Certa vez, ouvi que a incerteza é o infortúnio dos tolos e o regozijo dos sábios. Podemos adotar muitas acepções, pela raiz e pelas origens do que se toma como incerto. Se pudesse catalogar todas as palavras sinônimas, até as idiomáticas, exatamente, como outro brasileiro, em outra região do país o faria, teríamos, nós todos, a premissa de que nossas experiências humanas partiriam de significados quase idênticos, vivenciados por mesmas bases morfossintáticas e isso evitaria grande parte dos conflitos sociais. É evidente que nunca foi e nunca será assim.
A mesma palavra dita em tom, volume e velocidade é tomada pelo ouvinte como aprendizado único, ainda que cem estejam presentes, mesmo assim, os traços de personalidade, as características herdadas e a cultura de cada aprendiz ditam o que se assumiu e internalizou, individualmente. O agente ativo, aquele que imprime a instrução, a fala ou a escrita, seja ela fato, valor ou norma, traz, em potencial, múltiplos resultados, a depender de quem e de como é aderida.
Lembro-me do professor Pedrinho, sétimo ano do ensino médio, sósia do Zacarias, dos saudosos Trapalhões – assim o tinha em segredo. Em pouco menos de dois anos, convivi com ele: sério e de pouco gracejo, desembarcava de seu Fusca, ano 1980, e lecionava, à terças e quintas, com a atenção de um piloto de jato. Semelhava mesmo ofício, em nobreza e alta perícia, que aqueles pilotos.
O mais intrigante era a fala: tinha ritmo acelerado, desafiador e único, ao seguir sua própria intuição, inquieta e aventureira. Talvez conseguisse alegrar-se com seus feitos, contudo, em algum mundo paralelo, não nesse. De poucas palavras, era o tipo de mestre que advertia atentamente e exigia mais, sempre um pouco mais, extraindo a essência de seu labor incontestável, em cada aluno, e acatava o compreender característico e não nivelado dos estudantes.
O nivelamento cultural
Saber que nada sei é alento e refrigério. Quando percebo que estou 99% das vezes errada e 1%, diferente dos outros, mas, nem assim, lógica ou justificável, para ser compreendida, em essência, abraço a leveza da alma que tal ensinamento é capaz de assumir. E isso compõe e aformoseia a empatia na convivência social, que só será engrandecedora, se permitir viver, em si, os costumes locais e regionais dos antepassados, ainda que amoldados a novas instruções.
Chamamos de cultura o que caberia ao ordenamento social das antigas. Hoje, o ordenamento legal impõe o que de convivência e práticas a uma sociedade são permitidas. Deveriam tomar por base a cultura que temos, nosso costumeiro modo de viver e dele promover o arcabouço legal aceitável e admissível e não o inverso. A instrução, esteja ela acompanhada de qualquer locução – religiosa, política, educacional – vinda por imposição, não é recebida, nem conhecida e permanece inapta a uma adaptação voluntária, na vida cotidiana.
Foi essa tentativa coercitiva da religiosidade dos padres à comunidade indígena, no Brasil, que impossibilitou a acolhida da catequese coativa dos eclesiásticos. Alguns, ou únicos, que tiveram êxito em “educar” indígenas ianomâmis foram os padres Salesianos do Alto Rio Negro. Foi pacífica a convivência: alguns indígenas prestando serviço militar ao Exército Brasileiro. Eles se adaptaram como quiseram e permanecem com a cultura que têm, dentro de uma nova instrução, porque os Salesianos souberam respeitá-los, ao contrário de outras ordens religiosas.
A educação instrutiva requer acompanhar a tradição regional de seu povo. Em contramão, é o mesmo que montar cavalo bravo sem a rédea: o rumo é incerto e o destino, arriscado. Decidir sobre a Amazônia tem sido assim: de cima para baixo. As resoluções internacionais, os acordos bilaterais e a autorregulação econômica, chamadas, modernamente, de governança e sustentabilidade, põem no bolso qualquer nacional que coabite ou se atreva a produzir, por essas bandas daqui. O povo da Amazônia é insubordinado ao Direito doméstico. Então, é ensinado, em nossas escolas, que precisamos ser punidos, com queima e retaliações a nossos meios de produção e sobrevivência. Vão nivelar-nos às culturas extraterritoriais.
A solução
Um stop ao crescimento da população mundial estaria como uma das mais sensatas sugestões. Quando sabemos que animais quadrupedes espalham gases e contribuem com o efeito estufa, que fronteiras agrícolas precisam ser contidas, que minérios regionais são mais bem agenciados por corporações internacionais, ficamos encurralados!
Estamos sobre a Amazônia, compreendemos sua grandeza e temos nossa tradição secular. Ignorar nossa existência cultural pode funcionar a quem legisla e administra, mas causa grandes transtornos a quem registra, fiscaliza e acompanha toda essa gente, esse povo trabalhador e teimoso, que não aceita porrete do alto, com anuência de deputados, ministros e senadores.
Os “Três Poderes” não conhecem a cultura que o lugar nos impôs. A legitimidade das normas, seja sob instrução, educação, lei ou ordem precisa vir conduzida pela cultura regional. Se o banco de escola mantiver tendência a conflitos com a cultura de cada povo, a desordem está instalada e o progresso, adormecido. É o que vem acontecendo por aqui, desde a instituição do MEC, que publica os mesmos livros para o Brasil inteiro e inferioriza, nivela por baixo, as regiões do país em suas distinções, peculiaridades e riquezas. Incerta parece-nos mesmo é nossa tradição.
A mesma palavra dita em tom, volume e velocidade é tomada pelo ouvinte como aprendizado único, ainda que cem estejam presentes, mesmo assim, os traços de personalidade, as características herdadas e a cultura de cada aprendiz ditam o que se assumiu e internalizou, individualmente. O agente ativo, aquele que imprime a instrução, a fala ou a escrita, seja ela fato, valor ou norma, traz, em potencial, múltiplos resultados, a depender de quem e de como é aderida.
Lembro-me do professor Pedrinho, sétimo ano do ensino médio, sósia do Zacarias, dos saudosos Trapalhões – assim o tinha em segredo. Em pouco menos de dois anos, convivi com ele: sério e de pouco gracejo, desembarcava de seu Fusca, ano 1980, e lecionava, à terças e quintas, com a atenção de um piloto de jato. Semelhava mesmo ofício, em nobreza e alta perícia, que aqueles pilotos.
O mais intrigante era a fala: tinha ritmo acelerado, desafiador e único, ao seguir sua própria intuição, inquieta e aventureira. Talvez conseguisse alegrar-se com seus feitos, contudo, em algum mundo paralelo, não nesse. De poucas palavras, era o tipo de mestre que advertia atentamente e exigia mais, sempre um pouco mais, extraindo a essência de seu labor incontestável, em cada aluno, e acatava o compreender característico e não nivelado dos estudantes.
O nivelamento cultural
Saber que nada sei é alento e refrigério. Quando percebo que estou 99% das vezes errada e 1%, diferente dos outros, mas, nem assim, lógica ou justificável, para ser compreendida, em essência, abraço a leveza da alma que tal ensinamento é capaz de assumir. E isso compõe e aformoseia a empatia na convivência social, que só será engrandecedora, se permitir viver, em si, os costumes locais e regionais dos antepassados, ainda que amoldados a novas instruções.
Chamamos de cultura o que caberia ao ordenamento social das antigas. Hoje, o ordenamento legal impõe o que de convivência e práticas a uma sociedade são permitidas. Deveriam tomar por base a cultura que temos, nosso costumeiro modo de viver e dele promover o arcabouço legal aceitável e admissível e não o inverso. A instrução, esteja ela acompanhada de qualquer locução – religiosa, política, educacional – vinda por imposição, não é recebida, nem conhecida e permanece inapta a uma adaptação voluntária, na vida cotidiana.
Foi essa tentativa coercitiva da religiosidade dos padres à comunidade indígena, no Brasil, que impossibilitou a acolhida da catequese coativa dos eclesiásticos. Alguns, ou únicos, que tiveram êxito em “educar” indígenas ianomâmis foram os padres Salesianos do Alto Rio Negro. Foi pacífica a convivência: alguns indígenas prestando serviço militar ao Exército Brasileiro. Eles se adaptaram como quiseram e permanecem com a cultura que têm, dentro de uma nova instrução, porque os Salesianos souberam respeitá-los, ao contrário de outras ordens religiosas.
A educação instrutiva requer acompanhar a tradição regional de seu povo. Em contramão, é o mesmo que montar cavalo bravo sem a rédea: o rumo é incerto e o destino, arriscado. Decidir sobre a Amazônia tem sido assim: de cima para baixo. As resoluções internacionais, os acordos bilaterais e a autorregulação econômica, chamadas, modernamente, de governança e sustentabilidade, põem no bolso qualquer nacional que coabite ou se atreva a produzir, por essas bandas daqui. O povo da Amazônia é insubordinado ao Direito doméstico. Então, é ensinado, em nossas escolas, que precisamos ser punidos, com queima e retaliações a nossos meios de produção e sobrevivência. Vão nivelar-nos às culturas extraterritoriais.
A solução
Um stop ao crescimento da população mundial estaria como uma das mais sensatas sugestões. Quando sabemos que animais quadrupedes espalham gases e contribuem com o efeito estufa, que fronteiras agrícolas precisam ser contidas, que minérios regionais são mais bem agenciados por corporações internacionais, ficamos encurralados!
Estamos sobre a Amazônia, compreendemos sua grandeza e temos nossa tradição secular. Ignorar nossa existência cultural pode funcionar a quem legisla e administra, mas causa grandes transtornos a quem registra, fiscaliza e acompanha toda essa gente, esse povo trabalhador e teimoso, que não aceita porrete do alto, com anuência de deputados, ministros e senadores.
Os “Três Poderes” não conhecem a cultura que o lugar nos impôs. A legitimidade das normas, seja sob instrução, educação, lei ou ordem precisa vir conduzida pela cultura regional. Se o banco de escola mantiver tendência a conflitos com a cultura de cada povo, a desordem está instalada e o progresso, adormecido. É o que vem acontecendo por aqui, desde a instituição do MEC, que publica os mesmos livros para o Brasil inteiro e inferioriza, nivela por baixo, as regiões do país em suas distinções, peculiaridades e riquezas. Incerta parece-nos mesmo é nossa tradição.