, como o Brasil está lidando com o aumento da imigração, especialmente de venezuelanos.

— Vi com meus próprios olhos muitos venezuelanos passando fome em Roraima. Pelo menos 10 mil deles estão completamente desassistidos e passando fome, com muitos indo a óbito. Muitas mulheres e crianças não têm nenhuma assistência de saúde, vi crianças mortas jogadas em redes de esgoto. Também é assustador o número de moradores de rua, tanto venezuelanos quanto brasileiros — disse o ativista social João Rodarte, diretor da Sociedade Espírita Auta de Souza, uma das instituições religiosas que tem prestado auxílio voluntário no estado, junto com organizações do governo e da Organização das Nações Unidas (ONU).

O senador Mecias de Jesus (PRB-RR) confirmou que a situação em seu estado é "dramática", atinge brasileiros e venezuelanos, e cobra ações mais efetivas por parte do governo federal.

— Hoje 20% da população em Roraima já é constituída por venezuelanos. A população de rua já passa de 10 mil pessoas. É preciso que as autoridades percebam que a crise em nosso estado não pega só os migrantes, atinge a todos. Quando o presidente [da República, Jair] Bolsonaro resolveu enviar um caminhão de ajuda humanitária para a Venezuela, eu me perguntei "porque não distribui aqui mesmo"? A ONU, os militares brasileiros e outros setores estão de parabéns pelo trabalho heroico de assistência que prestam, mas ele atinge um número muito reduzido de no máximo 7 mil pessoas — esclareceu Mecias, acrescentando que alguns abrigos de venezuelanos são marcados pela ausência de médicos, remédios, equipamentos, escolas e merenda escolar.

Colapso na segurança

O senador detalhou que a única estrutura pública que ainda funciona a contento nos abrigos é a de segurança, feita por militares brasileiros. Ainda assim, Mecias entende que as Forças Armadas já deveriam estar, "há muito tempo", atuando no auxílio à segurança pública em todo o estado.

— Deveriam colocar o Exército nas ruas pra ajudar as Polícias Civil e Militar. Dados da Secretaria de Segurança Pública apontam que a criminalidade aumentou mais de 50%. Não há um dia sequer em Boa Vista em que não ocorram assassinatos, crimes e assaltos graves cometidos, infelizmente, com a participação de venezuelanos — afirmou.

O representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), Pablo Mattos, confirmou que a criminalidade aumentou recentemente no estado, mas entende que ela está mais ligada à atuação de facções criminosas comandadas por brasileiros do que à migração venezuelana.

— Trabalhei o último ano e meio em Boa Vista, e o que constatamos é a atuação de grupos criminosos organizados por brasileiros, que não vou citar os nomes pra não prestigiar essa cambada, que comandam a criminalidade de dentro dos presídios. A criminalidade mais grave está vinculada a isso, embora venezuelanos também estejam cometendo crimes, já que a participação deles na população total hoje é expressiva — detalhou.

Dinheiro mal usado

O trabalho de interiorização de venezuelanos para outros estados feito pelo governo, em parceria com diversas entidades da sociedade civil, também foi elogiado durante a audiência, embora percebido como "insuficiente". Um dos fatores que, segundo Mecias de Jesus, atrapalham a inserção social dos venezuelanos é que a maioria deles tem baixa qualificação.

— Conheço bem a Venezuela, viajei muito de carro para lá, conheço todo o país. Esses migrantes que vêm para Roraima são em sua maioria pessoas de baixa renda e indígenas que eram atendidos por programas sociais nos governos [dos presidentes venezuelanos] Hugo Chávez e Nicolás Maduro, mas que deixaram de sê-lo porque a economia deles faliu — disse.

O senador registrou que a Operação Acolhida, que busca oferecer infraestrutura para os imigrantes, já recebeu R$ 500 milhões do governo federal. Mas Mecias entende que os recursos são mal aplicados.

— Tem também muitos brasileiros passando fome em Roraima, desassistidos. O desemprego já chega a 20%. O governo mandou R$ 500 milhões pra atender 6 mil venezuelanos na [Operação] Acolhida, mas não enviou nada para os sistemas de saúde, educação ou segurança pública do estado, todos sobrecarregados — reclamou.

O senador Eduardo Girão (Podemos-CE) também entende que o Parlamento precisa averiguar "onde esses R$ 500 milhões foram aplicados", e porque não são destinados aos sistemas públicos ligados ao governo estadual.

A diretora da organização não governamental (ONG) Associação Compassiva, Camila Suemi, disse que realizou no mês passado um levantamento nos abrigos, junto às Forças Armadas, constatando que cerca de 2.600 venezuelanos atendidos naquele momento possuíam curso superior. Ela pediu ao Parlamento que aprove uma lei facilitando o processo de revalidação de diploma para esses profissionais.


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