Confesso buscar, de forma determinada, a mulher e seu papel mítico. Em cada pesquisa, cresce meu deleite. Não à toa, temos o órgão formador de outro ser. Da parte da medicina, estaríamos apenas gestando ser humano, até que lhe pudesse o mundo dar conta. De interesse da economia, permaneceríamos cuidando e garantindo mão-de-obra sã e consumidores ávidos.
Esquecem tais ciências que encubamos depois do parto, no seio doméstico, donde construímos a identidade social, com todas as impressões de mundo que tínhamos, somadas às trazidas pelo novo ser, que, rearranjadas, darão vida ao homem ou à mulher. Esse indivíduo disputará ou compartilhará espaço com os seus pares. Aqui, começa a agigantada jornada da mulher.
Outros contos
Na padaria, numa dessas manhãs inglórias, deparei com uma colega bastante ativa. Em cento e oitenta segundos, relatou-me ela de suas funções como agente política, causídica, duas atividades mais e, por fim, a cátedra da maternidade. De pronto, percebi quão adaptada estava ela aos comandos sociais modernos sobre a multifuncionalidade feminina. Sem hesitar, contou-me, com ânimo e coragem, que um de seus filhos tinha transtorno do espectro autista. Senti-me tão viva e proativa, escutando-a e vibrando em sua boa frequência. Logo, despedimo-nos. Antes, porém, aproveitou-se de alguns segundos mais, para noticiar de sua campanha eleitoral e de suas audazes propostas.
Alegre, determinada, atarefada, bem trajada, ornada nos afazeres sociais ou ações filantropas e, de quebra, com a maternidade em dia, compõem o primeiro estágio de boa formação da mulher atual. No instante seguinte, murchei. O cotejo desceu sem piedade sobre mim. Quão inútil poderia ser a figura feminina que não atingiu o estágio de supermulher? Afinal, somos iguais aos homens, que são pais e tudo o mais.
Não fosse pouco, a consciência notou ligação a outra memória. No curto caminho à cafeteira, antes que a xícara estivesse cheia e que a atuante colega partisse em seu automóvel, veio-me como uma tapa: “ah, você é parecida ao pato, nem nada, nem voa” –a definição de um gentil senhor de alta patente das forças armadas, ao questionar-me de minhas atribuições pessoais e profissionais, alguns meses antes. Milissegundos deram-me uma interpretação obsessora de retirar a força do mastigar de uma broa, pela união das duas memórias! Uma pata, perguntei, é o arquétipo de alguém que se dedica à família?!
O poder do tempo
Noutros quinze segundos seguintes, acionei minha artilharia inquiridora, em resgate de valores e ânimos que escolhi ter. Se existe ego, que exista em favor da humanidade. Da história de vida e das contingências passadas, o que pude dar a mim foi dado, o que resisti, foi evitado e o que não soube lidar, foi omitido ou esquivado. Agrada-me, agora, a fortaleza da busca e do acolhimento a mim e aos que me cabem, enquanto seres em evolução, por designação legal.
Dentre as questões digeridas com a broa, entendi que, nem de longe, a participação da mulher nas eleições, é indesejada. Nem por força física contra meu pescoço, concordaria que lutas por igualdade de gênero enredaram em descaminho social. O que retenho em resistência precede tudo isso: equiparam nossos talento e brilho próprios aos dos homens. Mulher não é igual a homem. Ela tem missão máxima e mais dedicada. Diferentes em natureza pela criação de Deus – ou pelo que se tenha como Criador.
Lembrei que nem só de nossa procriação a humanidade nos é dependente. A base de toda a conjectura social edifica-se pela mulher, cujo cerne é a maternidade. Dentro daquele milagroso interim, do parto à maioridade, o poder do tempo nos é implacável: ou aproveitamos e ajustamos as ordens de prioridades, cada mulher com as suas, ou resta-nos suplicar até o fim da vida por respeito, compaixão e honra da prole. Não tem como aplacar uma das alternativas, nem apagar suas sequelas.
Tantas heroínas foram genuinamente reveladas e sustentam multitarefas, coordenando, brilhantemente, laços afetivos no lar. Outras, como eu, sentem a carência de aprimorar, continuamente, o conhecimento da maternidade, posto aceitar essa nobre missão, de tentáculos longínquos e efeitos eternos.
A consciência é! Nunca precisará de complementos ou adjetivações. Ela cria e projeta, tal qual a figura materna. Pelo sentimento, pela palavra e pela atenção conseguimos conceber esperanças ao ser em desenvolvimento. Quem conduz com maestria a missão, de estratégia e sabedoria é afeita! De outra margem, quem busca a construção de boa base familiar, tempestivamente e sem culpa, pondera-se, a fim de que se assentem todas as demais funções à maternidade.