Meu caro Lula, com jeitos e trejeitos, parece que você está dando conta em levar essa nova democracia tão falada de agora. Pelo imposto, um novo entendimento, que torna obrigatória a concordância, senão democrata não é.
Mas, o que interessa e acho estranho a tudo que hoje nos rodeia, diz mais respeito a sua pessoa. Ao que sei, duas coisas muito modificam o homem e seu comportamento e delas posso falar com tranquilidade porque por elas passei. Primeiro, perda de filho. Dói Lula, como você nem imagina, é uma dor que não passa nunca. A segunda, perda de liberdade, aprisionamento injusto ou contrariando seus direitos de cidadão. Acrescento com tranquilidade que todas as duas mexem com todo e qualquer comportamento em vida daquele que padeceu tais problemas. E até onde sempre me disseram, tais tristezas melhoravam as pessoas por elas atingidas.
Em cárcere você ficou bem mais tempo que eu. Diferentemente de você, conheci primeiro uma fria solitária e a incomunicabilidade imposta, não por muito tempo, mas ainda assim o suficiente para domar meu espírito. Se tivessem me liberado com três, quatro dias, ah Lula, com os ventos da juventude que ainda me sopravam sairia de lá com gosto de sangue na boca buscando a cada um que para lá me levou. Devo a meu pai, um senhor extremamente conservador que não admitiu que eu fosse solto de maneira alguma por acordos ou outras facilidades que não fosse uma decisão judicial dizendo ter sido uma prisão totalmente ilegal.
Fui preso por resistência e desobediência.
Entretanto, esse tempo a mais e no aguardo de reconhecimento da justiça, serviu para mostrar-me e ter nova visão para encarar os desafios contra aqueles e aquilo que me levou àquela situação. E assim o fiz, ganhando até vaidade pessoal em ver minhas metas atingidas. Engraçado Lula, que nem meus discordantes adversários ou inimigos, se é que os tenho, usam disso ou o coloca negativamente em meu currículo. Nem o Google o fez.
Agora estranho, você com tanto tempo para ponderações e com a visão muito mais experiente e larga na própria política nacional, sai daquela cadeia com sangue nos olhos e discursos extremamente rancorosos e vingativos. Vou te dizer então, os meus melhores amigos da política na minha cidade natal, das minhas raízes, são do seu partido e pregação. Aprecio, gosto muito e venci políticas em minha cidade com eles, e nenhum deles cultiva tais vendetas. O presidente que você sucedeu realmente tem uma personalidade difícil, beligerante e até pouco educada, mas você está copiando dele o que ele tinha de ruim, e eu cá esperando o regresso do Lula dos dois mandatos que conheci em sua viagem na Amazônia, para poder dizer a ele que:
– Não existe nenhum problema que possa ser resolvido em definitivo sem que se saiba a origem e a raiz dele. Você e companheiros parecem mesmo ter ódio a garimpeiros. Uma injustiça, conquistaram um país para você governar e transformá-lo em uma Nação. Tudo começou nas conquistas de terras para Portugal, depois em tempos modernos, com soldados da borracha convocados pelo governo e posteriormente abandonados na Amazônia. Estes, a primeira grande leva garimpeira. Logo a seguir em 67, exauridos os negócios de madeireiras e serrarias do Paraná, o IBDF chega à floresta amazônica e institui que toda e qualquer madeira de lá só sairia beneficiada. Como se fizesse muita diferença. O desemprego foi geral e na ocasião, a atividade era quase única, mais de 100 mil se juntaram aos soldados da borracha e seus descendentes ao garimpo amazônico. Daí a frente com melhores e mais resistentes aviões, pode se aprofundar bastante naquelas selvas criando mais modernismo para a profissão, chegando a conquistar e realizar coisas que poucos conseguem…
Fui um operário constitucionalista na década de 80, Lula. Sendo de nossa lavra com importantes companheiros, mais que eu, trabalhando em conjunto com o sistema Cooperativista Nacional e pasme, ironicamente com os Procuradores Federais representados pelos de São Paulo, inserir a profissão garimpeiro em nossa lei maior. Não cabe a eles definitivamente, se auto legalizarem, mas sim, hoje à sua responsabilidade, fazer o que outros não fizeram; legitimá-los. Está escrito lá Lula, na Constituição Federal, deveria ser seu livro ou receita de cabeceira. Os gurus do Supremo, toda hora falam nela, mas não só esses profissionais, mas até os índios, desde 88 estão esperando que vocês a cumpram.
A origem maior Lula, é que você não tomava conhecimento quando seus ministros de meio ambiente criavam parques e flonas em áreas com atividades humanas, sem nem saber a fim de preservar o que e a que fim. Vocês foram apertando, espremendo até que parte deles, tangidos, escorressem a busca de outras paragens com recursos naturais, que estão onde Deus ou a natureza os pôs e não onde políticos os querem. Aconteceu isso no Amapá, no Pará, Rondônia, Mato Grosso e por vezes explodiu em Roraima, onde a riqueza é mais farta 78/87/2018; sem contar países vizinhos.
Procure também se certificar Lula, que ao longo de todo território nacional, se qualquer comunidade indígena não desejar esses profissionais por perto, nunca fica ninguém. Mais, procure o porquê ianomâmis passam fome. Você está ouvindo ordens religiosas, ambientalistas e outros interessados, por boca de índio aliciado(gordo) e em tela de televisão. Ouvi uma declaração de sua ministra dizendo que comia macaxeira, caldo de cana e ela e família eram ainda submetidos a fome. Ela não sabe o que é fome, Lula, nem o Brasil sabe. No final da década de 80, em uma das viagens a África do Sul fui a Moçambique e em um vasto campo fértil abandonado pelos portugueses, existiam doze contados tratores e máquinas agrícolas paradas inertes e 28 mil refugiados morrendo esfaimados. E lá aprendi Lula, que fome não mata tão rápido, levando sim, a completa inanição. Vamos nos comendo internamente, primeiro se vão as gorduras da bunda, depois outras do corpo, chegando então as enzimas cerebrais e aí nada mais adianta. O crime africano foi a não transferência de cultura para o auto sustento, e uma vez cortada a então viciante dependência ao colonizador, adveio o desastre.
Acredito se dever respeito mundial a organização do Medecins Sans Frontières, que nesta citada tragédia conheci; um belo exemplo de honestidade em propósitos.
Apenas palpitando, como sempre, sua determinação de parada dos aviões do garimpo em Roraima, no instante não muito boa ideia, mais certo abrir janela de dez dias, e lhes dar ordens para entrarem vazios, e sem sanções retirar o pessoal, responsabilidade deles. Dê-lhes isso, sairão todos mais rápido e sem possíveis novos problemas no percurso.
Você como pernambucano de criação paulista, talvez não consiga, mas se também seus auxiliares não encontrarem os motivos por que tais coisas acontecem, semana que vem começo explicar a germinação de tais caos, e será na carta 13, seu número de sorte.
José Altino Machado
Macapá 05/01/23