Corria o ano de 1971 e o entrevistado dizia que a floresta deveria reter em torno de 25% do gás carbônico da atmosfera e o entrevistador teria trocado CO2 por O2.
Independentemente dessa ideia, os pulmões integram o sistema respiratório e são os responsáveis pelas trocas gasosas, fornecendo ao corpo o oxigênio e eliminando o gás carbônico.
Ao reter o gás carbônico e liberar o oxigênio a Floresta Amazônica opera de modo assemelhado aos pulmões, mas isso não significa que seja a fornecedora de oxigênio ou de ar respirável para o Planeta – como a ideia de pulmão do mundo parece sugerir aos incautos.
No máximo, ao consumir quase todo o oxigênio que produz seria, assim, o seu próprio pulmão.
Como exemplo de que tamanho não é documento, a maior produção de oxigênio no mundo não está a cargo das imensas árvores e sim das microscópicas algas, conhecidas como fitoplâncton, que nos provisionam com cerca de 55% de todo o oxigênio. Esse volume se soma à imensurável quantidade de oxigênio já acumulado na atmosfera.
Essas algas se encontram nos oceanos e mares, rios e lagos. Ocorre que muitos desses estão extremamente poluídos (e não estão localizados no Brasil), como o Mar Mediterrâneo, que recebe anualmente cerca de 650 bilhões de toleladas de esgoto, além de outros poluentes. O Oceano Índico é o que está em pior condição e a faixa mais poluída do Oceano Atlântico situa-se no Hemisfério Norte, na foz do Rio Mississipi. O rio Citarum, na Indonésia, é tido como o mais poluído, enquanto o lago Karachay, na Rússia, se considera o mais radioativo. Falamos nisso por conta da lupa que se coloca sobre a Amazônia e sobre as queixas de outros sobre a conduta do Brasil e dos brasileiros – como que para disfarçar o foco da realidade do Planeta e a responsabilidade de tantos pelo que já se o estragou.
De toda forma, a questão de pulmão do mundo não é concurso para se saber onde se produz mais oxigênio, sendo certo que há equilíbrio nas leis da natureza, onde tudo está absolutamente interligado e é interdependente, dando lugar ao que Jung definiu como Sincronicidade.
Aliás, é bom lembrar que respirar 100% de oxigênio pode ser tóxico e que o ar tido por normal e respirável é composto por 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio e cerca de 1% de gases diversos.
O valor da Floresta Amazônica está além do conceito-base de pulmão do mundo, pois é fundamental para o equilíbrio climático e o regime de chuvas, inclusive pelo fenômeno conhecido por Rios Voadores, que surge da massa úmida do ar proveniente do Atlântico que se condensa ao passar sobre a floresta, ocasionando as torrenciais chuvas locais, que se autoalimenta pela evapotranspiração e forma novas massas úmidas, que se deslocam em direção às regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.
Assim, da próxima vez em que sentir as gotas de chuva nessas regiões é possível que essa água tenha percorrido longo trajeto desde a densa floresta, como forte indicativo de que o clima, a geografia, a vida nas cidades, o regime de chuvas, a economia e o nosso cotidiano estão intimamente ligados à grande Amazônia.
Como visto, o distorcido discurso de pulmão do mundo encontra eco em versões mais modernas e também tortas, decerto alimentadas por boas intenções na proteção ambiental. Todavia, é crível que haja posicionamentos com aparência de proteção quando em verdade focam nas riquezas conhecidas – ou por se conhecer – naquela imensidão. Só para lembrar, a Amazônia Legal engloba 9 estados e corresponde a 60% do nosso Brasil, onde moram cerca de 23 milhões de brasileiros, quantidade de pessoas equivalente às populações da Austrália (25 milhões) e Taiwan (24 milhões).
A romântica ideia de florestas isoladas foi manipulada em filmes, fotografias e programas de TV. O imaginário do mundo foi povoado por lendas e crenças sobre florestas, de Robinson Crusoé à Tarzan. Essas estórias e outras crenças e lendas não fazem jus à história da Região Amazônica e da sua gente, não estando de acordo com a realidade, com o cotidiano das vidas nas cidades e vilas e com os imensos rios que, na época das cheias, sobem cerca de 30 metros além do nível normal (como acaba de ocorrer no Rio Negro, equiparando o recorde do ano de 1.902).
Aliás, enquanto redigíamos este texto, o presidente argentino Alberto Fernández, em tom pejorativo, disse que o brasileiro “veio da selva” – evidentemente desconhecendo a História, o que é a rica selva amazônica e o quanto o mundo a cobiça.
Por trás da ideia de se combater desmatamento e desflorestamento surgiram e surgem projetos ambiciosos, como o do americano que há mais de 50 anos na Amazônia implantou o Jari, trocando grandes áreas de imensas árvores nativas por Gmelina Arborea e Pinus Caribaea, árvores estrangeiras – para a produção de Celulose!
Muitos falam em salvar a nossa Amazônia, mas não dizem de quem. Muitos dos que advogam essa “salvação” buscam a guarda e tutela do quanto representa a nossa Amazônia, talvez esquecendo-se de que ainda a conservamos – e bem – diante das grandes áreas devastadas no mundo, como falamos acima… querem “salvá-la” por já terem destruído os seus originais recursos florestais e mares e rios e lagos, em suas investidas econômicas.
A Amazônia e as riquezas naturais do Planeta não precisam dos que se apresentam no papel das inocentes Virgens Vestais da antiga Roma, às quais se incumbia o papel de manter aceso o fogo do templo que garantiria a paz. Aliás, as maiores florestas do mundo não se situam dentro das áreas dos países integrantes do G-7 – o grupo dos mais industrializados do mundo (EUA, Japão, Alemanha, França, Itália, Canadá e Reino Unido).
É curioso também se ouvir dizer que se roubou a vida ou a infância de alguém quando tantos sucumbiram sob a escravidão ou desnutridos, enquanto se iluminava a Cidade Luz ou a Times Square…
A nossa Amazônia não é do mundo e isso significa que a Soberania e a autodeterminação do Brasil e dos brasileiros deve ser respeitada. Não há um xerife, um dono ou uma lixeira global. Talvez depois de mostrar os concretos resultados do que fizerem para limpar o Mediterrâneo, a foz do Mississipi, os rios e locais mais poluídos do mundo, possam pensar em nos dizer como agir. Até lá…