Motivo? Taiwan sofre a pior seca em mais de 50 anos e lá se produz mais da metade dos chips do mundo – processo produtivo que exige muita água.
As mudanças climáticas saem da teoria para a realidade cotidiana: na Europa, a chuva excessiva causa mortes, enquanto na Austrália ocorreu anormal ciclo de incêndios – alguns com duração de meses – e agora se enfrenta a pior seca em 100 anos.
A onda de calor em regiões dos EUA acarreta o fechamento de estradas e a circulação de trens e, no Canadá, os incêndios florestais se espalham, ceifando vidas e “cozinhando vivos” mariscos, mexilhões e outros moluscos.
A seca, aqui, atrai apagão, que novamente ameaça a produção de energia elétrica e abala o seu preço e fornecimento para indústrias e residências. A seca pode decorrer dos ciclos da natureza, embora venha de longos anos a falta de investimentos no setor – e a privatização do Sistema Eletrobrás não nos ajudará, sob a ótica da estratégia nacional.
A “seca” é maior do que parece. A humanidade se distrai com cotidianas questões enquanto, egoísta e consumista, alimenta a cobiça e a predatória e altamente poluente produção industrial. Paradoxo: não se pode “parar o trem” da produção mundial e também não podemos gritar “pare o mundo que eu quero descer”.
Não temos para onde ir, o que ficou bem claro nesta Pandemia – que globalizou o contágio, as mortes e os danos econômicos. O grave desequilíbrio ambiental ameaça a humanidade, embora seja obra de poucos a sua produção em grande escala.
Países como Alemanha, EUA, Índia, China, Rússia e Japão são grandes poluidores. Fato natural, já que são alguns dos maiores consumidores de energia, usando matrizes altamente poluentes, como o carvão, o petróleo e as usinas nucleares.
Thomas Hobbes dizia que “o homem é o lobo do homem” e parece que o uivo global já se faz ouvir.
No Século 20, notadamente após a 2ª Guerra Mundial, vimos a cultura e o modo de vida europeu ser substituídos pela consumista e imediatista ideia do “american way of life”, em parte baseada na imagem da prosperidade como propósito de vida e na felicidade apoiada na aquisição de bens materiais – algo como válvula de escape ante os horrores da guerra e forçada hegemonia para manter a posição conquistada.
Tornamo-nos mais dependentes da ideia de que a felicidade está ligada ao consumo e relacionada com a aquisição de coisas que a mídia nos fez desejar, ainda pagando por ilhas de lazer para o desfrute do pouco tempo livre.
A internet nos traz vantagens e facilidades, mais perceptíveis nesses tempos de isolamento social. Todavia, serve também de veículo para produções de consumo imediato e sem perspectiva de futuro, algo próximo aos “15 minutos de fama” de que falava Andy Warhol.
Nada do que se vê em aplicativos se parece com as obras de Dante, Goethe, Eça, Pessoa, Machado, Beethoven, Mozart, Moliére ou Aristóteles.
O descartável impera em nossa era. A imagem passa a valer mais do que o conteúdo. A foto da natureza ganha mais destaque do que o contato com as coisas “de lá”, de tão deslocados que estamos do ecossistema. O que importa são “fotos” e “curtidas” e não os cheiros, cores, sons, texturas e a própria experiência de vida!
Parece que os “avatares” estão ganhando corpo enquanto definham os nossos cérebros e músculos. A vitória dos super-heróis satisfaz nossos egos e nos serve de conforto ao passivo papel de plateia das suas individuais aventuras – afinal, se não temos superpoderes, nada poderíamos fazer para mudar o status quo. Agindo ou deixando de agir, negamos as nossas heranças e traímos os nossos antepassados, que nos legaram ideário de batalhas e vitórias reais…
A imagem da família ideal foi vendida em séries de TV como algo “pronto”, o que ilude a necessidade do permanente cultivo dos vínculos familiares e do que é a educação, como se o amor fosse reduzido a uma frase escrita num quadro pendurado na parede.
Nosso DNA carrega a herança de conquistas e progresso, mas estamos colocados no papel de passivos consumidores das lutas televisionadas, talvez aguardando que outros façam o bom combate, acreditando na messiânica imagem do Sebastianismo português ou do ideário de Antonio Conselheiro que, em Canudos, simbolizava o criador e protetor de um mundo ideal ante as agruras da realidade da seca, no Sertão.
Há país onde se vive em apartamentos com 9m², o que corresponde a mero cômodo em algumas residências – sem falar que é menor do que os closets retratados na TV e no cinema.
Nosso egoísmo e imediatismo negará às próximas gerações o que estamos, ainda, sendo capazes de experimentar: ar respirável, céu claro para permitir a passagem do sol (o que já não ocorre em algumas poluídas regiões do mundo), verde em matas e florestas e água potável ou potabilizável.
Paralelamente, temos que preservar áreas para a criação de animais e o cultivo de alimentos, para que não passemos fome. Isso valoriza as terras agricultáveis, muito acima do mero negócio de compra e venda. Valoriza-as como algo muito maior e mais importante: estratégia para a soberania alimentar.
Podemos depender do petróleo e de outras fontes de energia, para a vida “moderna”. Contudo, cada indivíduo precisa de água e comida e o alimento e a sua produção tem relação com a segurança alimentar estratégica de cada Nação. Sem isso, será o caos e, não sem motivo, George Bush, em 27 de julho de 2001, disse aos seus compatriotas que uma nação seria vulnerável se não pudesse cultivar os seus próprios alimentos: “Vocês já imaginaram um país incapaz de cultivar alimentos suficientes para prover sua população? Seria uma nação exposta a pressões internacionais. Seria uma nação vulnerável. Por isso, quando falamos em agricultura, estamos falando de uma questão de segurança nacional” (na transcrição de Eduardo Galeano).
A propósito, o Departamento de Agricultura dos EUA está atento aos atuais índices de chuva abaixo da média no Corn Belt (cinturão do milho), por ser fator determinante para o sucesso das lavouras ali existentes.
A defesa do meio ambiente saudável é determinante para o futuro do homo sapiens (homem sábio) que domina o planeta, mesmo enxergando menos do que a águia, sendo menor do que baleias ou elefantes, não voando e não tendo os músculos fortes do gorila. Contradizeremos o nome da nossa raça ou comprovaremos que somos inteligentes o bastante, para sair desse beco onde nos encontramos? Para isso, precisamos dos chips ou de humanidade, empatia e choque de realidade, que nos propiciem mudança global de atitude?