Temos vivenciado uma crise sem precedentes de um novo vírus que tem o poder de se espalhar rapidamente, ao mesmo tempo em que estamos presenciando um mundo em que as informações e as desinformações também são propagadas como nunca antes na nossa história.
O vírus da COVID-19, descoberto no final de 2019, na cidade de Wuhan, na China, logo se propagou para o resto do mundo, levando a Organização Mundial de Saúde (OMS), no dia 30 de janeiro de 2020, a considerar a doença uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII), sendo classificada como pandemia em março de 2020. Devido a sua gravidade, em especial por causa de seu potencial de transmissão, diversas medidas foram tomadas no mundo inteiro para amenizar os seus riscos à saúde e seus efeitos econômicos, tais quais: quarentenas obrigatórias; fechamento de fronteiras; restrição de circulação de pessoas em espaços públicos; distanciamento social; e políticas compensatórias.
Os países, no entanto, lidaram de forma diferente no combate à pandemia, variando entre sistemas de lockdown, flexibilização de medidas ou mesmo a negação de sua gravidade. Nesse cenário é importante analisar e refletir sobre o papel dos políticos e a sociedade nessa crise na hora de propor, articular e executar soluções. A transmissão do Coronavírus acontece de pessoa para pessoa, porém o número de pessoas que vivem com doenças crônicas não transmissíveis está aumentando cada vez mais. No caso da COVID-19, é preciso abordar os fatores de risco como a hipertensão, obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e etc., o que englobaria o aspecto social e não apenas a COVID-19 em si, sendo assim considerado uma Sindemia (conjunto de problemas de saúde interligados, envolvendo duas ou mais complicações que se interagem de maneira sinérgica e contribuem para a carga excessiva de doenças em uma população).
Porém, antes de irmos mais além, é preciso elucidar os conceitos nos quais tal discussão está embasada. O primeiro e mais central desses conceitos é o de Biopolítica, que remete, quando muito, à dimensão de zoé, ou seja, à vida na sua simples manutenção, sendo, portanto, uma política sobre a vida e, em última instância, de controle da vida. Sob essa perspectiva, o interesse do governo já não é sua própria conservação, a manutenção de suas estruturas, mas os governados, o bem-estar daqueles que governa, o poder governamental se aplica à vida dos governados “não só para defendê-la, mas para desenvolvê-la e maximizá-la”.
No entanto, a noção de biopolítica carrega uma dupla tendência: por um lado, uma crescente superposição do âmbito da política, do direito e da vida; por outro, como derivação, parece, uma implicação igualmente estreita com a morte. Esse paroxismo da biopolítica está justamente no fato de que uma política de fazer viver, de potencializar a vida, é também uma política de controle que oprime e, no limite, mata para fazer viver. Assim, o Estado passa a ter o poder de decidir sobre o corpo, este, de acordo com Foucault, é justamente o lugar sobre o qual o poder incide, “uma tomada de poder sobre o homem enquanto ser vivo, uma espécie de estatização do biológico”.
Segundo Foucault, a ideia de população está diretamente ligada à biopolítica, a população é justamente o corpo sobre o qual incide o poder, é um novo corpo: corpo múltiplo, corpo com inúmeras cabeças. É a noção de população”. A concepção de biopoder – e suas práticas biopolíticas – não tiveram início com a pandemia. A necessidade de enfrentamento desse problema de saúde pública veio apenas realçar um cenário já vivido de forma ampla nas sociedades contemporâneas.
O controle sobre nossos corpos já existia muito antes desse momento histórico. Além de colaborar para a reprodução de um modo específico de capitalismo, esse processo gradual de intensificação de controle sobre os indivíduos e, especialmente, sobre a população, produz uma narrativa que sublinha a necessidade de acesso aos dados pessoais como imprescindíveis à ordem, ao bem-estar e ao desenvolvimento humano – seja lá o que isso signifique.
A covid-19 afetou bastante a educação, uma das atitudes tomadas foi o fechamento das escolas. É possível observar que alguns governadores e prefeitos suspenderam as aulas em todas as redes de ensino, e com isso, trouxe à tona a desigualdade social, visto que as aulas passaram a ser online, onde alunos de escolas públicas tiveram dificuldades de assistir às aulas por não terem internet em suas casas ou propriamente em suas escolas, sendo esses alunos, os escolhidos do Estado para serem sacrificados, diferentemente, dos alunos de escolas particulares que tiveram todas as condições necessárias para continuarem assistindo aula, desta vez, online.
Contudo, governos, empresas e o terceiro setor deveriam buscar soluções para problemas reais que afetam indivíduos e a sociedade com base em dados obtidos em tempo real. Diante desse cenário descrito, a solução, evidentemente, deve ser um agir Biopolítico. Primeiramente, organizando e articulando uma cooperação global porque ninguém pode proteger-se ou resolver a Sindemia sozinho.
Políticas públicas, baseadas no conceito de Biopolítica e Biopoder, deveriam ser colocadas em práticas de forma mais objetivas, visando o controle do corpo como uma maneira de preservação da vida. Essas mesmas políticas deveriam ser aplicadas na educação, como medidas de igualdade, para que alunos de escolas públicas tivessem as mesmas condições que tem os alunos de escolas particulares, para que eles pudessem ter uma educação mais igualitária e humana. E, finalmente, lutando diligentemente contra a desigualdade social e o empobrecimento da população que, em última instância, agrava muito os problemas mencionados.