Quando Deus se cala, o poder fala — e quase sempre mente
“Da negação do sagrado à fabricação de ídolos políticos e morais”
Quando Deus se cala — ou é silenciado — o vazio não permanece vazio. Ele é ocupado. E quase nunca pelo melhor da razão humana. A política contemporânea, em vez de reconhecer seus limites, passou a reivindicar atributos divinos: promete salvação, exige fé, distribui culpas e absolvições conforme a conveniência do poder. O resultado é um tempo em que se matou Deus no discurso, mas se ressuscitou o sagrado na forma mais perigosa possível: o ídolo secular travestido de virtude pública.
A filosofia percebeu esse movimento antes que ele ganhasse palanque. Arthur Schopenhauer talvez seja o mais incômodo dos guias para compreender o nosso tempo. Para ele, o mundo não é governado por uma razão justa nem por um desígnio benevolente, mas por uma Vontade cega, irracional e insaciável. A política, nesse cenário, não redime: administra conflitos entre desejos que nunca se satisfazem.
“A vida oscila, como um pêndulo, entre a dor e o tédio.”
Em Schopenhauer, Deus não precisa ser negado com alarde. Ele se torna desnecessário para explicar o sofrimento estrutural da existência. Aqui nasce o niilismo moderno: se a dor é regra, toda promessa de felicidade coletiva — religiosa ou ideológica — soa como liturgia vazia. É o terreno fértil das utopias que acabam pedindo sacrifícios humanos em nome do bem.
A ruptura explícita vem com Friedrich Nietzsche. Ao proclamar que Deus está morto, Nietzsche não comemora; ele alerta. O Ocidente destruiu o fundamento que limitava o poder e, no lugar, improvisou valores. Moral virou narrativa. Justiça virou instrumento.
“Quem combate monstros deve cuidar para não se tornar um.”
A política contemporânea ignorou o aviso. Retirou Deus do horizonte simbólico, mas exigiu do Estado aquilo que antes se atribuía ao divino: redenção, sentido último, pureza moral. O sagrado não desapareceu — apenas mudou de endereço. Hoje, habita gabinetes, tribunais morais improvisados e discursos que não admitem contestação.
Muito antes desse colapso, Saint Augustine já havia diagnosticado o problema com clareza desconcertante. Quando o homem tenta construir a cidade perfeita sem Deus, o que nasce não é justiça, mas soberba organizada. Nenhuma estrutura política é capaz de salvar o ser humano de si mesmo. O poder, sem transcendência, não se contém — expande-se.
A modernidade fingiu não ouvir Agostinho. Preferiu acreditar que bastaria trocar a fé por técnica, o altar pelo Estado, a consciência pela norma. O resultado é uma política hipertrofiada, que tudo quer regular, julgar e redimir — e que, paradoxalmente, produz mais ressentimento e vazio.
É nesse ponto que Allan Kardec introduz um deslocamento incômodo tanto para o niilismo quanto para o moralismo político: não existe salvação terceirizada. Nem o céu, nem o Estado, nem a ideologia substituem a responsabilidade individual.
“Fora da caridade não há salvação.”
Essa frase, tantas vezes domesticada, é profundamente subversiva. Ela desmonta o maior ídolo do nosso tempo: a transferência de culpa. Onde tudo é culpa do sistema, ninguém responde por nada. Kardec recoloca o peso onde dói — no indivíduo, na consciência, na ética cotidiana.
É aqui que o texto se transforma em diálogo vivo. Penso no meu amigo-irmão Vicente Cruz — advogado de rigor técnico, amante da literatura e da poesia, dono de uma escrita em que estética e pensamento caminham juntos. Homem temente a Deus, presença fiel nas novenas de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Macapá — mas marcado por um desassossego elegante, quase pessoano, que recusa a fé confortável e a certeza fácil.
Vicente, permito-me a provocação fraterna: tua fé não é das que pacificam — é das que inquietam. E isso é virtude. Porque talvez o maior risco do cristão contemporâneo não seja duvidar de Deus, mas substituí-Lo discretamente. Invocá-Lo em palavras enquanto se tolera, com estranha serenidade, que o poder ocupe Seu lugar.
Fernando Pessoa escreveu que “viver é ser outro”. Crer, talvez, também seja. Fé sem desassossego vira ideologia; fé inquieta permanece fé. Entre Schopenhauer e Agostinho, entre Nietzsche e Kardec, sobra ao homem honesto — crente ou não — a tarefa mais árdua: vigiar seus próprios ídolos.
Schopenhauer fecha o círculo com ironia cortante:
“O homem pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quer.”
Talvez o drama do nosso tempo não seja amar pouco a Deus, mas amar demais aquilo que nunca deveria ocupar o Seu lugar: o poder, a ideologia, a certeza absoluta.
Se isso inquieta, cumpre sua função.
A inquietação, afinal, sempre foi o princípio da lucidez.

