Estamos deitados em berço esplêndido. Tanto quanto a beleza nos faz embevecer, a riqueza – do solo e do subsolo – deveria nos fazer enriquecer.
Como riqueza e cobiça andam juntas, manobras políticas nos colocam como depositários da riqueza, explorada por outros.
Sobre a queda de Jango, aprendemos a versão que nos contaram. Entretanto, o americano Michael Tanzer, em clássica obra, fala na “pressão feita pelo governo dos Estados Unidos” e, ainda, que a “Petrobrás tem sido combatida pelas companhias desde os primórdios”. Vargas já acusava o fato, na Carta-Testamento – como sabido.
O autor diz, ainda, que “toda a campanha contra o Brasil foi feita, para fins de disfarce e relações internacionais” em torno de dificuldades com o programa de estabilização, tendo “a gota dágua” ocorrido em “março de 1964, com a nacionalização das refinarias particulares existentes”.
E não é só.
A Hanna Minning, que operava minas de ferro, teve a concessão de exploração cassada por Getúlio Vargas. Ocorreu o seu suicídio, ante a pressão dos trustes internacionais, como denunciava. Assumiu o vice-presidente Café Filho e a concessão de exploração da Hanna foi logo restabelecida. Anos depois, João Goulart cassou novamente a concessão, que foi prontamente restabelecida por Castello Branco, ao assumir, após a derrubada daquele.
Mais?
Cerca de 60% do território brasileiro corresponde à Amazônia Legal. Essa imensa área continua sendo brasileira, embora muito dessas riquezas esteja escoando, há anos…
É bom relembrar que, em idos de 1823, nascia nos EUA a Doutrina Monroe, com o propósito de defesa continental contra as potências europeias e e submissão à sua hegemonia. Rui Barbosa a criticava e o embaixador Oliveira Lima a considerava ato de reserva do continente para futuros empreendimentos americanos.
Em torno do conceito surgiram ideias, como a de Mathew Maury, que defendia a colonização da Amazônia pelos americanos, inicialmente ocupando-a com a população que foi libertada após a Guerra Civil. No mesmo rumo eram as pretensões de se formar uma “república amazônica”, com a livre abertura da navegação, algo que se considerou tão importante quanto a ligação ferroviária entre as costas Leste e Oeste dos EUA. Contudo, essa medida traria-nos graves consequências e, sagaz, o Imperador Dom Pedro resistiu, com a ocupação daquele espaço, através da criação da Companhia de Navegação do Amazonas, implementada pelo Barão de Mauá.
Em idos de 1910, o americano Percival Farquhar focou no Brasil e buscou o monopólio das nossas minas de ferro, chegando a ter negócios do Amapá ao Sul do país, explorando também madeira, borracha, frigoríficos e portos.
Anos depois, a Fordlândia surgia, gozando de isenção, por 50 anos, de todos os impostos, presentes ou futuros. Ali, Ford poderia ter segurança própria, pesquisar minérios, fundar bancos e criar escolas – até sem a obrigação de se falar a língua portuguesa.
Missões religiosas estrangeiras também penetraram o nosso espaço. Muitas tiveram louváveis iniciativas. Contudo, os americanos Gerard Colby e Charlotte Dennet, em imensa e magnífica obra, registram que havia projetos com “uma inspiração menos espiritual: a invasão americana”, se referindo a missões que “assumiram o papel de vanguarda para as empresas petrolíferas”.
Houve também o cerco sobre a Amazônia, cogitada nos minuciosos trabalhos da CPI da Venda de Terras a Estrangeiros, realizada no Congresso Nacional, em 1967, que falava na aquisição de milhões de hectares, muitos fazendo um “laço” em torno e acima do Paralelo 14. Terras públicas foram envolvidas em irregulares aquisições e retomadas judicialmente.
Modernamente se fala noutros cobiçadores gestos, direcionados às nossas riquezas, com destaque para a frente amazônica, como noticiado pela imprensa, inclusive em torno do Belt and Road (BRI), projeto geopolítico para as próximas décadas, além do Corredor Triplo A, que, em singela abordagem, pretende criar imensurável área que, sob o foco da preservação, afetaria cerca de 30 milhões de pessoas – inclusive povos índigenas, de diferentes etnias – não sendo fantasiosa a imensa carga de interesses econômicos e de geopolítica, envolvida no contexto.
A questão é que nada acontece por acaso e, no jogo de poder e de interesses globais, cada partícula deve ser analisada dentro do mais amplo espectro político.
Decerto há lugar para vários modelos de desenvolvimento sustentável e o país precisa de investimentos, nessa economia globalizada. Noutro foco, o mundo precisa de desenvolvimento com responsabilidade.
Entretanto, não podemos esquecer que nos acostumamos a ver o mundo com cerca de 195 países, ignorando que eram apenas 69, há 80 anos! De lá para cá, territórios foram divididos e, assim, foi fracionada a força de cada país. Isso facilitou a ação dos grandes grupos e o apetite dos poderosos.
Devemos valorizar o fato de que, apesar de tantas mudanças no mundo, mantivemos a unidade do nosso imenso território e a identidade do nosso povo. Devemos honrar isso e cuidar para não ser divididos.
Observemos, ainda, que acusações de poluição e de danos à natureza chegam, por vezes, de grandes poluidores – do presente e do passado, inclusive por poluição nuclear e industrial.
Uma pergunta: será que a saída dos garimpeiros das regiões amazônicas abrirá espaço para a exploração do ouro, em escala industrial, por potências estrangeiras?
Nós somos empáticos, complacentes e parecemos ainda carregar pureza e inocência diante do gambito global, confiando no altruísmo de alguns apertos de mão e ignorando que muitos dos que nos adulam apenas querem proximidade para nos envolver em abraço dominador.
Assim, temos observado, ora aplaudindo, ora desconfiando, ora receptivos, ora incomodados, sem muito mais fazer do que nos sentir incapazes de resistir ao processo, como a aceitar o destino, por outros traçado.
No mais, pensemos como os dominadores, que apenas agem em prol de si e dos seus nacionais, no campo privado, focando no lucro e no poder econômico e, no campo político, na dominação e na ampliação do poder e da área de influência.
Se cada um age como nacionalista, a seu modo, por qual motivo não podemos ser fortemente nacionalistas?
O fato é que, aqui, posturas protecionistas e nacionalistas foram deturpadas. Exemplo temos em Getúlio Vargas, como, aliás, o próprio registrou em sua Carta-Testamento, ao fazer referência aos “decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais”.
A mesma cruzada renasce em outros momentos, sob outras roupagens, nomes, projetos e intenções. Por fora o véu, por baixo, a cobiça e a intenção de controle e desnacionalização das nossas riquezas. O mundo está em mudanças, embora muitas ocorram para que nada mude, principalmente quando os poderosos manipulam fatos, capital e poder.
Desnacionalização das nossas riquezas
