A designação ‘’esposa’’, historicamente, carrega um quê de subserviência, colocando a mulher casada em um estado de invisibilidade social velado e, paradoxalmente, enfático. ‘’A Esposa’’ traz consigo nada mais, nada menos, que a perspectiva de uma vida ofuscada pelo casamento e pelo tratamento desigual que as mulheres ainda recebem.
No filme, acompanhamos Joan (Glenn Close), uma mulher totalmente dedicada à família, que, naturalmente, acompanha o marido, Joe Castleman (Jonathan Pryce) um escritor conceituado, em sua viagem para recebimento do Prêmio Nobel de Literatura.
Entretanto, o clima de aparente êxtase começa a se desfazer quando um biógrafo, interessado na vida do casal, percebe, através de textos antigos, que o estilo de escrita de Joan é incrivelmente semelhante ao do marido.
Com uma atuação arrebatadora e vívida, tanto de Glenn Close quanto de Jonathan Pryce – que a propósito, têm uma dinâmica fascinante – o filme percorre as nuances de uma vida nas sombras, sem méritos e carregada de mágoa. A ideia da esposa como uma mera projeção do marido é perfeitamente colocada no enredo, e abre espaço para outros questionamentos tão importantes quanto.
Tangível, o filme consegue transmitir todo o sofrimento de existir sem ser considerada válida ou importante e retratar a vida de tantas mulheres que têm suas opiniões, sonhos e vontades desconsiderados pelos parceiros.
Com sua premissa simples, porém questionadora, ‘’A Esposa’’ é um filme totalmente válido.
Pieces of a Woman (Netflix)
Luto. Feminilidade. Vazio. Esse drama sensível toca todos os pontos mais dolorosos da maternidade, da perda e do isolamento, mostrando todo o processo que compõe o luto e sua superação.
Ele começa com vida. Martha (Vanessa Kirby) é uma mulher em trabalho de parto, ansiosa pela chegada de sua primeira filha. Porém, tudo desaba quando a menina morre. Desolada com a perda, ela se vê obrigada a enfrentar o próprio luto, o de seu marido, a opinião pública e da família, tendo que enfrentar muito mais do que somente a sua dor.
A sensação de isolamento constante ao longo da narrativa é um dos pontos de maior acerto no roteiro. Um vazio que ecoa. O realismo torna a história ainda mais palpável, sem romantizações ou retoques. Cada etapa do luto da protagonista é rigorosamente respeitada, mesmo com uma série de circunstâncias adversas acontecendo, desde a raiva, a negação, o sofrimento, até a recuperação.
A performance magistral de Vanessa Kirby entrega uma mulher com vida própria, cuja dor transforma. Através de metáforas e lacunas, a história de Martha é cuidadosamente tecida.
Um drama com cara de Oscar; ousado, forte e sem tabus, cujo enredo sofisticado comove tanto quanto ensina.