A rotina do presidente tem sido marcada por agendas que revelam o alheamento e a desídia com as pautas mais importantes do Brasil. Quem recorda do encontro diário do presidente com vários militantes à porta do Palácio da Alvorada para proferir palavrões e exercitar o bullying contra seus adversários. Fora isso, sobrava muito tempo para saber onde o presidente realmente estava e o que estava fazendo no exercício das atribuições de chefe da nação. Suas manifestações eram nas redes sociais, normalmente em combate acirrado contra seus moinhos de vento. Não havia, nesse cenário, qualquer possibilidade otimista para se enxergar um presidente trabalhando e preocupado com a difícil missão de governar o Brasil.
Com eclosão da pandemia, o presidente se posicionou contra a ciência e, por conseguinte, contra a vida dos brasileiros. Defendia e defende claramente a liberação de todas as atividades econômicas e repudia, com a ferocidade de um cão bravio, as medidas restritivas. Com esse comportamento açula seus militantes a se digladiarem contra governadores e prefeitos que tem a prudência de se orientar pela ciência. O resultado dessa equação macabra são quase 350 mil brasileiros enterrados sem direito a um adeus. Acaso houvesse compromisso e trabalho do governo muitas vidas teriam sido poupadas.
Diante disso, era necessário, dentro das regras democráticas, apurar a conduta do presidente. Todavia, foi necessário que parlamentares buscassem o judiciário para que se instalasse uma Comissão Parlamentar de inquérito para apurar a vadiagem e descaso do presidente durante a pandemia. No congresso, Senado e Câmara, o presidente tem quem defenda, com a veemência de um injustiçado, suas omissões que geram estatísticas de morte. Felizmente para os brasileiros o Ministro Barroso decidiu no sentido de obrigar o Senado a instalar a CPI reclamada, como direito incontrastável das minorias, visto que cumpridas as formalidades legais e regimentais da casa legislativa.
A CPI é dolorosa e necessária. Dolorosa por ser deflagrada num momento tão difícil para os brasileiros. Necessária, porque não é licito a nenhum governante fazer do exercício de seu mandato uma parte integrante de seu churrasco de final de semana, onde é possível delirar e fazer um tributo a qualquer irresponsabilidade omissiva, com direito à brinde. O presidente precisa mudar sua rotina, com mais presença na cadeira presidencial, reuniões de ministros, debates de relevantes temas nacionais, tomadas de decisão que melhorem a vida do cidadão, enfim, ações que realmente justifiquem se vestir de terno diariamente. Tem de lutar para que se livre do vício das redes sociais, dos acintosos passeios de jet-ski, dos rolês de motos, dos pasteis com caldo de cana na esquina para revelar simplicidade, porque isso, decididamente, não muda o Brasil. Que a CPI seja o gatilho para a mudança comportamental do presidente!