“A União Europeia (UE) deverá anunciar em novembro proposta para exigir de seus importadores de carne bovina, soja, café, cacau, madeira e óleo de palma que se certifiquem de que essas seis commodities são provenientes de terras que não foram desmatadas ilegalmente ou contribuíram para a degradação de solos depois de 1° de janeiro de 2021… A proposta elaborada pela Comissão Europeia, o braço executivo da UE, vai ser encaminhada ao Conselho Europeu, que reúne os líderes dos 27 países-membros, e ao Parlamento Europeu. 0 texto deverá ser examinado quando a França estiver na presidência da UE, no primeiro semestre do ano que vem. Os franceses estão entre os que mais pressionam para mais regras ambientais no acordo comercial UE Mercosul, por causa de desmatamento na Amazônia.”
Nem a propósito, me vem à mente, como reminiscência de alguém de certa idade, a frase da letra de uma música de Vicente Celestino – O Ébrio – “Falsos amigos, eu vos peço, imploro a chorar…”. Naturalmente a canção não possui conexão alguma com este artigo, todavia nos remete a um assunto muito sensível, países que, ingenuamente, acreditávamos que eram amigos não são e jamais foram. Não custa lembrar que países não tem amigos e sim interesses comuns. Não percebemos que é muito difícil para países colonizadores nutrir amizade com colônias que se tornaram independentes
Vamos aguardar o texto da proposta elaborada pela “Comissão Europeia” e sua aceitação ou não para podermos avaliar o potencial dos danos que nos causarão. Pela primeira vez sou obrigado a concordar com a declaração de um certo Presidente de entidade que disse, a respeito do assunto, “não tem novidade nenhuma. Eles já vinham falando isso há muito tempo”, todavia discordo quando afirma não ver muito impacto. A minha concordância se deve ao fato do que venho anunciando ao longo dos anos. Trata-se da “Crônica de uma morte anunciada”, título de uma das obras de Gabriel Garcia Marquez.
A velha e carcomida Europa, cujos países membros, em sua grande maioria, devastaram e desmataram além do resto do planeta o seu próprio continente mais uma vez inova, com a finalidade de não se afogar no seu próprio passado, depois de contrariar sua própria pregação para reduzir a emissão dos GEE, abre uma nova frente de ataque à Amazônia sobre um assunto recorrente – o desmatamento ilegal.
O que mais ofende na atitude da União Europeia é a falta de reconhecimento do enorme trabalho que vem sendo feito para coibir a ilegalidade no desmatamento na Amazônia. Novamente vale lembrar que o combate ao denominado desmatamento ilegal não se prende ao cumprimento de qualquer norma internacional e sim ao descumprimento da mais dura e séria legislação de proteção às florestas e biodiversidade do mundo – o Código Florestal brasileiro.
Precisamos tirar a venda dos olhos, as novas exigências da UE não são meras medidas protecionistas e sim atitudes colonialistas. O colonialismo europeu evoluiu e mudou as roupagens, o ataque à soberania da Amazônia, via de consequência ao próprio Brasil, é claro e inegável.
Vamos repetir, o que venho fazendo ao longo dos anos repetindo, repetindo e repetindo, a cupidez europeia em relação à Amazônia somente vem aumentando. Como o velho mundo não conseguiu “sequestrar” a Amazônia com suas enormes riquezas e terras aproveitáveis para a produção de alimentos, diferentemente das dele, vem deslanchando uma campanha, que no mínimo, podemos denominar de egoísta – já que os europeus não podem se apossar da Amazônia e se locupletar de suas riquezas decidiram que ela deverá permanecer intocada – tudo para evitar que o prato da balança comercial internacional não se incline para o nosso lado, o que já começou a acontecer.
Naturalmente os países da União Europeia são clientes importantes da produção brasileira e não pretendo propor que abramos mãos daquele mercado. O que temos que ter em mente e decidir é se além de vendermos os nossos produtos vamos vender as nossas almas e a nossa soberania.
O que o artigo do jornalista Assis Moreira deixa bem claro é que o que produzimos deverá ser certificado que não tem origem em desmatamento ilegal. A pergunta que fica é a quem caberá os custos de tal certificação? Aos nossos produtores ou às empresas multinacionais que intermediam a venda dos nossos produtos para a Europa.
O que fica muito claro é que o aumento dos custos provocado pela certificação impactarão nos preços de venda do que produzimos aos consumidores externos. Ao contrário do que a maioria dos brasileiros imagina os europeus não tem poder aquisitivo suficiente para enfrentar e adquirir alimentos cujos preços serão onerados pela certificação e como consequência haverá redução do consumo que impactará diretamente nas nossas exportações.
Creio que os países que fazem parte da UE estão entre a “frigideira e o fogo”, cada vez mais dependentes do que é produzido no exterior por terem perdido a capacidade de produção. O maior exemplo de dependência é do gás russo. O que chama a atenção é que nos últimos anos os governantes da Europa faziam questão de desprezar e isolar a Rússia, agora a situação mudou e tornaram-se dependentes totais do gás russo. Os governantes do outro lado do Atlântico têm que se conscientizar que o “velho mundo” foi sustentado e enriqueceu às custas das riquezas das colônias, o mundo mudou e a “boquinha” acabou.
Vou encerrar repetindo o que venho afirmando há muito, o chamado mundo ocidental vem jogando o nosso país nos braços do resto do mundo que anseia pelo que produzimos, que seja feita a vontade.