Talvez a necessidade de sobreviver, como uma corrente, aprisiona os espíritos em suas limitações odiosas. O fantasma da insegurança e do medo toma o coração humano, que luta, tendendo a se adaptar, a desistir.
São os sonhos que contemplam o propósito da existência. Enquanto ser errante, a averiguação por significado comunica fraqueza e fuga das urgências materiais.
São os questionamentos que agravam a lama do caminho até o conhecimento e impedem ou retardam a corrida contra o tempo.
Todavia, quem disse que as carências existenciais aguardam os vencimentos e rubricas do orçamento?
O consolo contra a tormenta da necessidade de sobreviver, algumas vezes, vem da contemplação e do deleite ao momento presente.
O presente: isso é tudo o que a vida é! Mesmo assim, desistido e desassistido da esperança, o homem perde a verdade libertadora, esquecendo o encantamento genuíno pela vida.
Em meio à ignorância que causa o vazio, o desejo arde e o confunde – céu e inferno coabitam nele. Vivencia, por isso, o desejo de preencher, de pertencer, de sobreviver, de permanecer.
Uma estrela solitária, no vasto céu noturno, o homem anseia pela luz da salvação. A salvação de todos os percalços, durante a volta para casa, que, vulgarmente, coincide com a morte.
Sobrepujado pelo manto de ferro, o deleite do caminho de volta para casa tem um tom de covardia e outro de sarcasmo.
Em busca do retorno e da verdade, o ser consciente destrói e constrói suas condições, esperando um fôlego de salvação ou luz.
Uma Fênix desajeitada que das cinzas se ergue, todos os dias. Desvendando, em si, qualquer mistério curioso, com ou sem coragem e sem a beleza do passado, nem o enxergar do futuro, essa nobre alma, renasce das dúvidas, em cada minuto.
Nos instantes profundos de contemplação, vem rápido e sublime um preenchimento daquele vazio, com a plenitude que ilumina e aplaca cada questionamento sobre o segredo da existência e da vida.
Assim, o ser canta, abraça, sorri e respira. E a canção eterna da vontade de viver – ou sobreviver – vibra em versos entrelaçados por paixão e razão. E esvai, como fumaça, em noite escura.
Retorna, então, um fardo cego e a interminável luta é refeita.
Ainda bem que a vontade de viver instintiva distrai o peso que o perturba e, em meio ao desespero, oprime aquilo que cansa o lutador.
As noites escuras do retorno para casa são as ausências, no lampejo esperançoso do autoamor que, mesmo tênue, traça a bonança efêmera do caminho de volta.
Pois na trama complexa da vida, acredita-se que a morte é um fim de outro começo, que há um propósito pela tal luta, que o insuportável viver é provado na fé, que a chama do poder vem de resistir.
Ora, francamente, a cada passo incerto, o que morre é a crença, o que persiste fica sendo o propósito e o que suporta é a subsistência renovada da ordem.
No coração humano, entre o desespero e a esperança, o caminho de volta é o renascer e a obrigação de ressurgir. Tal como o sol salvador no horizonte, está a promessa de que a vida continua, a despeito da morte.
Cada novo dia presenteia o homem com o renascimento, desde que a urgência pela evolução não o corrompa com correnteza do tempo, impelindo-o a crescer, a qualquer custo.
Em busca do retorno, a evolução humana é o chamamento imperativo, o compromisso com o presente, o ato criativo, que transcende o medo.
Assim é a obrigação de renascer a cada manhã, sem vidas em vão, sem urgência da evolução, sem determinismo ou aflição. Na verdade, o ímpeto para avançar é a força motriz, a determinação.
E a única obrigação é a busca do retorno e, com compaixão, o caminho da reconstrução.