Freud tinha razão quando considerou o poder mágico das palavras e, do nazista Goebbels, ficou a lição de que passa por verdade a mentira repetida mil vezes.
No consciente coletivo a Amazônia é alvo de cobiça e tantas são as diárias notícias a respeito.
Apenas engana-se quem pensa que essa cobiça é recente e de algum modo relacionada com notícias sobre garimpos ilegais e mineração, desmatamento, venda de madeira, grilagem e terras indígenas – os quais estão, isolada ou conjuntamente, na pauta dos últimos anos.
Em idos de 1823 nascia nos EUA a Doutrina Monroe, que defendia a não intromissão europeia no continente americano e era contra o surgimento de novas colônias e a participação norte-americana em conflitos que envolvessem países da Europa. Na prática, a ideia tanto revela a defesa continental contra as potências colonizadoras europeias quanto a reserva das américas à sua hegemonia.
Como corolário e parecendo que todo o continente americano sujeitava-se àquela doutrina, Mathew Maury considerava imensas as riquezas ao longo do Amazonas no Século 19 e sugeriu que americanos colonizassem a região, de início trazendo parte da população escrava dos EUA – que depois seria seguida pelos seus senhores.
Outros fizeram semelhantes sugestões, de se trazer para a Amazônia os ex-escravos, libertos após a Guerra Civil.
Falava-se também na formação de uma República Amazônica e forçava-se a abertura da navegação do Amazonas, medida então considerada tão importante quanto a ligação ferroviária entre as costas Leste e Oeste dos EUA. Contudo, o Imperador do Brasil a proibia e a solução governamental veio pela outorga ao brasileiro Barão de Mauá dos direitos de criação da Companhia de Navegação do Amazonas.
Por aqui, a Doutrina Monroe tinha a oposição de Rui Barbosa e do Embaixador Oliveira Lima – este considerava que significava a reserva do continente para futuros empreendimentos americanos.
Rui Barbosa, na II Conferência da Paz, na Holanda, realizada em 1907 – da qual saiu pelo Barão do Rio Branco definido como o Águia de Haia – sustentou que não é pela grandeza ou força das armas que se deve agir e sim pelo respeito à igualdade entre todos os países – tendo a Soberania como princípio.
Em idos de 1910, Percival Farquhar focou no Brasil e buscou o monopólio das minas de ferro brasileiras, passando depois a ter negócios do Amapá ao Sul do país, explorando madeira, borracha, minérios, frigoríficos e portos.
Ao tempo, consumíamos com excesso de custos os produtos por outros daqui extraídos ou aqui produzidos.
A Fordlândia, surgida no período entre guerras, gozava por 50 anos de isenção de todos os impostos, presentes ou futuros. Ali se podia ter segurança própria, pesquisar minérios, fundar bancos e criar escolas – até sem a obrigação de se falar a língua portuguesa.
Missões religiosas estrangeiras também penetraram nas regiões das florestas, tanto na Amazônia brasileira quanto noutras sul-americanas. Louváveis iniciativas. Contudo, os americanos Gerard Colby e Charlotte Dennet, na magnífica obra intitulada Seja Feita a Vossa Vontade, registram que havia projetos com “uma inspiração menos espiritual: a invasão americana da Nicarágua” e outros onde missões “assumiram o papel de vanguarda para as empresas petrolíferas”.
Às vésperas do novo milênio surgiu recente motivação para justificar intervenções na Grande Amazônia: o combate ao narcotráfico internacional. A imprensa noticiava a iminência de intervenções militares nos países produtores e, para o êxito da empreitada, cogitava-se a necessidade de livre acesso à nossa porção da Amazônia!
Tal enfoque atualizava a Teoria do Cerco sobre a Amazônia, cogitada nos minuciosos trabalhos da CPI da Venda de Terras a Estrangeiros, realizada no Congresso Nacional em 1967, que falava na aquisição de milhões de hectares, muitos fazendo um “laço” em torno e acima do Paralelo 14.
De outras paragens também chegam cobiçadores gestos direcionados à Amazônia, como noticiado pela imprensa em falas de lideranças francesas, vozes da Alemanha e negócios de interesse de chineses – estes últimos em torno do Belt and Road (BRI), seu projeto geopolítico para as próximas décadas.
É certo que há intenções puramente conservacionistas, enquanto algumas revelam-se parcialmente assim e ocultam o seu viés exploratório ou mesmo danoso, havendo outras que trazem consigo aspectos comerciais diretos e com provável elevado custo ambiental.
Há lugar para modelos de desenvolvimento sustentável e o país precisa de investimentos, nessa economia globalizada.
Não se pode confundir propósitos puramente mercantis e modelos econômico-negociais envolvendo compra e venda de produtos, incentivo à produção e industrialização e montagem de parcerias daquelas iniciativas que envolvem outro aspecto e que nenhum país desejaria enfrentar: a cobiça sobre o território em si, que se revela ofensiva à Soberania.
Nos exemplos acima citados, vimos que a História registra releituras dos mesmos propósitos intervencionistas.
O grande Brasil segue com seu território íntegro, mesmo após a Independência de Portugal, a Proclamação da República e a participação em batalhas e guerras.
Hoje existem 195 países no mundo. Eram 69 no ano de 1939, no início da 2ª Guerra Mundial. Quantos impérios se desfizeram e tiveram seus territórios fracionados? Quantas poderosas nações se viram divididas e quantas colônias se tornaram independentes?
Apesar de tantas mudanças no mundo, mantivemos a unidade do nosso imenso território e continuamos bem cuidando das nossas matas, florestas e rios, mormente quando se os compara à poluição intensa de tantas grandes áreas no mundo, inclusive por poluição nuclear e industrial.
No fim, apesar dos tempos passados, parece que a grande dama não perdeu nenhum dos seus encantos. Ao contrário: se mantém jovem e segue cortejada por todos. E é nossa!