Cientistas da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) e dos Institutos Gladstone, ambos nos Estados Unidos, identificaram uma combinação de medicamentos usados no tratamento de câncer que pode ajudar a combater a forma mais comum de demência, o Alzheimer.
Os remédios letrozol e irinotecano demonstraram, em testes com camundongos, a capacidade de reverter danos cerebrais provocados pela doença e restaurar a memória.
O letrozol é indicado originalmente para o tratamento do câncer de mama, enquanto o irinotecano é destinado ao combate do câncer de cólon e de pulmão. Cada um deles atua sobre um tipo de célula cerebral diferente, e a combinação se mostrou especialmente eficaz.
O que é o Alzheimer?
- O Alzheimer é uma doença que afeta o funcionamento do cérebro de forma progressiva, prejudicando a memória e outras funções cognitivas.
- Ainda não se sabe exatamente o que causa a doença.
- É o tipo mais comum de demência em pessoas idosas e, segundo o Ministério da Saúde, responde por mais da metade dos casos registrados no Brasil.
- O sinal mais comum no início é a perda de memória recente. Com o avanço da doença, surgem outros sintomas mais intensos, como dificuldade para lembrar de fatos antigos, confusão com horários e lugares, irritabilidade, mudanças na fala e na forma de se comunicar.
Os pesquisadores analisaram como o Alzheimer afeta a expressão genética no cérebro humano e, em seguida, compararam essas alterações com os efeitos provocados por 1,3 mil medicamentos já aprovados pela Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos EUA. A ideia era encontrar compostos que revertessem os padrões genéticos alterados pela doença.
“Estamos entusiasmados que nossa abordagem computacional nos levou a uma potencial terapia combinada com base em medicamentos existentes”, afirmou Marina Sirota, coautora sênior do estudo, publicado na revista Cell nessa segunda-feira (21/7).
Dois medicamentos com potencial
A triagem genética revelou 86 medicamentos capazes de reverter os efeitos do Alzheimer em pelo menos um tipo de célula cerebral. Desses, apenas 10 já estavam aprovados para uso em humanos.
Entre eles, cinco se destacaram por atuar sobre diferentes tipos de células afetadas pela doença, como neurônios e células da glia, envolvidas no suporte e proteção dos neurônios.
A equipe então cruzou as informações com prontuários médicos anônimos de mais de 1,4 milhão de pessoas acima de 65 anos, cadastrados no sistema de saúde da Universidade da Califórnia. Os dados mostraram que alguns desses medicamentos estavam associados a um risco menor de desenvolver Alzheimer ao longo do tempo.
“Graças a todas essas fontes de dados existentes, passamos de 1,3 mil medicamentos para 86, para 10 e para apenas cinco. É como um ensaio clínico simulado”, explicou Yaqiao Li, principal autor do estudo, em comunicado.
Testes mostraram resultados animadores
Para testar a eficácia dos medicamentos, os cientistas utilizaram um modelo experimental de Alzheimer agressivo, com múltiplas mutações relacionadas à doença.
Com o avanço da idade, os camundongos desenvolviam sintomas típicos, como perda de memória e degeneração cerebral. Ao receberem a combinação dos dois fármacos, os animais apresentaram uma melhora evidente no quadro.
A terapia combinada reduziu a formação de proteínas tóxicas, evitou o encolhimento do cérebro e, o mais importante, restaurou a memória dos animais. “É muito emocionante ver a validação dos dados computacionais em um modelo amplamente utilizado”, disse o pesquisador Yadong Huang, coautor do artigo.
A equipe espera avançar para testes clínicos em breve. Se os resultados forem replicados em humanos, os medicamentos podem representar um avanço importante no tratamento da doença.
“Se fontes de dados completamente independentes nos guiarem para os mesmos caminhos e os mesmos medicamentos, e então resolvermos o Alzheimer em um modelo genético, talvez estejamos no caminho certo”, concluiu Sirota.
Fonte: Metrópoles