Simeão e Ithelmia Teofônia eram dois jovens, lá de Breves, cidade paraense ribeirinha às margens do majestoso Rio Amazonas, que devido à proximidade de Macapá e facilidade de logística fluvial, tem fortes traços culturais e de negócios com o Amapá.
Teofônia (ela odiava esse nome e por isso a turma caprichava nele. Acho que era uma espécie de bullying cabloco, kkk) desde menina, quando corria de calcinhas pelas ruas tomando banho de enxurrada, nutria um sentimento especial por aquele menino, zoiúdo e com barriga inchada de tantas “ascaris lumbricoides”. Ou seria uma barriga d´água (ascite)?
Não importa. No seu pequeno diário, os coraçõezinhos e versinhos de amor tinham um destinatário, o Sima, ou Dr. Barriga, como queiram (a turma não perdoava… rsss).
Mas aquela semente do amor ficou sem germinar, um tipo de amor platônico que ela guardava pra si a sete chaves.
Quando adolescentes, seus pais os mandaram estudar em Macapá, para fazerem vestibular e buscar um lugar melhor ao sol maravilhoso que se debruça sobre a linha do Equador que corta a Capital Amapaense.
Teofônia não sabia o que queria ser na vida profissional. Até então todos os seus planos eram um dia se declarar e ter a reciprocidade do Dr. Barriga. Casar, ter filhos e viver numa casinha. Para ela a música Vida Boa do Zé Miguel era um hino: “A vida daqui é assim devagar… Precisa mais nada não pra atrapalhar… Basta o céu, o sol, o rio e o ar… E um pirão de açaí com tamuatá… Que vida boa suprimo… Nós só tem que fazer menino… E assim vão passando os anos… Eita! Que vida boa”.
Ambos de família pobre, se reencontraram no cursinho pré-vestibular Desafio, que era mantido gratuitamente pelo Jorge Amanajás na Zona Norte. Obviamente, por altruísmo (rss), não obstante Amanajás ter sido eleito como deputado vários mandatos.
E lá a flechinha do cupido acertou os dois, mas sem afetar o foco nos estudos. Tanto é que ambos passaram no vestibular de direito da Universidade Federal do Amapá.
Bem, Teofônia não tinha qualquer vocação para o direito, mas quando Dr. Barriga falou que iria ser doutor na vida, ia ser advogado e soltar presos etc., imediatamente também se inscreveu no mesmo curso para ter a certeza que estaria todo tempo ao lado do seu amor infinito.
Os dois foram meus alunos e eu percebia durante a aula a cumplicidade do casalzinho de pombinhos. Teofônia era louca para dividir os mesmos lençóis, juntar os trapinhos e as escovinhas de dentes no mesmo copo. Simeão só prometia: em breve…
Visivelmente o Dr. Barriga parecia ter um parafuso solto, enquanto que Teofônia demonstrava que tinha uma porca espanada. Por isso, a junção de ambos não pegava aperto, porque eram totalmente sem rosca (rss). Ambos eram inteligentíssimos, mas vinham com umas teses mirabolantes que não tinham pé nem cabeça. Viajavam na maionese…
Vejam, eu como professor posso até não concordar com as teses dos alunos, mas admiro muito o tirocínio e a capacidade argumentativa. Por isso incentivava, dava corda para ver no que dava… rss.
As discussões eram acaloradas, mas muito útil o debate de onde emergiam antíteses e sínteses, fundamentais para a dialética e para a caminhada o conhecimento.
Nas férias Dr. Barriga e Teofônia foram para a cidade natal, Breves.
Lá Teofônia cobrou o casamento:
-Você não me prometeu casar em Breves? Bora, cumpre a palavra!
-Calma, eu falei que iria casar em breve e não em Breves! (kkk)
Finalmente se formaram em direito e tive a honra de beber meu whisky preferido na festinha maravilhosa na sede dos Promotores, que eu consegui de graça para a turma.
Simeão, o Dr. Barriga, muito inteligente e dedicado, logo passou no concurso de Delegado de Polícia. Ele, que sonhara ser advogado para libertar as pessoas, abraçou uma carreira onde ia prender! Paradoxal, não? (rss)
E Teofônia usou o diploma para decorar a parede, porque nunca gostou de direito. Era uma empresária nata. Começou vendendo Avon, embora não tenha ficado rica igual à mulher de um ex-presidente (kkkk). Vendia tudo que aparecia pela frente: Natura, Amway, Hinode, Herbalife, consórcio etc. Se oferecessem um bom dinheiro, vendia até o Dr. Barriga (missão impossível, kkkk).
Depois abriu salão de recepções de festa infantil que bombou. Inaugurou franquia de alimentos de renome nacional e tornou referência do ramo, também com retumbante sucesso.
Mas nunca se esqueceu da promessa de casamento. Até que chegou o grande dia.
Lá estava Teofônia, de véu e grinalda, vestido importado da rua das Noivas do bairro da Luz, entre o Brás e o Bom Retiro, aquela pompa toda, igreja decorada com flores trazidas de Holambra, com barítonos e tenores entoando música sacra acompanhados de violinos. Um show de casamento.
Mas ao contrário das regras de casório, ela que estava esperando o noivo no altar, que nunca chegava.
-Pronto! – pensou Teofônia, o sacana vai dar o bolo ou está enchendo a cara de cachaça…
-Eu mato ele… (rss)
Enquanto a música rolava suave, deliciosamente suave, com as vozes afinadas, um néctar para os ouvidos, eis que vem de fora da capela um estrondoso barulho de moto.
-Ai, que ódio, além de tudo vem um motoqueiro feladaputa fazer zuada.
Era uma Harley-Davidson carburada, quase uma sucata, que a ferrugem e corrosão tinham acabado com a ponta do escape.
Vruuuuuum, pow, pow, pô, pô, pô! Vruuuummm, vruuummm, pô, pô, pô, pow, pooow…
-Filha da puta!
Quando o motoqueiro desligou a moto e tirou o capacete, adivinhem quem era?
Era o Delegado, com roupa rasgada e amarrotada, um colete de couro puído, o cabelo desgrenhado, botas sujas de barro e com um bafo de conhaque de alcatrão São João da Barra…
Ele caminhou lentamente pela passadiça decorada com vasos e flores, enquanto tocava a marcha nupcial, com os convidados de olhos arregalados e estupefatos.
Chegou ao altar, ajoelhou-se perante a sua amada e beijou suas mãos. O bafo dele era terrível. Mas o que importava, o dela também estava horrível porque se esqueceu de escovar os dentes pela manhã… (rss).
Os olhos de Teofônia ficaram marejados e ela enlaçou seus braços no pescoço de Simeão e trocaram um longo beijo, beijo de língua, enquanto a plateia batia palmas e mais palmas, todos de pé, morrendo de inveja daquele amor verdadeiro, como se fosse um abismo de rosas infinito.
-Amor, se o seu sonho era casar, o meu era subir ao altar realizando meu sonho de metal, para tomar a mão em núpcias da mulher mais linda e maravilhosa do mundo, que Deus reservou para mim…
E Simeão e Teofônia partiram para lua de mel. Ela na garupa do cavalo de aço, agarrada na cintura do seu príncipe esfarrapado, sentindo o vento da liberdade batendo no rosto e o véu flamulando tal qual uma bandeira do amor.
Simeão a levou para a beira do Rio Araguari, numa cabana entre as pedras meticulosamente preparada e decorada, onde passaram a noite contando as estrelas daquele céu de brigadeiro no meio da escuridão da Floresta Amazônica, ao fundo uma sinfonia de sapos e pererecas, enquanto pirilampos piscavam como luzes das árvores de natal e um estranho fumacê saía da cabana…
Eu não falei que eles tinham parafusos soltos?
E assim, viveram felizes para sempre… (como nos contos de fadas dos irmãos Grimm).