Brasileiro Conservador
O anseio por desenvolvimento econômico e social é uma constante no ideário do povo brasileiro, nos últimos 40 anos experimentamos momentos de avanços, de estagnação e até mesmo de retrocesso, a literatura técnica e as instituições especializadas só reforçam o que o cidadão comum vê no seu dia a dia: “a participação do Brasil na economia global caiu ao seu menor nível em 38 anos, segundo dados divulgados pelo Fundo Monetário internacional/FMI” – Revista Isto é Dinheiro de 29/04/2019.
As explicações para esta constante alternância entre avanço e retrocesso, é dada a sua maneira pelos nossos economistas, políticos, cientistas sociais e mesmo por “gurus”, que não raro vaticina que o Brasil é um mero joguete de interesses de outros países, do mercado financeiro internacional, das ONG’s e até mesmo das elites nacionais, que insistem em manter o Brasil no atraso, para de alguma maneira lucrar com essa situação.
O cenário acima tem nos seus defensores e detratores razões de sobra para fundamentar seu raciocínio, sua tese ou livro. O articulista que ora subscreve esse artigo, certo que não existe resposta única ou certa para tão elevada discussão, já que não é possível delimitar ou cercar todas as hipóteses para nosso eterno vai e vem de desenvolvimento momentâneo com subdesenvolvimento perene, irá arriscar uma proposição: o brasileiro tem que fortalecer sua característica de conservador nos costumes e de liberal na economia.
Para evitar confusão de conceitos, irei desde logo esclarecer que “ser conservador é preferir o familiar ao desconhecido, o testado ao nunca testado, o fato ao mistério, o atual ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao abundante, o conveniente ao perfeito, o riso presente à felicidade utópica” (frase de Michael Oakeshott – Historiador Britânico). E acrescento que no entender desse escriba é o brasileiro um conservador nato.
E já indico um fato histórico que bem revela a natureza conservadora da sociedade brasileira: Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Foi um movimento surgido em março de 1964 e que consistiu numa série de manifestações, ou “marchas”, organizadas principalmente por setores do clero e por entidades femininas em resposta ao comício realizado no Rio de Janeiro em 13 de março de 1964, durante o qual o presidente João Goulart anunciou seu programa de reformas de base. Congregou segmentos da classe média, temerosos do “perigo comunista” e favoráveis à deposição do presidente da República.
Corrobora com a alegação supra a eleição do Presidente Jair Bolsonaro em 2018, posto que o programa de governo do então candidato Bolsonaro era flagrantemente conservador: Deus, Família e Pátria. E é bom registrar que os últimos três presidentes da república (Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff) eram francamente alinhados com os ideários do progressismo, que se caracteriza por defender um Estado (burocracia estatal) grande, controle estatal da economia, da vida privada, e defesa de uma maior igualdade social etc.
Assim, com base nesse rápido retrospecto histórico, bem como pela observação da história recente dos países que nos circundam na América Latina, notadamente Venezuela, Bolívia, Equador e mesmo a Argentina, é fácil de perceber que o povo Brasileiro nunca foi seduzido ou manipulado pelos ideais de ruptura social, de utopias teóricas ou de planejamento estatal da sociedade. O que dá uma particular singularidade ao nosso bom e velho Brasil, qual seja, ser um dos poucos países da América do Sul a não ter sofrido uma revolução bolivariana (novo socialismo).
Já no que tange ao liberalismo econômico é possível indicar como princípios básicos desse movimento a defesa do livre mercado, da propriedade privada, da divisão social do trabalho, do interesse individual, da livre iniciativa do cidadão para trabalhar e empreender. Ou seja, é a defesa da singularidade do indivíduo contra o arbítrio tanto das massas quanto dos governantes. E note-se que o liberalismo defende como meio apto a viabilizar seus objetivos a Democracia Representativa, o Estado de Direito e o respeito aos Direitos Civis.
Os pensadores liberais, no que diz respeito à felicidade, não cometem a ingênua arrogância de defini-la objetivamente, pois acreditam, com base na ideia do pluralismo, que não existe um único modo de ser feliz, mas diferentes maneiras, espirituais e materiais, de autorrealização. Somente o próprio agente, quando poder dispor livremente de seus talentos e habilidades, sabe o que lhe trará a felicidade ou o que lhe causa tristeza ou dor. Os liberais defendem que, de forma subjetiva, só os indivíduos podem ser felizes, sendo inócuo e pernicioso qualquer projeto de engenharia social que ambicione criar e/ou implementar a felicidade coletiva (Evolução Histórica do Liberalismo, Antonio Paim, editora LVM, p. 30).
Por fim, certo da correção da lição de José Ingenieros: o êxito de um ideal não depende nem de sua beleza, nem de sua grandeza, mas sim de sua conformidade com a vida… Que sentencio que o brasileiro é um homem apegado à família, ao trabalho e a fé em Deus, razão pela qual, deve preservar e fomentar seus costumes e sua liberdade econômica. E a única verdade que consegue carregar é a de que somente pelo seu esforço individual poderá realizar seus sonhos.
Julhiano Cesar Avelar
Procurador do Estado do Amapá. Atual Diretor-Presidente do Instituto de Terras do Estado do Amapá – AMAPÁ TERRAS
Amapá em Desenvolvimento
