De manhã, me contam sobre primos que moram em outro Estado. Um par de velhinhos à morte. Internados em diferentes hospitais. Ele, há meses sofrendo, pelo menos ultimamente veio agraciado com a inconsciência. Ela, submetida a uma cirurgia, está desenganada. Casal sem filhos, fisicamente muito bonitos: os olhos dela de um azul turquesa, lindos! Viajaram juntos pelo mundo todo. E é provável, quase certo, que juntos farão a viagem final.
Em grupo de whatsapp de que faço parte, a escritora amapaense (de alma eslava, provavelmente) Lulih Rojanski postou poema em prosa com o título “Constelação”. Conta que herdou de um sonhador casa com quarto povoado de fantasmas. No teto, decalques com estrelas. Stardust: poeira de estrelas, silêncio musical de um Enio Morricone. E Lulih arremata:- “Mas na noite, quando a casa se rende às sombras e só o sono é o trajeto da fuga, acende-se em fosforescências a insólita constelação de néon colada no teto acima da cama. Assim, nas madrugadas, em vez de acalentar solidões, realizo o desejo ancestral de tocar as estrelas.”
Inspirada poeta! Sua imagética nos leva a delicados arabescos, como quando fala em “silêncio dos gatos habituados aos fantasmas”. Nada mais silente que um felino em sua solene quietude. Remete aos versos de Carl Sandburg “The fog comes / On little cat feet / Sits on silent haunches / Looking over the city and harbour / And then moves on.” (“A névoa chega / Em patas de gatinho / Senta-se sobre silenciosas patinhas / Contemplando a cidade e o cais / E depois vai embora”.)
Há mais de uma leitura nos versos de Lulih. Em primeiro plano, elegia ao autor da herança. Em seguida, o vazio da casa herdada, o “desamparo das paredes sem cor”, os quartos que um dia já foram habitados e que ficaram desertos, entregues a mudos fantasmas, induzindo memórias do Chico Buarque a dizer lamentosamente “ó pedaço de mim / ó metade arrancada de mim / deixa os teus sinais”. Por fim, o magnificat quando o sonhador realiza seu “desejo ancestral de tocar as estrelas”.
Em oposição ao hino de amor do filme de ontem, e até sem aludir ao belo casal que, de mãos dadas, mesmo que internados em diferentes hospitais, enlaçam-se em espírito para deixar juntos a vida terrena, o poema em prosa aqui referido não se demora em assuntos de amor e paixão. Fala, sim, de estrelas. Estrelas que, de tão próximas, até se consegue nelas tocar (e se inverti a posição do adjetivo foi para evitar evitável cacófato).
Escrevi em “Leilani – Relato de uma Obsessão”, e aqui repito: – O amor leva o homem ao país dos loucos………… Quem já amou apaixonadamente não quer mais passar por essas coisas, pois o amor, sem sombra de dúvida, leva o homem ao país dos loucos.
Paixão é fogo e fúria. Consome o tempo em labaredas dolorosas. No mais das vezes, deixa fundas e permanentes cicatrizes. É mar proceloso, é vento em turbilhão, é vagalhão a esfacelar-se em raivosa espuma contra o rochedo da vida. É borbulha de champanhe em que se mistura o travo da cicuta. Leva, então, os apaixonados ao país dos loucos. A paixão é loucura na sua mais perigosa forma.
Amor… Difícil achar poeta que o tenha melhor definido que o apóstolo Paulo em Coríntios, 1-13:- Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver o amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine; ………… 4. O amor é paciente, o amor é bondoso. Não inveja, não se vangloria, não se orgulha. ……….. 7. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta…………. 13. Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor.
O maior deles é o amor. E, diferentemente da paixão, o amor verdadeiro não leva ninguém ao país dos loucos.
Rui Guilherme
Juiz de Direito e Escritor.