A consulta com o Ortopedista estava marcada para às 8 h 30 min da manhã, por ordem de chegada. Desta forma, cheguei naquele consultório às 7 h e logo em seguida, fui informado que o médico iria se atrasar, pra variar. Ali, naquele prédio, havia vários consultórios com especialidades diferentes. Além do Ortopedista, havia: Ginecologia, Pediatria e Dermatologia. Era um prédio novo, bonito, bem amplo e com um espaço kid, aquele espaço onde as crianças ficam brincando à espera da consulta com a pediatra.
À medida que o tempo ia passando, pessoas, de faixa etária diferentes, iam chegando. Senhoras, senhoritas, crianças e algumas babás. Ah! Eu ia esquecendo. Alguns Pets também, acompanhando seus donos ou como dizem os “amantes de pets” seus pais, maninho ou maninha. De repente, comecei a observar aquelas pessoas que ali estavam. Todas estavam muito bem-vestidas, das senhoras, às criancinhas, inclusive os cachorrinhos, os quais se diferenciavam pelas roupas e adornos em torno do pescoço ou lacinho na cabeça, mas algo incrível veio aos meus olhos, não vi um vira lata naquele lugar, a não ser um que estava sentado do lado de fora do consultório, olhando o brincar das criancinhas.
Fui logo percebendo que no mundo capitalista atual, até os animais tem classe social diferente. Fiquei olhando o animal que estava sentado lá fora sem chamar atenção. Sem coleira, sem um dono a lhe observar. Carregava um olhar pacato e uma expressão abobada que nunca estimulava reações do tipo “que fofinho”! Ele era apenas mais um virador de latas qualquer. E foi justamente naquela calçada que resolveu parar. Sua atenção foi chamada para outros de sua espécie que estavam do outro lado do vidro, naquele mundo, o qual ele, provavelmente, nunca imaginara estar.
Muitos passavam por ele e nem se quer se davam conta de sua presença naquela calçada, que por sinal, estava bem pintada e limpa, talvez um local que aquele pobre animal não costumava pousar suas sujas patas. O mais interessante foi um garoto que desceu de um Mercedes, passou pelo Rei (nome que dei ao querido vira lata) sem o perceber e entrou no consultório. Ao entrar na passarela do Belém fashionweek, nome que eu dei aquele consultório, pois era um desfile de moda e de pets, o garoto logo foi admirando os lindos e caros cachorrinhos, dizendo:
- Ooolha! Que lindo. Igual ao meu. Poxa, mãe. Eu te disse que podia trazer.
Ele pegou aquela joia do mundo pet nos braços e logo foi perguntando a sua dona se ele, o cachorrinho, já tinha ido a Disney, pois o dele já tinha. Então, ela respondeu: - Não só à Disney, mas também a Londres.
A satisfação estava estampada no rosto daquele jovem que olhava para a dona do Bichon Frizé (Raça do animal que ele admirara) e dizia: - Você ama os pets, não é? Eu amo também.
Aquilo me trouxe uma interrogação imediata e pensei comigo: - Será que o pequeno Rei não é um pet por ser vira lata? Somente Bichon Frisé, Maltês, Lhasa apso, Yorkshire Terrier, Pug, entre outros?
Olhei para fora novamente e observei que o pequeno Rei era um cachorro bonito, mas de classe social diferente daqueles que estavam brincando no espaço kid com os seus “irmãozinhos”. Talvez ele nunca tenha comido uma ração vendida nos pet shops da vida ou uma ração se quer, nem mesmo deve ter conhecido um pet shop por dentro, a não ser olhando do lado de fora do vidro.
Aquela visão, de contraste pet-social, me reportou ao ano de 1992 quando eu fui a São Paulo pela primeira vez. Fui conhecer o bairro do Morumbi, um bairro de pessoas afortunadas que moravam em belas mansões de muros altos e bem perto do estádio que leva o nome do bairro. Confesso que fiquei maravilhado, nunca tinha visto nada igual, pois eu morava em Belém no bairro da Marambaia e lá não tinha esse tipo de residência. Sem dizer que aquela era a primeira vez que eu tinha saído do Pará.
Apesar da minha admiração boba, eu percebi que, do outro lado dos muros das mansões, havia um contraste social muito triste e ao mesmo tempo cruel. De um lado as mansões belíssimas do Morumbi e do outro, infinitos barracos de papelão em um terreno sujo e cheio de dor.
Fiquei pensando comigo mesmo naquela contradição absurda e no que diferenciava um ser humano do outro.
Muitos deviam passar por aquela gente e nem os percebiam. Logo voltei ao presente e vi que o Rei continuava na calçada observando um mundo que não era o seu.
Pensei: – Será que o grande Rei já se viu no facebook, Instagram ou se ele tem pai ou um irmãozinho de pet?
Pois uma coisa eu sei. Ele nunca saiu de Belém ou foi à Disney ou Londres. O máximo que ele deve conhecer é o bairro em que vive.
Quantos Reis existem por este mundão dos pets? Quantos têm a sua beleza e capacidade escondidas sob o tecido cruel do preconceito, descaso e abandono?
Enquanto eu estava ali, esperando a minha consulta e observando o grande Rei, achei que ele não tinha dono e nem mesmo um teto para se abrigar, foi quando, de repente, passou um garoto segurando um pedaço de fio com um ossinho amarrado no ponto, chamando Rei pelo som de tchu, tchu, tchu, vamos, vamos. Rei foi saltitante e feliz atrás daquele que parecia ser o seu dono.
Saí para ver aquele lindo cachorro de pelo marrom claro e pintas brancas, de rabo empinado e de latido forte seguindo aquele verdadeiro amante de pet, lado a lado, juntinhos como grandes amigos.
Voltei ao consultório e logo fui chamado para a minha consulta. Quando entrei na sala, o doutor que já me conhecia, disse-me assim: Pode entrar, meu Rei.
Olhei para ele, sorrindo, falei: – Eu também nunca fui à Disney e nem a Londres.