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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > João de Deus Lobato > A energia mais barata é aquela que você não desperdiça — Parte 3
João de Deus Lobato

A energia mais barata é aquela que você não desperdiça — Parte 3

João de Deus Lobato
Ultima atualização: 22 de agosto de 2026 às 21:49
Por João de Deus Lobato 5 horas atrás
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Depois de economizar e contratar melhor, é hora de produzir, armazenar e gerenciar a própria energia
Nas duas primeiras partes desta série, percorremos dois caminhos para reduzir a conta de energia. Primeiro, entramos nas residências e mostramos como equipamentos, instalações e hábitos podem transformar pequenos desperdícios em dinheiro perdido todos os meses. Depois, fomos para as empresas e vimos que a economia também pode estar na demanda contratada, no horário de consumo, na modalidade tarifária, no fator de potência e na forma de comprar energia.
Mas existe um terceiro caminho. Hoje, uma empresa pode não apenas consumir energia. Pode produzi-la, armazená-la e gerenciar de forma inteligente quando e de onde utilizar a eletricidade. energia solar, mercado livre, sistemas de armazenamento em baterias, zero grid e automação estão transformando uma relação que durante décadas foi praticamente passiva: a energia chegava pela rede, o consumidor utilizava e, no fim do mês, pagava a conta. Agora ele pode participar muito mais dessa decisão.
Antes de investir, elimine o desperdício
Há uma regra que considero fundamental: não faz sentido investir para produzir a energia que está sendo desperdiçada.
Antes de instalar painéis solares ou baterias, uma empresa deve conhecer seu perfil de consumo. ar-condicionado funcionando em ambiente vazio, câmaras frigoríficas com vedação deficiente, motores superdimensionados, filtros sujos, compressores operando fora das condições adequadas, iluminação ligada sem necessidade e equipamentos funcionando simultaneamente quando poderiam ser escalonados são exemplos de desperdícios que devem ser corrigidos primeiro.
Imagine uma empresa que consuma 100 mil kWh por mês e consiga, por meio de medidas de eficiência, reduzir 10% desse consumo. São 10 mil kWh que deixam de ser consumidos todos os meses. Além da economia imediata, quando chegar a hora de dimensionar um sistema solar ou uma bateria, o investimento será calculado sobre uma necessidade energética menor.
A sequência correta deveria ser:
medir → identificar → corrigir → dimensionar → investir.
Solar: produzir onde a energia é consumida
Depois de eliminar desperdícios, a geração solar pode ser uma alternativa. Uma empresa com telhado, estacionamento ou área disponível pode instalar painéis fotovoltaicos e produzir parte da energia que consome.
No modelo de micro e minigeração distribuída, a regulamentação permite, observadas as regras aplicáveis, que excedentes sejam injetados na rede para posterior compensação.
Para estabelecimentos comerciais existe uma coincidência interessante: grande parte da geração solar ocorre justamente durante o período em que lojas, escritórios, clínicas, supermercados e indústrias estão funcionando.
Mas há uma questão importante. Quando chega o início da noite, a geração solar desaparece justamente quando determinadas empresas ainda podem ter cargas importantes em funcionamento. Na Parte 2 mostramos, por exemplo, que no Amapá o horário de ponta dos consumidores do Grupo A ocorre entre 19h e 22h nos dias úteis.
Produzir energia durante o dia, portanto, é apenas uma das possibilidades. É preciso pensar também quando a empresa precisa dessa energia.
Mercado livre e solar podem caminhar juntos
Na Parte 2 também mostramos que os consumidores do Grupo A podem optar pelo Mercado Livre de Energia, escolhendo de quem compram sua energia e negociando condições contratuais.
Mas mercado livre e geração própria não precisam ser vistos necessariamente como concorrentes. Uma empresa pode comprar energia no Mercado Livre e, ao mesmo tempo, produzir parte da energia que utiliza.
Quando a geração solar é projetada para autoconsumo sem exportação do excedente para a rede, uma solução utilizada é o zero grid. Um sistema de controle acompanha continuamente o consumo da empresa e ajusta a geração para impedir a injeção indesejada de excedentes na rede.
Imagine uma indústria consumindo 500 kW e seus painéis produzindo, naquele momento, 300 kW. Os 300 kW solares são utilizados internamente e apenas os 200 kW restantes vêm da rede. Se posteriormente o consumo cair para 200 kW enquanto os painéis puderem produzir 300 kW, o sistema zero grid limita a potência efetivamente entregue para impedir a exportação daquele excedente.
Quem está no Mercado Livre e pretende instalar solar também precisa analisar seu contrato de energia. A geração própria modifica a quantidade de energia que será comprada. Volume contratado, flexibilidade e condições de ajuste precisam acompanhar a nova realidade de consumo.
Não basta administrar separadamente contrato, geração e consumo. É preciso administrar energia como um único sistema.
BESS: guardar energia para usar depois
É justamente quando começamos a falar em horário que aparece outra tecnologia: o BESS, sigla em inglês para Battery Energy Storage System, ou Sistema de Armazenamento de Energia em Baterias.
A ideia é simples: a eletricidade não precisa ser utilizada exatamente no momento em que está disponível. A bateria permite armazená-la para uso posterior.
Em uma empresa com geração solar, parte da energia disponível durante o dia pode carregar baterias. Quando chega a noite e a geração solar desaparece, a energia armazenada pode ser utilizada. Surge então uma combinação interessante:
solar + zero grid + BESS.
Em determinadas configurações, em vez de simplesmente limitar a geração solar que ultrapassaria o consumo instantâneo, parte dessa energia pode carregar as baterias para ser utilizada posteriormente.
Mas o BESS não serve apenas para trabalhar com painéis solares. Dependendo do perfil tarifário e das regras aplicáveis, a bateria também pode participar da gestão dos horários de consumo.
Bateria também pode reduzir picos de demanda
Outro uso importante do BESS é o chamado peak shaving, ou corte de pico.
Imagine uma empresa cuja demanda normalmente permaneça em torno de 400 kW, mas que, em determinados momentos, vários equipamentos entrem simultaneamente em funcionamento e façam a potência requerida da rede chegar a 500 kW. A bateria pode fornecer parte da potência justamente nesses momentos, reduzindo o pico exigido da rede e ajudando a empresa a gerenciar sua demanda.
Mas bateria não é sinônimo automático de economia. Preço do sistema, potência em kW, capacidade em kWh, quantidade de ciclos, eficiência, vida útil e perfil de operação precisam entrar no estudo. O BESS precisa fechar a conta.
O tema ganhou especial atualidade neste ano. Em junho de 2026, a ANEEL estabeleceu nova regulamentação para sistemas de armazenamento, incluindo sistemas autônomos e armazenamento associado a centrais geradoras.
Automação: descobrir o desperdício antes da conta chegar
Nenhum gerente ficará olhando um medidor durante 24 horas para decidir quando desligar um equipamento, reduzir determinada carga ou utilizar uma bateria. É aí que entra a automação e a gestão contínua da energia.
Hoje existem sistemas capazes de acompanhar consumo, demanda, geração solar, estado de carga das baterias e funcionamento dos principais equipamentos praticamente em tempo real. Também podem criar alarmes: se a demanda estiver se aproximando de determinado limite, o sistema pode avisar ou atuar; se uma máquina começar a consumir muito acima do padrão, isso pode ser identificado; se uma câmara frigorífica aumentar inesperadamente seu consumo, pode haver necessidade de manutenção.
A diferença é importante: no modelo tradicional, muitas empresas só descobrem que algo aconteceu quando a conta chega no mês seguinte. Com medição e automação, podem descobrir quando está acontecendo.
Situação identificada Solução a avaliar
Consumo desnecessário Eficiência energética
Grande consumo durante o dia Energia solar
Compra de energia no Grupo A Mercado Livre
Solar para autoconsumo sem exportação Zero grid
Energia solar disponível para uso posterior BESS
Picos elevados de demanda BESS / gestão de cargas
Equipamentos operando fora do padrão Automação e monitoramento
Muitas vezes a melhor resposta não será uma única solução, mas uma combinação delas. Uma empresa pode primeiro reduzir desperdícios, adequar seus contratos, comprar energia no Mercado Livre, produzir parte do consumo com solar, armazenar energia em baterias e utilizar automação para coordenar o sistema.
Mas a ordem importa: primeiro entender. Depois investir.
A melhor tecnologia começa pela medição
Esse talvez seja o principal ensinamento desta série. Antes de perguntar “qual equipamento devo comprar?”, talvez a pergunta correta seja: “Onde, quando e como estou utilizando minha energia?”
Quem não mede dificilmente consegue responder. E quem não conhece seu perfil de consumo corre o risco de comprar uma solução maior do que precisa, investir numa tecnologia inadequada ou simplesmente trocar um custo por outro.
Tecnologia sem diagnóstico não é eficiência.
Da conta de luz para a gestão de energia
Durante três artigos, começamos com atitudes simples dentro de uma residência e chegamos a sistemas capazes de produzir, comprar, armazenar e gerenciar eletricidade. Mas a lógica permaneceu a mesma: energia desperdiçada é dinheiro desperdiçado.
Na residência, isso pode significar desligar um aparelho que não precisa estar funcionando ou escolher um equipamento mais eficiente. Na empresa, pode significar corrigir a demanda, escolher melhor a modalidade tarifária, retirar cargas do horário de ponta ou negociar melhor a compra da energia. E, em operações mais sofisticadas, pode significar integrar eficiência energética, mercado livre, geração solar, zero grid, baterias e automação.
A conta de energia não precisa ser apenas um boleto que chega todos os meses. Ela pode ser o ponto de partida para uma estratégia permanente de redução de custos.
E é por isso que encerro esta série repetindo a frase que lhe deu nome:
A energia mais barata é aquela que você não desperdiça.

João de Deus Lobato 22 de agosto de 2026 22 de agosto de 2026
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