• Caminhando pelas ruas de Macapá entre meus iguais, amapaenses, observo, ou nos observo, o povo em suas lutas diárias e fico aqui a pensar… Pensar sobre o que significa o Natal para nós e em nós.
• Natal não é a passagem de um dia solar. É um período em que as pessoas confraternizam com seus chegados, amados e parentes. Alguns dizem que é mera data estabelecida para estimular o comércio; outros, que é o dia mais importante do ano; pois, é a data em que nasceu a referência do Cristianismo, aquele cujas ações e ensinamento são, ou deveriam ser, a referência para nosso agir em nossa curta passagem pela terra.
• Tivemos um ano marcado pela pandemia que assolou com mais intensidade, senão física, mas certamente emocional todo o nosso planeta. É o primeiro Natal pós-pandemia. E o que esperar dele?
• Temos nas ruas um maior número de pedintes, pessoas com o olhar vazio da desesperança. A humildade com que pedem o que comer, vestir, calçar, distrair, entre outras coisas simples para sobreviver, lembra uma prece silenciosa.
• Mas, contrastando com essa aparente paz daqueles que perderam tudo, até a esperança, mas mantém a humanidade; temos as notícias daqueles que nas redes sociais se robotizaram e agem no sistema binário digladiando-se na defesa de seus ídolos. Agem com tanto vigor, foco e concentração que, perdoem o pleonasmo, lembram as programações dos robôs que nunca saem daquilo que foi pré-ordenado.
• Nesse cenário também transitam alguns que querem, e até conseguem, viver a vida como se nada tivesse ocorrido. Esses aparentam ser sortudos, pois não sofrem com o que ocorre no seu entorno e mantém sua atenção voltada para agradar aos que amam e os mantem protegidos numa poderosa redoma.
• Redoma compacta esta, a qual os isola da fome, do frio, do calor, da solidão, do desespero, da dor e do desamor. Certamente, manterão essa parede de isolamento que torna invisível todos os efeitos da miséria humana que os cerca. Apenas, não sabem até quando.
• A dirigir essas pessoas da redoma, estão seus representantes, cuidando para que cada representado exerça seu papel com satisfação. São como os semideuses ou semi-humanos que, com os sentimentos idênticos àqueles que representam, afinal, seus espelhos, exercem o papel de impedir qualquer alteração no espectro que vigiam; atuam como guardiões da tragicomédia humana. Lembram o filme Matrix.
• No cume da pirâmide da vida terrena não há deuses, como supõe a menção a semideuses, afinal, trata-se de uma referência irônica aos que representam contra os interessados ou representados, enganando estes últimos, seus eleitores.
• Jazem no cume da pirâmide apenas almas penadas, daqueles que em vida morreram, daqueles que, de tão pobres, têm apenas suas fortunas em euro, dólar, pedras preciosas, sexo animal e suas soberbas. Sobre estes, não vale a pena gastar palavras.
• Deixei para encerrar esta reflexão natalina, a menção àqueles que agem com princípios que advém do mais nobre do que se convencionou chamar humano. Aqueles em que está escrito na alma “amo a meu próximo como a mim mesmo”. São seres atemporais, estão acima da escala convencional. Não tem preço. Seu tempo mais importante é utilizado em oferecer o seu melhor para alimentar material e espiritualmente os demais.
• Estes, os seres que vivem os princípios, falam apenas o necessário; são caracterizados por ações, por gestos, alguns os chamam de anjos, outros de milagres, outros de seres iluminados. O que importa, realmente, é que estão destacados nesta urbe e, embora quase nunca recebam honrarias humanas, delas não sentem falta.
• Em geral nós os olhamos e sentimos um respeito profundo, às vezes, vergonha por sermos tão pequenos diante deles. E, mais, percebemos que temos quase tudo para ser igual a eles, resta apenas renunciar a nossa vaidade. Mas, isso, é uma outra narrativa…e exige outro Natal. Exige o fim de muitas pandemias que assolam nosso país, além da Covid.
• Feliz Natal! Abraços fraternos.