São tempos curioso e assustadores, muito além do óbvio das nossas certezas, arraigadas por décadas de memórias pessoais e histórias contadas.
40 graus sempre foi tida como temperatura elevada, aqui e em qualquer lugar, a ponto de se a ter como marco do Rio de Janeiro, em filme de 1955 (Rio, 40 graus), de Nelson Pereira dos Santos e, mais recentemente, em popular canção (Rio 40 graus), da Fernanda Abreu. Ambos, a seu modo, percebem a relação entre o calor e a vida quente e agitada da cidade.
Contudo, diante das inusitadas notícias sobre extremo calor em várias regiões do planeta e dos incêndios espontâneos que surgem, destruindo florestas e matas, queimando casas e carros, causando mortes e ferimentos e, em cena digna dos filmes de tragédias e dos textos de Dante Alighieri sobre o Inferno, levando pessoas a se jogar ao mar para fugir das labaredas, parece que o calor veio para ficar e que novos padrões de temperatura hão de ser vistos como um “novo normal”. Assustador.
A expressão “novo normal” é contemporânea, pós-pandemia e (convenhamos) significa, em poucas palavras, que as coisas estão diferentes… De fato, “novo normal” indica mudança, anormalidade e diferença, mas conviver com adaptações pós-pandemia não se mostrou, por si, de todo impossível ou tão difícil, afinal, em geral, o uso de máscaras e a vacinação possibilitaram a retomada da vida nos padrões de normalidade.
Diferentemente, um “novo normal” climático revela mais do que possamos perceber. Não se trata só de calor ou de novas temperaturas.
Alguns perceberam que os invernos têm sido menos frios, que chove menos aqui ou acolá, que a seca se mostra mais intensa e coisas do tipo… A questão é que essa percepção individual não é isolada e, sim, algo como a “soma de todos os medos”, aliás, o título – em língua portuguesa – de filme de 2002, girando em torno dos perigos para a 3ª Guerra Mundial que poderia ser desencadeado pelo lançamento de arma nuclear.
Em certa medida, parece que a “bomba” já foi lançada e produz efeitos globais.
Não falamos de bomba visível e física, do tipo tradicional, mas de algo com múltiplas faces e formas e vigor, difundida em todo o planeta, na forma de gases tóxicos, produtos químicos, gás carbônico em nível elevado e aumento das temperaturas, em decorrência de ciclo natural e da ação humana.
Somos a única espécie que adapta o planeta às suas necessidades… e mexemos muito nele!
Somos o criador de novo paradigma e de novos mundos, moldados à nossa imagem e intenção, transformando a terra fértil em arranha-céus, o solo permeável às chuvas em cobertura urbana, asfaltada e cimentada, mais quente e com cenário desolador, transformando o ser humano integrado à natureza em deprimente ser urbano, apegado com fervor a uma planta colocada num vaso e a um animal de estimação.
Somos os que transformaram as imensas pradarias do Meio-Oeste Norte-Americano em campos plantados (na dúvida, basta observar pelo Google Maps), o mesmo ocorrendo em outras áreas do Globo.
Somos os que retiraram o petróleo que há tantos milhares de anos a natureza enterrou no subsolo e que dominaram as técnicas de exploração da energia do átomo e inventaram os plásticos poluentes…
Somos os que criaram remédios em larga escala para tantos doentes, que a nossa forma de viver produz, tornando-nos dependentes dos comprimidos, periodicamente sucedidos por outros ou trocados por novos, num ciclo quase infinito e que, em certa ótica, faz a nossa doente existência urbana prisioneira, algo muito diferente do que faz a pulsante e libertadora natureza, que nos abraça, acolhedoramente.
A humanidade convive com tantos insetos, ao longo de milhares de anos… Mas, hoje, somos os que lutam contra insetos, aplicando inseticidas deliberadamente, como se todos fossem inimigos mortais, com isso dizimando abelhas e outros que são não apenas úteis, mas absolutamente fundamentais para a produção de alimentos, a reprodução da flora e a vida de outros tantos seres vivos, na imensidão das formas de vida.
Parecemos desprezar que não conseguimos “jogar no lixo” cada produto químico, que componha os óleos, combustíveis, desinfetantes ou o que quer que imaginemos e usemos. Em certa medida, comumente seguem os ciclos dos dejetos que simplesmente desprezamos nas águas e que, das nossas pias e ralos, escorrerão para os rios, mares e oceanos, voltando para nós inseridos em alimentos alterados e na água das chuvas, no ciclo constante da natureza, que ainda não conseguimos totalmente controlar…
A população mundial cresceu enormemente e é absolutamente dependente dos alimentos produzidos pela humanidade e sabemos que a produção depende das condições climáticas.
Mudanças extremas, resultante dos ciclos naturais e da imensa contribuição que a humanidade dá e deu a respeito, interferem e mais ainda interferirão no contexto.
Mas, atenção: insegurança climática gera insegurança alimentar e isso acarreta aumento dos preços e… fome!
Nos EUA o clima seco e as temperaturas acima dos 40 graus afeta a safra de soja, noticiam os jornais. Não é caso isolado. As imagens alarmantes e assustadoras, de fortes queimadas no Havaí, Canadá, Grécia, Espanha, Itália e Califórnia, parecem dar o tom do que se avizinha como o “novo normal”.
No frio Canadá, cerca de 40 mil hectares queimaram, afetando 30 mil pessoas e gerando ordem de evacuação! No Brasil, anuncia-se semana com onda de calor em torno de 40 graus, em pleno Inverno.
Nos oceanos, estudos indicam que a fundamental corrente AMOC (Circulação Meridional do Atlântico) pode colapsar a qualquer momento, já a partir de 2050 (conforme estudo publicado na Revista Nature, sob o título: Warning of a forthcoming collapse of the Atlantic meridional overturning circulation).
A se confirmar, teríamos cenário global com alguma semelhança com o enredo do filme “O dia depois do amanhã”…
As questões relacionadas aos extremos climáticos parecem não se vincular a abordagem de natureza otimista ou pessimista, sob qualquer enfoque, diante de realidades evidentes e de considerações teóricas tão preocupantes.
Que, doravante, diante do aquecimento que se evidencia com tantos extremos de calor em tantas regiões – até no frio Canadá – não tenhamos 40 graus como um “novo normal” até “frio” diante do calor e da seca e da falta d`água que venha a nos colocar num quadro dantesco de imensas migrações globais, de novas guerras e batalhas por água doce potável, comida e condições climáticas estáveis e seguras para uma vida minimamente normal, segundo os nossos conceitos civilizatórios. O futuro dirá…