Nos mercados, diante da conhecida lei da oferta e da procura, sabemos que o preço tende a subir conforme aumenta a procura. Não estamos falando de um produto, mas algo que podemos definir como “a” riqueza absoluta, única e sem comparações no mundo. É uma realidade gigantesca, viva e pulsante. Não teria preço calculável, mas sim um valor imensurável.
A grande Amazônia é mais do que qualquer um de nós isoladamente possa definir e é alvo de cobiça por tantos países, que se revela no foco em alguma das suas riquezas, o Nióbio ou o Ferro de Carajás; em intenções protecionistas da estratégica imensa reserva de água potável; em proteção das matas e florestas, contra queimadas e desmatamentos; em interesse científico na exploração das diversas formas de vida e da ainda oculta imensidão de seres vivos por se descobrir… Cada faceta revela uma verdade e, mesmo somadas, ainda assim talvez não nos revelem todo o seu potencial.
Por que tanta cobiça sobre a região? Podemos imaginar e até achar que compreendemos o que hoje ocorre, diante do simpático discurso ambientalista que ganha ecos aqui e lá fora. De fato o conceito de sustentabilidade é uma realidade indispensável em qualquer ação. É o presente e o futuro. Mas, essa cobiça sobre a região não é de hoje e por isso não está vinculada à proteção das florestas.
O que realmente significa em termos de estratégia global e de Geopolítica? A pressão aumenta e aumenta. Há ecos em falas oficiais de países, como noticia a imprensa. Recente fala do Presidente Francês indicava sanções em torno da nossa soja, supostamente vinculadas ao desmatamento e a queimadas, enquanto Eurodeputada também projetava ideal visando gerenciar políticas sobre a Amazônia, enquanto os EUA – que só agora assinaram o Acordo do Clima – também já introduz discurso no mesmo sentido.
Bom relembrar que há cerca de cinquenta anos se falava na Teoria da Dependência, pela qual os chamados países Subdesenvolvidos se limitavam ao papel de satélites. Naquele tempo, sobre a Amazônia, falava-se em integrar para não entregar e a ideia fazia sentido. Mas a questão está muito além dos tempos dessa ocupação, da construção da Rodovia Transamazônica e da ideia de se instalar a Zona Franca de Manaus.
O paradoxo que envolve a Amazônia está em se a proteger integralmente ou se a desenvolver, como se não fosse possível a conciliação de tais objetivos. A sustentabilidade é o ponto de lucidez sobre tais forças…
A questão é que estamos na época do “politicamente correto” e isso acaba padronizando a forma de se pensar e de se agir. Quem pensa diferente é “cancelado” e se todos pensamos iguais, faz sentido concluir que estaríamos numa era de “pensamento único” dominante ou de uma evoluída consciência universal?
Discursos ganham o mundo e são ampliados em seu alcance pelas modernas ferramentas tecnológicas, soando muito mais convincentes em geral do que as contundentes e complexas conclusões científicas e textos dos especialistas publicados em seguras fontes e livros. Parece que as mensagens e fake News são mais convincentes, coloridas e atrativas e fica mais fácil repetir uma oração com dez palavras do que um conceito formulado ao final de uma tese, algo como o E=MC² que assusta só de se olhar.
O senso crítico parece que se esvaiu e textos com maior significado parecem não fazer sentido diante de “curtidas” em aplicativos! A carência afetiva nos leva a ansiar por “corações” digitados no lugar das emoções do mundo real. E assim vai a nossa consciência, ao sabor do vento, digo, ao sabor das curtidas e dessa ideia do politicamente correto que alimenta mais curtidas.
Notemos que em fins do Século XIX já havia projetos do Departamento de Estado Norte-Americano para a Região Amazônica, envolvendo cooperação agrícola e união aduaneira, apresentando na prática a sua supremacia e o seu vigor geopolítico. Em 1889 o Pan-Americanismo se inaugura, com os EUA e a outra américa. Em 1890, tal política servia para coligir dados relevantes ao comércio, já tendo sido criticado como apenas aparentemente multilateral, ficando evidente que mais se compilava dados sobre a América Latina do que dos EUA. Vemos o início da ideia de que os EUA teriam atributos que justificariam a sua intervenção ativa noutros cenários, o que inclui a fala do ex-Presidente William Howard Taft (1.909/1.913), no 1º Congresso Pan-Americano, reunido em Lima, dizendo que “Todo o hemisfério será nosso, já que, em virtude da nossa superioridade […] é nosso moralmente”. Adiante, o princípio da não intervenção se atropelava, com o Big Stick sustentando ações no México, Caribe e América Central.
Nada diferente do que outros países expansionistas fizeram noutros tempos, mas algumas das ações em comento foram feitas na nossa Amazônia, como a expedição Roosevelt-Rondon, em torno de vários aspectos e em expedições até para a verificação do chamado Rio da Dúvida, contando com mediação do Museu de História Natural de Nova York.
Depois se carimba a ideia de “patrimônio ambiental da humanidade” e se demarca esse conceito simpático, que se derrama fomentando mais interesse sobre a região. Aumenta a cobiça. Patrimônio da humanidade, pulmão do mundo… Quantas vezes as românticas mensagens não invadiram os nossos pensamentos? Por trás há um significado de coletivo, de algo sobre o qual haveria o que chamamos de Pansoberania ou possibilidade de ingerência por parte de várias vozes mundiais, por vezes com interesses conflitantes com a Soberania Nacional.
Importante então lembrar que a chamada área agrícola na região se desenvolve a partir das pesquisas genéticas e tecnológicas resultantes das ações da Fundação Rockfeller. Enfim, muitas contribuições para a Região, mas, ao mesmo tempo, braços de sua dirigida exploração e conquista – sem se falar no Projeto Jari, com área equivalente ao tamanho do Sergipe, adquirida po Ludwig e que, como sabido, derrubou parte da floresta nativa para plantar árvores estrangeiras, além de criar gado e ter atividades de mineração.
Ademais, não se vê falar nesse passado que tanto se reflete no presente. O foco é o discurso de proteção e contra o desmatamento e desenvolvimento local, atacando produção de soja que, sabemos, não se planta na floresta, mas nos vastos campos de Cerrado naturais e existentes na Região Amazônica.
É uma mão que não vê o que a outra fez. Se dá com uma mão e se toma com a outra, como o ideal de conquista de uma nova fronteira, refletida em frase de um negociante de terras, instalado na Brasília então recém fundada, que dizia que no Brasil vendia aos estrangeiros “um novo Estado americano” (como consta no Relatório Final da CPI da Venda de Terras a Estrangeiros – 1967)… Um “novo Estado americano”, ele dizia…
Também havia a ideia de Terra Prometida, envolvendo estrangeiros em Goiás, como símbolo da “expansão da fronteira” com a então “colonização” daquela região após a 2ª Guerra Mundial – que era uma porta de entrada para a Amazônia e riquezas do interior do Brasil, como então anunciado na imprensa.
Hoje, a China cresceu a passos largos e atropelou os tradicionais cenários da Geopolítica e dos mercados globais, surpreendendo os ocidentais “inventores” da Globalização dos mercados e da mundialização do capital.
Tal fato talvez tenha causado o aumento do interesse geopolítico Americano e Europeu na proteção das áreas de influência consolidadas o que, de algum modo, significaria tentar novas ações junto à grande região amazônica e tendo-a mais sob sua direta influência, antes de arriscar que aquele imenso país venha a também ali concretizar ações demonstrativas do seu interesse.
Antes e acima de qualquer discurso, a Amazônia é nossa e o seu destino é o nosso destino.