Energia. O seu valor para o mundo é fundamental. Sem energia nada funciona. Neste período de calor extremo valorizamos cada vez mais os aparelhos de ar condicionado e os ventiladores – que são movidos a energia. É singelo exemplo de algo muito, muito maior.
Ao longo da história humana, a energia dos animais foi utilizada no uso dos arados, para puxar árvores, carroças e até peças de artilharia. Os motores, inclusive dos carros, são categorizados em “cavalos de força” (CV), numa literal tradução do termo horse power (HP), medida padrão, baseada na força dos cavalos – o instrumento de trabalho mais potente daqueles tempos.
Quanto vale a energia para fazer mover quase toda a Europa?
Falamos de energia suficiente para movimentar fábricas e aquecer as residências no frio inverno europeu.
Essa energia provém de matrizes nucleares e de gasodutos.
Os gasodutos chegam à Europa carregando gás proveniente da Rússia, que detém cerca de 40% das reservas mundiais.
A Ucrânia, país independente desde o fim da União Soviética, é uma grande nação e uma espécie de “corredor” separando a Europa e a Rússia.
A Rússia nega que queira invadi-la e fixa como ponto controvertido a tese de que a OTAN estaria se expandindo ao leste e usando a Ucrânia para fazer um cerco à Rússia.
A poderosa arma invisível da Rússia está nas suas grandes reservas de gás…
Hoje, servem de fonte energética para a Europa…
O fato novo e motivador desse contemporâneo imbróglio é o gasoduto de 1.200 km que foi concluído em setembro de 2021, ligando a Rússia e a Alemanha, aguardando apenas a certificação final.
É verdadeira bomba geopolítica. O projeto aumenta a influência de Moscou sobre a Europa, mas esse não é ainda o ponto mais relevante de toda a matéria.
São três (3) questões fundamentais: a primeira é que a sua construção envolveu custos de cerca de 11 bilhões de dólares; a segunda é que a Rússia ainda precisa da Ucrânia, para dar vazão ao gás que vende para a Europa; a terceira é que os russos começaram a vender enormes volumes de gás para a China.
Estima-se que a Rússia hoje tenha reservas financeiras calculadas em 600 bilhões de dólares, de sorte que poderia ficar bem, sem vender para a Europa e sem sofrer com problemas de fluxo de caixa.
A sua parceria comercial com a China altera a regra do jogo tradicional e eleva a temperatura dessa Segunda Guerra Fria, ao mesmo tempo em que na Europa o inverno segue com estoque de gás inferior aos níveis históricos.
Só para registrar o tamanho desse impacto e abstraindo as situações concretas, no seio de cada família e indústria europeia, bom relembrar que em idos de 1948 algo semelhante ocorreu em Berlin, com o não fornecimento do gás, levando os governos britânico e americano a realizar centenas de milhares de voos, levando diariamente cerca de cinco mil toneladas de suprimentos.
Se considerarmos o quanto aumentou a demanda por energia desde então, pelo crescimento da população e do parque industrial, não fica difícil entender o que está em jogo.
No outro canto do ringue, a China reconhece a seriedade da questão para o Kremlin, ao mesmo tempo em que é das maiores parceiras comerciais da Ucrânia.
China e Rússia também tem as suas questões históricas com parte de seus ex-territórios. A primeira com Taiwan e a segunda com a Ucrânia. Sob tal enfoque, os EUA e a Otan se preocupam com o controle daquela região pela China – passível de ameaçar a supremacia das forças americanas no Pacífico, fruto de dramático episódio na Segunda Grande Guerra – e da Ucrânia, pela Rússia.
Estamos, assim, num momento delicado.
As motivações não são humanitárias e nem meramente territoriais.
Em jogo, nesse complexo tabuleiro planetário, está o controle sob as chaves do fluxo do gás russo. Fluirá em direção à China – que tem demanda crescente – ou continuará em direção à Europa?
Ademais, a China cresce a olhos vistos e cada vez mais dependerá dessa fonte energética russa, o que alimentará a delicada questão em análise e poderá levá-la a outro patamar de necessidade e estratégicas questões. Avança e mais precisa de energia para crescer e sabemos que, por isso, recentemente e em plena COP 26 aumentou a sua produção e consumo de carvão.
O Ocidente preocupa-se não em ganhar mais. Preocupa-se em não perder.
O jogo envolve tanto energia para aquecimento das residências no rigoroso inverno europeu quanto a movimentação das máquinas industriais na europa… mais até, envolve o razoável equilíbrio conquistado após a 2ª Guerra Mundial… Ainda mais, arrisca desencadear um cabo de guerra com tanta pressão de força que periga a corda arrebentar…
Por fim, a Ucrânia já sofreu com o genocida evento conhecido como Holomodor, causado pela União Soviética, que levou à morte pela fome cerca de 15 milhões de pessoas. Sobre o trágico evento há livros e filmes e a sensível letra, onde lemos: …”Seu pão ele dividiu com seu pai / Essa era a vida que ele conhecia” […] Um velho está ao lado da sepultura / E o coração deste homem está muito pesado para orar”… (Renaissance, livre tradução da letra da canção Kiev)
A fome e o frio voltam a soar como armas invisíveis, nessa geopolítica global.
São armas que não fazem os barulhos dos explosivos e das balas de canhão, não gerando nas TVs e redes sociais as atrativas imagens do céu iluminado pelos armamentos cruzando os ares…
A fome é silenciosa e mortal, dolorosa, inefável e, dentro dos lares, mata a alma de cada um que acompanha o processo próprio e dos seus queridos, do definhamento até o falecimento. Cenário indesejável ao pior inimigo e que retrata o quão dramática é a periferia dos grandes teatros de guerra e das salas de comando político e militar. Pior: a fome e o frio entram como fator a ser considerado nas mesas de negociação… Além disso, está por trás o domínio econômico e geopolítico, em torno de uma arma invisível poderosa como o gás, na armadilha que vimos surgir nos territórios da Ucrânia, com suas próprias altas questões e ainda espremida entre os gigantes mundiais.