A antiga Rota da Seda chinesa se renova, se amplia e chega à América, ultrapassando os antigos limites que ligavam o Oriente remoto à Europa.
O ousado lance embaraça mais o cenário global. Nesta Segunda Guerra Fria, os gigantes militares e econômicos se movem, com jogadas que testam os limites dos maiores players globais.
Possivelmente a Argentina servirá como cabeça de ponte para contornar hipotéticas reações diretas ou sanções oriundas dos EUA e da Europa. Também é possível que haja mais estreita cooperação militar e, portanto, forte influência a respeito, por parte da poderosa China.
A Rússia também ingressa fortemente no cenário dessa expansão. Tanto é assim que recebeu a visita de delegações do Brasil e da Argentina, países que têm tentado conversar com todos, alvitrando atração de investimentos e fomento do comércio internacional.
Esse cenário mexe com o duradouro domínio dos EUA nas Américas, pela Doutrina Monroe, iniciada em 1.823. Na véspera de completar os seus 200 (duzentos) anos de existência, ainda é um dos roteiros mais firmes da política externa que pautou, nesses 2 séculos, a relação no Novo Mundo, ao girar em torno da ideia de que o continente americano não se sujeitaria à influência europeia.
O foco era a América para os americanos.
Trazia consigo o fomento à independência dos países americanos, com 3 pautas: (1) a não aceitação da criação de novas colônias europeias nas américas, (2) a não interferência norte-americana em conflitos entre nações da Europa e (3) a resistência à interferência daqueles países em temas das nações americanas, que se deveriam autodeterminar.
A Doutrina Monroe surgiu diante da necessidade de reorganização da Europa após o vendaval causado por Napoleão e a expansão francesa. Por isso, os EUA construíram esse mudo isolacionista e de resistência a uma aliança que se formava entre os europeus, que queriam voltar a ter colônias em terras americanas.
Num primeiro momento, tal política soava como bem-vinda, por possibilitar a capacidade de resistência das américas e dos países latino-americanos.
Todavia, o tempo mostrou que mais servia para a salvaguarda dos interesses dos EUA, num expansionismo que foi acompanhado da aquisição do Texas e da Califórnia.
A força da Doutrina Monroe se propagou com dimensões ainda maiores segundo a tese do “Destino Manifesto”, que alimentava nos norte-americanos a crença de que teriam a missão de levar os seus conceitos de civilização, religião e democracia para todas as regiões e povos das Américas. Essa “missão” foi facilmente levada aos povos vulneráveis, pela independência recém conquistada, os quais se sujeitaram a absorver novos costumes, língua e religião.
Já tivemos o tempo da expansão romana, de Alexandre o Grande, dos imensos domínios globais de Portugal, Espanha, França e Inglaterra e, mais recentemente, a divisão do mundo entre URSS e EUA – as duas grandes potências da 2ª metade do Século XX.
Agora é a vez da China, que cresce há 30 anos em números absolutos e que, junto com a sua pujança econômica, influenciará o mundo ocidental com a sua doutrina política, cultura e língua. É a história dando voltas e pulsando em ciclos.
Na sua nova relação com a Argentina, fala-se no volume de 23 bilhões de dólares (!), para investimentos em energia nuclear, agricultura e infraestrutura.
Em 08 de fevereiro, o jornal argentino Clarín noticiou que senadores americanos já falam na necessidade de se “frear o avanço da China e da Rússia na América Latina” – algo como reforçar a Doutrina Monroe.
O conflito aqui não é de iminente natureza militar, como na Ucrânia – o que não o torna menos impactante. Do ponto de vista estratégico, a comentada moderna Rota da Seda não sofre as limitações físicas e geográficas para expansão.
A China tem 1 bilhão e meio de pessoas. Precisa crescer mais e não vai se auto-impor limites. Só para singela comparação, a soma da população dos EUA e do Brasil corresponde a 1/3 da população da China que, para crescer, precisa de mais energia e alimentos. Sua economia está forte e a moeda não vê limites territoriais. O dinheiro circula digital e livremente entre os seus destinos.
Ademais, a disputa por crescimento e fontes energéticas fez com que, em plena COP 26, os EUA e a China aumentassem o consumo e a produção interna do poluente carvão. Apesar das ambiciosas metas dos discursos ambientais, as suas industrias não podem parar.
O que está em jogo é o domínio das matrizes energéticas e da produção e distribuição de energia, o domínio sobre o ferro e outros minerais e as fontes de água doce, matas e áreas agricultáveis para a alimentação dos povos. A jogada em curso abala o status quo, não por não ter sido prevista, mas por ser a concretização de algo que os países dominantes fizeram ao longo da história, levando a sua influência política, cultural e ideológica às terras e povos conquistados.
O que vemos é um reequilíbrio de forças, a migração dos fluxos de capital, a dominação do mais forte economicamente sobre os mais vulneráveis, o jugo da força sobre a dependência alheia, a estratégia de médio e longo prazo traçada por quem se planejou para isso – o que desperta o protesto de quem achou que tinha ganho o jogo pela eternidade e dormiu em berço esplêndido.
A figura da águia simbolizou o poder em Roma, na Alemanha e nos EUA. A ave ora parece bater asas rumo à China.
A resposta dos EUA terá de ser mais vantajosa e generosa para os países americanos. Acordos realmente bilaterais teriam de ser criados, muito além da antiga “Aliança para o Progresso”.
A China pôs lenha na fogueira da Doutrina Monroe, às vésperas desta completar 200 anos de existência. A questão é saber se a Doutrina envelheceu e se apagará ou se ganhará novo ânimo, para responder à altura.
De qualquer modo, o Brasil tem minérios, água doce, bom clima, terras agricultáveis, imenso território e é, por tudo isso, cobiçado. Nesse tipo de “leilão”, devemos nos valorizar ao máximo para colher os melhores frutos em prol da nossa Soberania, do nosso crescimento e dos destinos do nosso povo.