Sempre há coletivo de sentimentos e intenções anônimas. O silêncio eventual de parte da sociedade ou desta – na sua totalidade – não significa tácita concordância com teorias, discursos e práticas do Poder.
Por vezes, nas profundezas da mente de cada um, impera o medo de falar algo que parece que mais ninguém enxerga, de parecer que se está falando besteira, além do medo de represálias ou censura. Quando o instinto de sobrevivência fala mais alto e faz calar a boca, a vontade coletiva parece a todos acobertar, como se houvesse um acordo tácito, silencioso e anônimo, culturalmente vinculador. Nesse momento, o silêncio que impera mas não é de concordância: é de eloquente discordância, em latência maturação, à espera do momento em que o brado de libertação e de livre expressão possa extravasar o que estava sufocado.
Felizmente, de tempos em tempos parece brotar do fundo d`alma coletiva um vento ufano a verdade coletiva, associando nessa coletividade cada um que, até então, estava inconsciente da estreita vinculação do seu querer com o desejo alheio.
De repente, como tempestade de verão que chega com forte ventania e raios e tempestades, se instala um movimento sem dono, sem autor intelectual identificado, sem coloração partidária e projeto político.
Esse é o conjunto das anonimadas intenções. São vontades e desejos eminentemente anônimos, não na divulgação, eventualmente autoral e superficial. São anônimas intenções em camada mais substancial, importante e profunda, na estruturação do caráter da proposta, da intelectualização das vocações, da empírica constatação de algo que o consciente coletivo construiu, ao unir os desígnios individuais.
Quando se chega a esse ponto, o Poder sofre, sente-se deslegitimado, desprestigiado e dissociado dessa realidade que brota do silêncio individualizado e do barulho coletivizado.
Não é culpa dos poderosos de plantão, dos donos do Poder, do poder do Poder. Não é fato ligado ao margeamento dos limites regrados, dos padrões conhecidos e das subjetividades eventualmente rompantes e toleradas.
É apenas a constatação de que a tempestade veio para arrasar com certos elementos que estavam se cristalizando como dogmas e, assim, embotando a alegria nas almas das pessoas livres.
Essa é a tônica de muitos movimentos. A liberdade gritando por si. Um valor que se basta.
Isso surpreende os donos do poder, de ocasião. Quanto mais estes se arvorarem donos, menos serão, assim, aos olhos alheios. O Poder quer que as pessoas lutem por ele, que traiam, que façam acordos que não vão cumprir, que se endividem financeira e moralmente, que se rachem as amizades e a unidade de grupo, pois quanto mais fracionada a sociedade e o espírito de corpo social, mais o poder do Poder se autoprotege. O Poder, assim, se assusta quando se questiona apenas as omissões e ações dos mandatários, com unidade e coesão, sem que isso signifique bandeira partidária de luta pela sucessão do mandatário de plantão.
Isso tudo é tão fundamental e natural que, em qualquer circunstância, não tem nome de guerra, pedigree autoral ou a necessidade de qualquer palavra que lhe dê alguma definição.
É o que é e, assim, se basta.
Nós é que ficamos colorindo a verdade definitiva para tentar lhe colorações partidárias, dependentes de causas, conceitos, pré-conceitos, tortos conceitos e qualquer coisa que permita o seu aprisionamento.
Não somos donos de nada e é isso o que transborda dos ocasionais e periódicos brados dos livres humanos quando algo parece se lhe impor valor ou desvalor que não coincida com as suas anônimas vontades e desejos reais.
A desconstrução vai fazendo erodir pequenos valores. Vai minando a alegria e a essência mais vívida de cada um, vai ferindo a consciência orgânica da própria qualidade, vai nos embotando, apagando, minando as forças. Vamos nos tornando menos humanos, menos livres, menos vivos.
O ideal do controle do poder do Poder é esse. A confiança cega, o senso crítico dominado, a divisão social, a colocação dos livres nos extremos polarizados, de sorte a deixar no meio uma grande massa que, não querendo ser tachada de polarizada, perca a sua identidade e mergulhe no anonimato. Ainda há os que, mesmo não concordando com o óbvio e o que se vê, não se manifestam, apenas porque não poderiam concordar com “os outros”, contra “os nossos”, sem perceber que as discordâncias e incoerências que estão alimentando estão nas próprias consciências.
Anonimamente, individualmente, não raro não se conhece, não se identifica, não respira, não se move, não critica, não concorda e não discorda. Não vive e não vivifica o seu existir. Apenas está ali, existindo passivamente, como contribuinte pagando impostos, como consumidor consumindo o que mais lhe seduz, como quem aprende o que querem que aprenda e repetindo o que lhe fornecem para a padronização do seu pensar e agir - para bem cumprir o seu papel nessa grande estrutura.
Alguns dirão que o capitalismo faz isso. Os regimes centralizados e de economia estatizada, também fazem. Dirão outros, que a Democracia tem disso – mas os regimes autocráticos, também funcionam fazendo isso. Cada um ao seu modo, cada um ao seu tempo, cada um com os seus gestos, modelos centralizados evidentes ou não, obram em prol do poder pelo Poder e, assim sendo, nos colocam apenas como aderentes e agregados.
Quando a deslegitimação se evidencia, quando o grupo se conecta com um momento específico onde transborda o que já vazava de resistência em cada um, o poder resiste, buscando se autoproteger.
Nesse momento é que o poder mais se evidencia, porque alvitra se proteger e estar muito mais além e distanciado da sua raiz motivadora. Noutras palavras, o que se evidenciava como alguma dissociação mais se torna evidente, mais se torna óbvio, mais se torna afiado e felino e lesivo.
Movimentos assim estiveram presentes – com variações e guardadas as proporções e comparações – na origem da independência dos EUA diante do Reino Unido, nos processos de independência das colônias portuguesas, espanholas, holandesas, britânicas e francesas, dentre outros. Estiveram presentes, também, nos movimentos que ensejaram as revoluções cubana, russa e chinesa. Também a Revolução Francesa, com a instalação dos movimentos populares revolucionários, contra as estruturas do Antigo Regime – tão bem estudados e expostos por Alexis de Tocqueville – bem demonstram como estava desafinada a pomposa melodia que a Corte tocava ante os ouvidos mais sensíveis do povo faminto.
Assim, novamente com a evidente prudência nos procedimentos de comparação, temos visto questionamentos em vários movimentos contemporâneos, pelo mundo. Parece que a orbe passa por um novo circuito de mudanças e convulsões sociais, apenas exemplo contemporâneo dentre tantos que a História nos legou. Assim, como falava a canção, vamos caminhando e cantando, agindo para não viver sem razão e para termos como razão o nosso bem viver.