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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Rogerio Reis Devisate > ESTAMOS FAZENDO POLÍTICA OU ENGAJAMENTO?
Rogerio Reis Devisate

ESTAMOS FAZENDO POLÍTICA OU ENGAJAMENTO?

Rogerio Reis Devisate
Ultima atualização: 24 de maio de 2026 às 00:58
Por Rogerio Reis Devisate 5 horas atrás
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Rogerio Reis Devisate Advogado. Defensor Público/RJ junto ao STF, STJ e TJ/RJ. Palestrante. Escritor. | Foto:Arquivo Pessoal.
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Nos anos 1970, o nosso PIB era superior ao da China. Se comparado ao da Coréia do Sul, o nosso era cinco vezes maior, já que eles estavam destruídos pela guerra e tinham grandes índi-ces de pobreza. Eles nos superaram, como sabido. Por qual motivo?
A Coréia do Sul investiu muito em educação. Manteve disciplina com gastos públicos e cuidou da industrialização, alcançando grande avanço em tecnologia. A China, embora governa-da pelo partido comunista, se conscientizou de que não poderia prosperar na sua fantasia ideoló-gica e abriu a sua economia, praticando o capitalismo, investindo em infraestrutura e em indus-trialização. Naquela época, o Brasil viveu o seu milagre econômico e o clima favorável das commodities em anos seguintes, mas não investiu em educação e industrialização, não zelando pela área tecnológica e praticando, sempre, juros elevados, em parte para atrair investimentos externos. Por mais que, desde então, tenhamos melhores indicadores gerais, aqueles países tive-ram resultados muito melhores e investiram muito mais em elementos estruturais que pudessem alavancar o seu crescimento nos anos seguintes. Prepararam-se, fizeram o dever de casa, pensa-ram no futuro. Ficamos para trás.
Esses elementos comparativos ajudam a perceber que os governantes devem ser bons em administrar. Isso se traduz em grande diferença entre o palanque eleitoral e a gestão pública, afi-nal elegemos os prefeitos, os governadores e o presidente para administrar, gerir, governar, rea-lizar. O eleitor entende isso? Está preparado para isso?
O quanto as redes sociais influenciam o voto? Em 2019, pesquisa do Instituto DataSenado indicava que 45% dos eleitores decidiam o voto com base em informações vistas nas redes soci-ais. Isso significa influência no voto de quase metade da população! Em outras palavras, signifi-ca a crença em mensagens pouco profundas, ditas para impactar e seduzir e não para explicar, esclarecer, educar e formar opinião segura e com senso crítico.
Atualmente, estamos com juros elevadíssimos, frequentes notícias de grandes empresas que migram para o Paraguai, grande número de pedidos de falência/recuperação judicial, cres-cente dívida externa que bate recorde e se aproxima de 400 bilhões, enorme endividamento de produtores rurais, violência urbana nas alturas – inclusive, com notícia de uso de drones que po-dem carregar 80kg, o equivalente a 20 fuzis – e fortes escândalos de corrupção. Tudo isso con-tamina o bom debate político. Em meio a tudo isso, estamos fazendo política ou engajamento? Agimos com consciência política e pensamento crítico ou nos deixamos levar por curtidas em postagens? Estamos presos a informações superficiais, boas para curtidas e compartilhamentos ou para pensar, mesmo, no destino do país?
Um bom indicador da falta de diálogo entre índices estatísticos e o mundo dos fatos é a realidade da classe média, que parece divorciada dos dados oficiais, quando o governo considera classe média a renda domiciliar mensal – com a soma dos ganhos de todos os membros da famí-lia – a partir de R$ 2.525. Como o salário mínimo está em R$ 1.621,00, as famílias cujos mem-bros tenham renda (somada) de R$ 2.525 já seriam classe média. Ora, isso não corresponde ao que significaria ser da classe média, quando o custo da cesta básica subiu em 27 capitais e es-tá em R$ 906,14, em São Paulo (CNNMoney, 11.5.2026). Portanto, já seria da classe média a família que ganhasse aquele valor e gastasse cerca de um terço só para comprar alimentos? E os gastos com moradia, roupa e o consumo de água e energia elétrica?
Talvez isso explique o motivo pelo qual temos o recorde de endividamento das famí-lias: cerca de 80%, pois talvez muitos estejam querendo viver como classe média sem a ela pertencer, lembrando que temos a sensação de que os pertencentes àquela classe teriam acesso à educação particular, plano de saúde, viagens e financiamentos imobiliários. Faça as contas! Não dá.
Usamos o exemplo para nos ajudar a compreender que não vivemos e não comemos defi-nições ou conceitos. O que se fala não é o que se faz. Cada vez mais caminhamos para o desenho padronizado da humanidade, que vai prosperando e levando-nos a modelos engessados, que faci-litem a gestão e o controle, tanto do ponto de vista político quanto econômico. Como dissemos há semanas, estamos criando a conteinerização da sociedade, diminuindo as nossas variantes humanas e de crença e ideologia, para nos encaixotar em esquerda e direita, porque assim fica mais fácil de nos categorizar e controlar. Funciona mais ou menos do mesmo jeito que ocorre com a produção e venda de certos produtos, pois é mais operar com 50 tipos diferentes de ham-búrguer ou trabalhar apenas com os 5 que mais agradam à maioria? Isso ocorre em quase tudo. Em termos de sociedade, os que preferem viver com liberdade e fora da esquerda ou direita, aca-bam encontrando barreiras e sendo tratados à margem do sistema dominante. Isso tudo contribui para a padronização da sociedade, que caminha para a sua conteinerização cada vez maior. Quem não é a favor de algo, é logo taxado de oposição. Será que temos que concordar com tudo, o tem-po todo?
Paralelamente, parece que nos empobrecemos em certos aspectos e a interpretação de tex-to é um dos exemplos. Estamos sendo reduzidos a leitores das manchetes, de pequenas frases, de palavras de ordem, como se isso fosse suficiente. Onde estão as nuances, as sutilezas, os funda-mentos, os fatos, as provas, a poesia e as qualificadoras a fazer a diferença? Não se pode explicar as coisas pelo título de um assunto. Dizer “eu te amo” não vale mais do que demonstrar o amor nos gestos, nas palavras, no respeito, na empatia, no apoio, na compreensão e na gentileza.
Parecemos não perceber o contexto. Para onde vamos? Por qual motivo iremos? Há alter-nativa? Dias atrás li que estamos muito aquém dos equipamentos militares de outras nações. Por qual motivo estamos assim? Quem ou por que não investimos na qualificação dos navios, aviões e armas das forças de defesa? Agora, após os EUA levarem o Maduro, Cuba estar erodindo, a guerra no Oriente Médio e da Ucrânia e Rússia seguirem e termos a Europa se rearmando, parece que percebemos como nos iludimos com um discurso de desarmamento e de paz, despertando para a nossa vulnerabilidade ante as nações. Estamos fracos. O desejo de paz é maravilhoso, mas não podemos ter paz se os adversários – armados e com fortes exércitos – não nos respeitam, mi-litarmente, como adversários. A ideia se aplica a todos os setores.
Precisamos de gestores que cuidem do que é nosso, façam o país prosperar na realidade e não nas estatísticas, gere empregos onde as pessoas ganhem bem para viver bem. Adoraria ver o dia em que a classe mais baixa ganhasse o bastante para comprar casa própria e se alimentar bem, pagar plano de saúde e viajar. Precisamos buscar igualdade levando as pessoas para cima, para segurança, conforto, saúde e educação de alta qualidade. Nivelar por cima! Subir a régua do padrão, das exigências. E obrar para que as coisas se realizem. Utopia? Não creio. Acredito que utopia é viver achando que mudar o nome das coisas surta efeito. É urgente que olhemos adiante, para que não fiquemos com contas a pagar ou deprimidos com o futuro, sem esperança, topando qualquer coisa e acreditando em promessas que não serão cumpridas. Promessas não são com-promissos. Precisamos de compromisso e do seu cumprimento. Precisamos de maturidade no eleitorado, de reflexão, de mão na consciência, de pensar nos seus netos, filhos e no amanhã próspero e duradouro para todos. Merecemos!

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