Oi Lula, como vai? Está mais calmo agora? Espero que responda como um comediante dizia: “agora tô!”. Que semana agitada!
Aquele Lula ponderado desapareceu completamente. E olha que eu não gostava muito de seu antecessor pelas precipitações, rispidez e até pouco mal-educadas. Agora vem você e da exagerada muito grande.
Não falou como presidente, e nem como “o CARA” do Obama, e sim como um sindicalista brigão, parecendo estar em uma rinha. Cheguei a esperar que fosse apenas um fake news, mas pelo visto, foi real. Fud**…
Mesmo contrariado, você precisa mais que urgente achar forma de pacificar os espíritos deste país. Estão acirrados demais, e você já notou que quando os ânimos dos bons se açulam, quem mais aparece são os maus (bandidos)?
Veja, com tanta vivência na Amazônia e observando agora os castigos que vocês nos têm imposto, chego mesmo a duvidar das razões humanas e da falta de preparo, até das pretensas autoridades, que o acompanham. Nem cultura sobre a história do país este pessoal possui, senão saberiam que até final da década de 80 era vedado constitucionalmente, áreas reservadas a indígenas até 50km das fronteiras em todo arco norte brasileiro. Era assim. E nele estávamos nós, para a formação da Nação que hoje você tem a oportunidade de voltar a presidir.
Até mesmo vivi nessas áreas de fronteiras, as margens do Rio Traíra, com a Colômbia, nas nascentes do Cauaburis com a Venezuela e em Roraima, também Venezuela, onde há mais de 40 anos construímos toda aquela logística que hoje todos aproveitam, de índios a autoridades. E tudo dentro da ordem, da lei e com incentivo até por parte de questões de segurança nacional. Intimidados, até o narcotráfico recuava com nossa presença.
Agora pelo visto a vacina deixará de ser “covidária” para ser contra raiva, não a canina, mas a humana. Temos sorte gigante Lula em sermos um povo não muito afeito à assassinatos políticos. Mas, você já pensou se esse costume pega aqui? Diziam que na Paraíba aconteceu um e que no Rio de Janeiro outro, de gente do Sul, mas em suas apurações, muito discretamente puderam verificar que existia a passionalidade de amores não confessados. Questão de negadas emoções.
Veja como a moda pega, o novo chefe do Ibama que me parece também andar armado, em primeira declaração diz: “Temam o Ibama”. Batuta o rapaz, hein Lula? Mas, acho ao certo dever ter dito “respeitem o Ibama”. E é um paradoxo, com tudo isso que vocês têm aprontado com a Amazônia e com quem lá vive e mora, porque aí envolve a todos, pois são milhões de dependentes dessas atividades que combatem, você e seus comandados não ouviram, uma só palavra de desafio ou gesto de confronto, embora não os tenham com muito respeito.
Não há como absorver uma consciência que essas atitudes destemperadas, emanadas de influência e pedido de culturas externas as nossas, tenha algo a ver com a verdade que você representa. Eles vêm de lá com sonhos bem difíceis de se realizarem, e nós aqui também somos um sonho, mas com pesadelos de realidades. O grande magnata americano, com sua rica e perdulária influência, ajudando até a eleger políticos em nosso país, tem buscado através deles confrontar a gente amazônica de uma cultura, modo de vida e com a instrução que lhe foi possível receber. Até as comunidades indígenas, em sua grande maioria, já sofrem reflexos dessas culturas e convivências. Então não dará certo o que vocês tentam implantar pela força e com o dom da ira ao usar também de desgraças de povos inocentes para propaganda política aparecendo mundo a fora, como se estivessem em busca de reconhecimento ou prêmio internacional. Teve um aí que adorava um “honoris causa” e holofotes, entretanto, hoje é a maior rejeição na política nacional.
Em toda década de 80, rechaçando cobiçosas empresas aqui chegantes, pudemos receber na Amazônia de forma muito discreta, alguns militares vietnamitas já aposentados, que naquela época nos disseram: “Quando a presença do imperialismo se impor, vocês, como nós o fizemos, terão que empregar a tática do bate e corre”. Realmente Lula, com minha chegada no crepúsculo, alta quilometragem já vivida e com desgaste de esperanças, espero não viver o suficiente para ver isso acontecer. Prefiro a tática em voltar sempre, embora no momento, entretanto, temos que pronunciar imitando o bordão do homem do Ibama: “Respeitem os garimpeiros, são apenas bons trabalhadores, mas onde estão podem ser melhores que vocês”.
Na Amazônia alguns mantos protegem sua gente Lula, o grande anonimato e o saber local experiente. Estamos assistindo agora essa ida de novos médicos e todo esse movimento em torno da saúde, mas deixe-me te falar, em se tratando de doenças tropicais, são poucos que a conhecem e menos ainda os que tem capacidade para tratá-las. Não despreze, como você tem feito, a muitos experientes, também a medicina daquela região. Os “dôtô” são tão bons que tem gente acreditando serem deuses tresloucados, com poderes de curar e cuidarem; o que hoje por tanto mercantilismo, poucos o fazem.
Numa próxima carta Lula, estando bem e animado a fazê-la, ainda vou contar a você algumas doenças regionais que me acometeram, que se não tão próximas a passagens ruins, as chamaria de hilárias. Mas, aconteceram a seu tempo, e posso dizer, após seis malárias, duas leishmanioses e companhia de algumas lombrigas, prefiro a todas elas que esta desventura da Covid, principalmente o efeito de suas vacinas, as quais tomei três; meio surdo e esquecido que só, mas, esqueço de você não…
No frescor da madrugada, baixo a cobertores na solidão do Alvorada, peça a Janja para acalmar você. Mais equilibrado, muitos deverão seguir seu exemplo.
José Altino Machado
Macapá,26/03/2023