Ocorre que, vez ou outra, um governador intervém, em busca de soluções legais menos repressivas. É o caso do governador do Amazonas, Wilson Lima, que se moveu na intenção de acordo em prol da legalização, uma vez que o órgão ambiental federal, IBAMA, havia dado um prazo de cinco dias, já transcorridos, para a retirada dos rebanhos de áreas embargadas. Alguns representantes do povo falaram que o deslocamento implicava em quinhentas mil reses.
De maneira concisa, o governador posicionou-se, dizendo que “não quer passar a mão na cabeça de quem está cometendo ilegalidade” e continuou o manifesto, comunicando: “a gente quer oportunidade de se legalizar. Ninguém se nega a se legalizar. A repressão tem que ser uma exceção. Nosso objetivo tem que ser cooperar e dar as condições, para que a população possa produzir, para que a gente possa produzir alimentos, para que a gente possa garantir o sustento das nossas famílias”.
Como não falar das flores em tempo de guerras? Eis um exemplo de esforços conjuntos, em busca da não paralisação de uma atividade econômica e, consequentemente, da estagnação de uma região inteira. Inclusive, atingindo a qualidade de vida da população, ainda que indiretamente.
E se trata de um conhecimento popular que a cadeia produtiva termina na mesa. Mérito deles: o agro é pop! Publicidade e marketing, conjecturas políticas e muito trabalho organizado dos criadores e produtores rurais, por décadas. Daí a dificuldade em reprimir, a toque de caixa, tal atividade. Eles se tornaram fortes e são necessários ao mundo, ainda.
Noutra ponta, os pequenos mineradores, garimpando a seu modo, vem quitando a dívida de desalinhamento político-administrativo e é empurrado à margem social – gritam em silêncio. No oeste do Pará – mais precisamente entre os municípios de Itaituba e Novo Progresso – a repressão federal ecoa na mídia nacional sobre os ditos “garimpos ilegais”. Disso decorrem muitos vídeos heroicos, registrando incêndios, tiros, destruições e expulsão de famílias inteiras daquelas regiões.
Os criminosos nada podem, sequer cabe defesa. Os ensandecidos “denunciantes apontam que as ações acabam favorecendo grandes empresas de mineração, algumas estrangeiras, que entram nos garimpos, até então tidos como ilegais, e passam à exploração, normalmente”. E continuam, conforme blog avesso à atividade garimpeira:
“Olha que desgraça o IBAMA está fazendo aqui – diz um garimpeiro, ao contemplar o trator ardendo em chamas. Sem água para apagar o fogo, ele joga areia sobre a máquina, o que pouco adianta. Em outro vídeo, famílias deixas às pressas um barraco (casa), enquanto se ouve o choro de uma criança e uma voz de homem, afirmando que são covardes”.
Nenhuma novidade. A repressão é a última ratio do Estado de Direito. A questão é: com que finalidade? Se para educar e evoluir uma nação, é válida. Se para extirpar os direitos negativos dessa mesma nação, é questionável demais.
Segundo essas denúncias, o lobby de mineradoras multinacionais bate sem dó nesse povo “sem rédeas”. O descontrole organizacional e a desarticulação política agravam, sob efeito dominó, alguns estados, onde a atividade tradicional garimpeira sustenta cidades e arredores. O crime organizado – e põe organizado nisso- vem a reboque, dando conta da impopularidade e da desaprovação social sobre os garimpeiros, aproveitando enquanto e onde pode. É o que dizem.
Sempre que um povo estiver acuado, basta-lhe imprimir mais medo. Sempre que um povo estiver dividido, basta-lhe falar com doçura, promessas vãs. Porque dias nebulosos permitem controle em massa. Por meio de guerra ou de crise, o enfraquecimento popular é mais lucrativo e comemorado,ainda que com certa exclusividade social. Aos demais, que gritem em silêncio.