Bombas explodiram sem avisar, ceifando vidas e fazendo com que lágrimas escorressem por faces consternadas e a Terra absorvesse o sangue das vítimas, enquanto o mundo, estupefato, conhecia os primeiros movimentos dessa batalha de horrores.
Se o acontecimento fosse melodia, não seria compreendido apenas pela sessão final da partitura. Do mesmo modo, o primeiro ataque não compreende toda a história e contexto. Nada surge do acaso e nenhuma ideia prospera sem apoio e incentivo. As sombras também compõem o quadro pintado.
A razão e a lógica cedem lugar diante da tentação de se provar quem está certo, ainda mais quando a comunicação não violenta é substituída pelas armas, lançadas sem prévio aviso e aleatoriamente.
Não deixa de ser adequado recordar Freud, em “Psicologia das Massas e Análise do Eu”, que nos ajuda a compreender o comportamento do indivíduo diante do coletivo. Isso pode nos ajuda a entender as fortes influências dos vínculos criados e das emoções, o que não explica tudo.
O subjetivo fala alto e não deixa de encontrar alguma explicação na discricionariedade das ações concretas, sem amparo ou restrição por regras legais ou convenções sociais. Essa ruptura angular revela não apenas resistência mas, também, arbítrio e ilimitado exercício das próprias razões.
Nesse ponto, não criteriosamente são eleitas posturas e motivações, de acordo com as próprias convicções. De qualquer sorte, nada deve ser analisado com paixão ou singeleza, como se fosse algo mecânico e capaz de fundir as variações do modo de pensar e do terreno de onde emergem.
Já vemos o envolvimento de outros países, da região ou distantes, em apoio a cada um dos lados do conflito, enquanto o maior porta-aviões do mundo chega ao local. As fronteiras estão fechadas. Sair e entrar está praticamente impossível e o isolamento começa a transformar a região de onde partiram os ataques. Com urgência, não se trata de debater culpa coletiva ou de se buscar, de imediato, a individualização da conduta de cada envolvido, mas de se criar mecanismos hábeis à proteger os reféns e os inocentes que não podem sair (nem por terra, nem por ar, nem por mar) sem que cada movimento seja previamente autorizado pelas forças locais. A diplomacia internacional se debruça sobre desafio ímpar, diante de aspectos fáticos há muito não vistos.
As notícias que nos chegam espraiam clima generalizado de incerteza e um quase infinito de possíveis desdobramentos, a curto, médio e longo prazo. Também ensejam perguntas… De quem se comprou armamento de guerra? Quais países ou grupos apoiaram essa ou aquela atividade? Quem apoiou esse ou aquele player e quem deixou de criticar, de se posicionar e, como se diz em linguagem popular, de “não tapar o sol com a peneira”, quando, mesmo em Alice no País das Maravilhas, havia a figura da Rainha Má, autoritária, temperamental e que costumava mandar cortar cabeças?
A primeira coisa que se deve ter, portanto, em tudo, é clareza de posicionamento, pois a dúvida e a indecisão podem ser interpretadas como fraqueza ou, até, incentivo – por quem a percebe.
A Terceira Lei de Newton, em grande resumo, diz que para toda força de ação surge uma reação. Exigir-se que o reagente seja mais prudente que o agente leva-nos ao paradoxo de cobrar de um o que não se pode nem pedir ao outro, circunstância agravada quando a falta de empatia esvazia a capacidade de ver humanidade no adversário a ser vencido, que passa a ser visto como inimigo a ser destruído.
Ademais, o antissemitismo não deixou de existir, mesmo após os horrores da 2ª Guerra, com traços perceptíveis aqui, ali ou acolá. Não se a vê de corpo inteiro, mas se a percebe, como sombra… O contexto envolve ou não o cruzamento de linhas gerais de humanidade, o cumprimento ou não de convenções de guerra e dos proclamados Direitos Humanos.
A Convenção de Genebra e protocolos afins, em síntese, protegem a população civil e preveem o socorro humanitário aos feridos e doentes, ainda exigindo o respeito aos prisioneiros de guerra – o que inclui tratamento humanizado, a proibição da tomada de reféns, os assassinatos, as mutilações e as torturas.
É difícil para os civis entender que, em campo de batalha, não dá para “pedir licença”, simplesmente. Tudo se agrava nos conflitos desse nível, com o envolvimento de tantas cargas e atores políticos e numa região onde cada metro quadrado significa local de moradia, de tradição cultural, terra seca ou – se irrigada – fértil, etc.
Ademais, para uns a guerra é fonte de dor, tristeza e perdas, enquanto para outros é fonte de ganhos, sendo crível que ninguém a vence ou perde, integralmente. Todos os países e povos saem mutilados, atingidos e manchados, embora os senhores da guerra delas se aproveitem para vender os seus armamentos e ampliar as suas riquezas.
Talvez a Segunda Guerra Fria não se apresente assim, essencialmente, por conta do “aquecimento global” dessas questões militares. O cenário pode se limitar aos envolvidos, hoje… ou ampliar-se para que a negociada conformação da região, como feito no Século XX, venha a erodir por inteiro e a potencializar guerra de dimensões globais, levando-nos a uma hecatombe nuclear, o que, infelizmente, parece ser mais possível com foco a partir do Oriente Médio do que em torno da Ucrânia.
No fim das contas, o que importa saber não é nem a razão de um ou outro ou que pedaço da culpa e da sanção se aplicaria a quem iniciou a questão ou a quem reagiu e ao sofrimento infligido aos inocentes, talvez sendo mais relevante se construir uma solução minimamente lógica e com razão pura para hábil pacificação do contexto, punição dos culpados conforme a responsabilidade de cada um, proteção dos inocentes e para não ser agravado o iniciado conflito, a ponto de perder o mundo, mais uma vez, a razão global, lançando-se no terceiro grande conflito mundial, o que pode ser muito mais perigoso e inconsequente do que possamos imaginar, a ponto de não ficar ninguém para contar a história.