O historiador, sindicalista e politico gaúcho Raul Carrion, em um sintético e esclarecedor artigo, intitulado “Ditadura, Nunca Mais”, revela a dantesca estatística do golpe de 1964, onde 18 mil militares, em uníssono, gritaram contra democracia e pisotearam os direitos humanos como um elefante em fúria. Segundo ele, “a ditadura militar de 1964 não foi criação de ‘homens maus’ ou fruto de mente degenerada de alguns generais facínoras. Foi criação de um sistema de exploração em crise que, para manter-se, precisou assumir a forma totalitária e repressiva”. Diz ainda, que esse episódio infelicitou a Pátria por 21 anos. Aí há de se divergir do ilustre gaúcho. O golpe de 1964 não acabou!
A eleição indireta de Tancredo Neves em 1985 nunca representou o fim do período ditatorial, foi apenas um recuo do dito sistema de exploração que precisa se adaptar aos novos tempos. Sempre se ouviu ruídos nos quarteis de militares contrariados e de cara franzida com governos civis. Aqui e acolá um general vociferava contra os governos democráticos, sempre dando a entender que havia alguma insatisfação com o regime democrático. Assim, o espírito do movimento de 1964, que de revolução foi justamente classificada como golpe, foi sempre mantido na caserna como uma aspiração viva e possível.
Os sucessivos governos de centro-esquerda no Brasil, sobretudo os vencidos pelo Partido dos Trabalhadores, irritaram o hibernado sistema de exploração que não viu outra saída para voltar ao poder a não ser planejando e executando um outro golpe. No segundo governo Dilma Roussef, os militares e as elites insatisfeitas, começaram a por em prática um golpe que culminou com o impeachment da presidente. Esse golpe – executado sob uma interlocução perfeita entre a elite insatisfeita, tinha, por trás, o beneplácito dos militares que, na sequência – com a prática do lawfare por membros do judiciário – elegeram um dos seus, triunfando o espírito de 1964, sob nova roupagem.
Esse contexto fático revela claramente que 1964 não acabou, sobretudo pela confirmação dos atos antidemocráticos de 8 de janeiro próximo passado que, ignorando a vontade popular sufragada nas urnas, queria incendiar o país e recolocar no poder o novo mito do dito “sistema de exploração” citado por Raul Carrion. O país ainda sente a presença e o cheiro do totalitarismo e da repressão quando são eleitos militares e civis simpáticos à ditatura militar e que não titubeiam de – em plena casa do povo – gritar por intervenção militar e impeachment de representantes do povo democraticamente eleitos. O país precisa ficar atento, pois 1964 Ainda não acabou, caro Raul Carrion.
1964 não acabou, caro Raul Carrion
