Para aqueles que ainda sustentam que a tentativa de golpe de estado perpetrada por Bolsonaro era apenas um simples devaneio de aloprados, o depoimento do ex-comandante do Exército, Freire Gomes, prestado à Polícia Federal no meio da semana, espanca de vez a hipótese do blefe. O conteúdo do depoimento revela que houve várias reuniões no Palácio do Planalto e nelas o plano de golpe era debatido à exaustão. Exército e Aeronáutica refutaram de forma veemente o golpe, mas a Marinha, por intermédio do General Garnier, se colocou à disposição do projeto. A revelação desses fatos impõe que o presidente e seus comparsas sejam severamente punidos para o bem da democracia.
O ex-presidente Bolsonaro sempre cogitou de um golpe de estado, bem antes de ser levado a sério pelas suas manifestações, sempre despropositadas, para um país que vive num ambiente democrático. Quem não recorda do ex-presidente fazendo apologia dos atos cruéis do General Brilhante Ustra, conhecido torturador da ditatura? Dizia, sem qualquer constrangimento, que o governo militar, durante o período de repressão, teria matado um número insuficiente de comunistas, defendendo que o número de vítimas fatais da repressão deveria ser maior. A crueldade de suas palavras soava apenas como loucura de um ex-militar que fazia tudo para aparecer diante de sua irrelevância como parlamentar.
Sucede que Bolsonaro foi avançando nas suas propostas até se tornar viável como candidato à presidência de República. Durante o exercício do mandato de presidente radicalizou ainda mais no intento de provocar uma ruptura institucional, acusando o poder judiciário, sobretudo o STF, de sabotar o seu mandato. Questionou, sem qualquer respaldo, as urnas eletrônicas afirmando que eram instrumentos de fraudes eleitorais. Suas palavras de ordem sempre reverberavam a possibilidade de um golpe de estado, contudo, não era levado muito a sério pela opinião pública que não via cenário para um golpe. Aí residia o engano. O suposto blefe não era blefe!
As revelações da última semana impõem uma reflexão profunda de todos os brasileiros que primam por um país que prestigia a democracia como modelo de regime político das nações que se pretendem civilizadas. As apurações dos fatos que visavam provocar uma ruptura institucional com um golpe de estado bem engendrado, liderados pelo ex-presidente Bolsonaro, que teve o despautério cívico de chamar os representantes das forças armadas para serem seus coexecutores, tem de terminar com uma punição exemplar para todos os envolvidos. Um país que se pretende democrático não pode tolerar condutas de lesa-pátria ou ser condescendente com golpistas que não respeitam a convivência democrática. Como diz o Hino da Independência: “Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”.