Em minha recente e jovem trajetória politica no Estado do Amapá, tenho refletido sobre o “jogo do poder” e a forma como a sociedade interage politicamente com os seus representantes. Quando Vereador de Oiapoque, observava atentamente os discursos públicos de autoridades de Estado ao anunciarem a destinação de emendas parlamentares ou ações de governo, e via o entusiasmo de muitos da plateia, ovacionando, como se tivesse recebido o maior favor de suas vidas. Uma Graça do “Ser Politico” que de forma benevolente decidiu prestar auxilio ao pobre povo – há sacarmos aqui. Porém de tudo que ouvi e vi, pouca coisa me chocou tanto, como a ideia do “rouba, mas faz”, da aceitação pacifica da corrupção, da desonestidade, da mentira. Por isso, decidi compartilhar com você o que penso sobre esse assunto.
Primeiramente, é importante dizer que essa frase não nasce do nada. Ela emerge de uma história longa, marcada por desigualdade, personalismo, distanciamento entre Estado e sociedade e, sobretudo, por uma profunda desilusão com a ideia de ética pública. Quando alguém diz “rouba, mas faz”, não está exatamente elogiando o roubo está confessando que já não acredita na possibilidade de fazer sem roubar.
Essa é a verdadeira tragédia.
O “rouba, mas faz” carrega uma lógica utilitarista rudimentar, pois se o resultado aparece, os meios tornam-se secundários. A obra pronta, a estrada asfaltada, o serviço entregue passam a funcionar como absolvição moral. O desvio vira detalhe. A corrupção, um preço. A ética, um luxo.
Aristóteles, ao refletir sobre a política, afirmava que o fim da vida em comunidade não era apenas a sobrevivência, mas a “vida boa”, a vida virtuosa. Para ele, não havia separação entre política e ética. Uma cidade que prospera materialmente, mas corrompe seus princípios, não é uma cidade justa, é apenas eficiente. E eficiência, sem virtude, nunca foi sinônimo de justiça.
No entanto, parece que nos acostumamos a pensar o Estado como uma espécie de empresa informal, onde o importante é “entregar resultados”, ainda que à custa de desvios, favorecimentos e ilegalidades. Como se a corrupção fosse uma falha menor diante da suposta competência administrativa. Como se o roubo fosse um vício tolerável quando acompanhado de obras visíveis.
Max Weber, ao distinguir a ética da convicção da ética da responsabilidade, alertava para os perigos dessa lógica. A ética da responsabilidade exige considerar as consequências dos atos, mas não autoriza a destruição dos princípios em nome de resultados imediatos. Quando isso ocorre, a política deixa de ser vocação e se transforma em mero exercício de poder. O “rouba, mas faz” é exatamente isso, a vitória da consequência aparente sobre o princípio abandonado.
O problema é que essa lógica não se limita aos governantes. Ela se espalha pelo tecido social. Quando toleramos o roubo em nome da eficiência, ensinamos que a moral é negociável. Que a honestidade é condicional. Que o certo só importa enquanto não atrapalha.
Hannah Arendt, ao analisar o julgamento de Adolf Eichmann, cunhou a expressão “banalidade do mal” para explicar como grandes atrocidades podem ser cometidas não por monstros, mas por pessoas comuns, incapazes de refletir criticamente sobre seus próprios atos. O mal, dizia ela, torna-se banal quando deixa de ser questionado. Quando passa a ser executado como rotina. Quando se dissolve na normalidade.
O “rouba, mas faz” é a banalidade do mal em versão abrasileirada. Ele não grita, não ameaça, não escandaliza. Ele apenas constata. Ele transforma a corrupção em dado do mundo, em elemento estrutural, em algo com o qual aprendemos a conviver.
E quando isso acontece, a indignação perde força.
Norberto Bobbio lembrava que a democracia não se sustenta apenas em regras formais, mas em valores compartilhados. Quando a sociedade deixa de acreditar na honestidade como valor público, a democracia se esvazia por dentro. Mantém-se o ritual, mas perde-se o espírito. Vota-se, mas já não se espera virtude. Fiscaliza-se pouco, porque se acredita menos ainda.
O “rouba, mas faz” é, nesse sentido, uma forma de desistência política. Ele expressa a renúncia à exigência ética. É a frase de quem já não espera decência, apenas alguma funcionalidade mínima. É o discurso de quem trocou o ideal de justiça pelo pragmatismo resignado.
Sérgio Buarque de Holanda, ao falar do “homem cordial”, já apontava como o personalismo corrói a impessoalidade necessária à vida pública. No Brasil, as relações frequentemente se sobrepõem às instituições. O governante não é visto como gestor da coisa pública, mas como alguém que “ajuda”, que “resolve”, que “faz”. Se faz, pouco importa como. O público se mistura com o privado. A regra se dobra diante da conveniência.
Raymundo Faoro foi ainda mais direto ao denunciar o patrimonialismo, que é a confusão histórica entre o que é do Estado e o que é do governante. Nesse modelo, o poder não administra; ele se apropria. E a sociedade, acostumada a essa lógica, passa a negociar com ela, em vez de combatê-la. Neste caso, a ideia do “rouba, mas faz” é filho legítimo do patrimonialismo. Ele aceita o roubo como parte do jogo, desde que algo retorne sob a forma de benefício visível. É quase um pacto tácito, “roube, mas nos entregue algo em troca”.
O problema é que esse pacto é moralmente devastador.
Immanuel Kant afirmava que uma ação só pode ser considerada moral se puder ser universalizada. Pergunto-me, então: que sociedade resultaria se todos adotassem o “rouba, mas faz” como princípio? Evidentemente, uma sociedade onde ninguém confia em ninguém. Onde todos esperam o desvio. Onde a regra perde sentido. Onde o custo da corrupção é pago, sobretudo, pelos mais vulneráveis.
Porque a corrupção nunca é neutra. Ela não afeta todos igualmente. Ela desvia recursos da saúde, da educação, da segurança. Ela aprofunda desigualdades. Ela transforma direitos em favores. E, ironicamente, aqueles que mais repetem o “rouba, mas faz” são, quase sempre, os que mais sofrem suas consequências.
Ainda assim, continuamos repetindo a frase. Talvez porque ela funcione como mecanismo de defesa. Ao aceitarmos a corrupção, poupamo-nos da frustração de esperar algo melhor. Ao normalizarmos o errado, anestesiamos a indignação. Ao reduzirmos a ética a um detalhe, protegemo-nos do cansaço de lutar.
Uma sociedade que aceita a corrupção como parte do funcionamento normal do Estado perde, pouco a pouco, sua capacidade de se pensar como comunidade moral. O espaço público deixa de ser lugar de construção coletiva e se transforma em arena de interesses. A política vira negócio. O cidadão vira cliente. O voto vira moeda.
E então chegamos ao ponto mais delicado, quando o “rouba, mas faz” deixa de ser apenas uma frase e se transforma em critério de escolha. Vota-se não apesar da corrupção, mas apesar da esperança. Escolhe-se o que parece funcionar, mesmo sabendo que está errado. A ética torna-se obstáculo. A honestidade, ingenuidade.
Nesse estágio, a corrupção já venceu antes mesmo de ser denunciada.
Não se trata de ingenuidade moral. Trata-se de lucidez ética. Nenhuma sociedade se torna justa aceitando o injusto como regra. Nenhuma democracia se fortalece tolerando a corrupção como método. Nenhum futuro digno se constrói sobre a normalização do roubo.
Talvez o maior desafio do Amapá e do Brasil não seja apenas combater corruptos, mas desmontar a lógica que os sustenta. Questionar a frase que os absolve. Recusar o cinismo que nos protege do desconforto moral.
Enquanto aceitarmos que alguém “roube, mas faça”, estaremos confessando, ainda que em silêncio, que já não acreditamos na possibilidade de fazer sem roubar. E isso diz menos sobre os governantes do que sobre nós.
Porque, no fim, o “rouba, mas faz” não é apenas uma frase dita sobre o outro.
É um espelho.
E talvez esteja na hora de quebrá-lo.
Reflita.

