A CPI da COVID tem revelado para a maioria do povo brasileiro o que os advogados conhecem com rara profundidade e conhecimento: o ambiente hostil dos procedimentos de caráter inquisitivo no nosso sistema. As delegacias de polícia são os exemplos mais claros desse comportamento. A autoridade policial pergunta e responde ao mesmo tempo, interrompe a pessoa que está sendo ouvida, inoportuniza o advogado de se manifestar e dá ao procedimento a condução que bem entender. Tudo isso é feito na mais absoluta normalidade, salvo quando há um quebra-pau onde a autoridade policial é sempre a vencedora do embate. Por isso não é estratégico topar um embate dentro desse ambiente inquisitivo.
Na última terça-feira, a Dra. Nise Yamaguchi, foi convocada para depor na CPI, na condição de médica defensora do tratamento precoce contra o novo coronavírus. Foi um dia terrível para a ilustre convocada. Todos os parlamentares interessados em seu depoimento se prepararam bastante para formular as perguntas. Ela, contudo, não se preparou para enfrentar o ambiente hostil do procedimento inquisitivo da CPI. Houve em abundância a prática dos reprováveis mansplaining e manterrupting. Esses termos designam, respectivamente, quando um homem explica coisas óbvias a uma mulher, como se ela fosse incapaz intelectualmente de entender algo e quando um homem interrompe, propositadamente, a fala da mulher. Isso é recorrente segundo a professora de Harvard Business School Francesca Gino, em razão de preconceitos inconscientes que temos sobre gênero, vislumbrando as mulheres como seres subordinados e inferiores.
Ocorre que a ilustre Dra. Nise Yamaguchi, além de se mostrar desconhecedora do ambiente hostil da CPI, também não foi preparada para responder quesitos de ordem eminentemente técnica ligados à área médica, especialmente sobre a COVID-19. Como se sabe a médica é uma renomada oncologista, logo sua especialidade está longe de abrigar conhecimento sobre o coronavírus. O Senador Otto Alencar, membro da CPI, médico ortopedista – com a pose de um delegado de polícia da classe especial – percebendo a fragilidade de conhecimento técnico e nervosismo da médica convidada, fez um rosário de perguntas básicas que não foram respondidas, sequer minimamente pela Dra. Nise Yamaguchi. Foi um constrangimento em rede nacional que bem poderia ser evitado por ambos.
A CPI está deixando claro na área da Medicina o que já ficou claro na Lava jato na área do Direito. Há um enxame de abelhudos em determinadas áreas do conhecimento que se aproveitam de crises para tentar faturar, no claro propósito de inflar sua reputação. O ex-juiz Sérgio Moro foi um deles ao tentar emplacar, ao arrepio da Constituição, a prisão em segunda instância. Lá atrás, no famoso ‘Mensalão”, o ex-ministro Joaquim Barbosa também deu sua contribuição para derrotar o Direito como ciência posta, aplicando, erradamente, a “teoria do domínio do fato”. A Dra. Nise Yamaguchi é um misto de Sérgio Moro com Joaquim Barbosa, dando picadas dolorosas na ciência ao defender o tratamento precoce do novo coronavírus. Sua sorte foi o excesso de mansplaining e manterrupting praticado pelos parlamentares, capazes de amenizar a repercussão de seu conhecimento “abelhudo” sobre o coronavírus.