Não maltrata, não procura seus interesses, não se ira facilmente, não guarda rancor. O amor não se alegra com a injustiça, mas se alegra com a verdade”. Que amor é esse? Deduzi ser o amor ideal. Deus é amor, logo, o amor é Deus. Assim, o amor é Tudo o que há! Bingo.
Pela razão, a resposta poderia ser essa, concordei com a voz na minha mente. E a avalanche de meus sentimentos, derivados dos pensamentos, e acostumados a disparar tudo, menos o amor? Ah, esses devem brotar da escória, oriunda dos inaptos a “tocar” o Todo-Poderoso – entendi com consternação. Quem ama o próximo já evoluiu e beira a oitava ou nona década dessa existência.
Pronto, solucionei a confusão momentânea e redimi à autopunição, daquele instante. Instante mesmo. Isso se deu entre o início e o término do agir de alguém, pouquíssimos segundos, rondados pelo meu julgo condenatório. Socorro – desejei.
A voz surgiu em auxílio: busque a causa. Hum, verdade. Lá fui eu, com cara de paisagem, fazendo outras coisas corriqueiras e matutando, no favor de atingir a melhor resposta. Fucei, fucei e compreendi a não aceitação àquela atitude inofensiva, que mal deixava a respiração fluir em mim: uma regra de família. Regras são regras, que, evidentemente, herdei de meus antepassados.
O zelo que dediquei, após deflagrar “tamanha descoberta”, levou o carro em direção oposta do caminho desejado. Bufei e retornei. Daí, surpreendentemente, sorri à gratidão. Ela podia fazer algo, agora. Comecei a pensar nos entes que vieram antes, pelo prisma dela. Foi mistura de êxtase e graça. Quão grande o favor que me fizeram!
Firmei agradecimento aos pais, avós e ancestrais, por me terem trazido ao meu caminho. Agradeci pelos sonhos que tiveram, por terem superado e conduzido suas vidas, até que a minha chegasse. A partir disso, consegui sentir amor. Assim denomino o mix de alegria e calma, aumentado à vontade de abraçar com carinho o mundo inteiro. O problema é que passou, desapareceu, esvaziou. Ficou, somente, uma marca e isso me bastou.
As impressões de tristeza, raiva, mágoa, rancor, beirando a dor física, violentando e sufocando, que experimentei – imaginei- teve seu início em gerações passadas, por tragédias, omissões, separações e desilusões, mas nada escapou ao seu momento evolutivo. Nenhum segredo, nenhuma ruptura, nenhuma partida prematura, nada houve fora de uma escolha, organizada pelo que se tinha de conhecimento de quem a tomou ou foi tomado por ela. Sábio ou não, deu-me minhas circunstâncias iniciais e, delas, trilhei a história que escolhi, mesmo que desamparada das sofisticadas alternativas mentais e espirituais. Eu escolhi! Fui agente ativa de minha jornada. Libertei-me, enfim.
Seguindo, não atrasei em reorganizar minha escala, vez que estrutura e firma de importância a moral que acerto comigo. Liberdade obteve o segundo lugar no podium, onde o amor – que é o Todo – reinou absoluto. E eu a senti! Foi quando limpei uma lágrima, escorrida sem permissão. Libertei as memórias de limitação, as crenças negativas e as teimosas, que descompassavam o andado e até o rebolado. Depois, a alegria. Em quarto, iluminou-me a união, que concedeu unidade com todos e, ao fim, a entrega.
A entrega, por conseguinte, é confiar! De novo, parei, cedendo à razão. Confiar equivale a crer sem medir ou esperar pelo resultado. Segui em concatenação abstrata. Logo, perguntou a voz: poderia decidir confiar no amor? Sim – foi minha decisão. Ela: e se confiar amor ao próximo, seja lá a que distância estiver, não circunstanciar boas experiências? Acordei comigo que isso seria questão do próximo. Liberdade, novamente! Quase confundi fé com liberdade para amar. Até quis…
Não me soou sensato. Com a lista pronta, cuidei de restaurar relação com as gerações passadas. Tudo bem, também, se, no presente, pudesse ser mais complicado, já que o próximo está logo ali- confortou-me o ruído mental. Em desacordo, direcionei amor a mim e aos que ainda vivem. Aventureira, continuei abençoando cada geração. Vibrei alto. Foi viciante a quantidade de “neurotransmissores benevolentes” que vieram em meu amparo.
Entendi, assim, que sempre fui eu. Tudo eu. A responsabilidade, o desamparo, os não ditos, os desígnios. Tudo milimetricamente combinado comigo. Uma escolha levava a outra e a outra. Do mesmo modo, as não feitas me somaram evolução. Comecei a trabalhar, desse ponto em diante, a capacidade de respeitar a liberdade, já que a capacidade de amar a pessoa à pouca distância, por certo, tomaria de mim algumas centenas de décadas… O estômago, por fim, sossegou, as orelhas arrefeceram e a voz calou.