O ser humano é a um só tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social, histórico. Mas esta unidade complexa é desintegrada na educação por meio das disciplinas, impossibilitando compreender o que é o ser humano. É preciso que cada um tome consciência de sua identidade complexa e comum.
Quem somos? Onde estamos? De onde viemos? Para onde vamos? Interrogar a condição humana implica questionar primeiro nossa posição no mundo. Edgard Morin, na magistral obra Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro (Unesco, 1999), abre o debate com muita profundidade e como educador arrisquei algumas elucubrações sobre os apontamentos.
Para a educação do futuro é necessário promover grande remembramento dos conhecimentos oriundos das ciências naturais, a fim de situar a condição humana no mundo.
Devemos reconhecer nosso duplo enraizamento no cosmos físico e na esfera viva e ao mesmo tempo nosso desenraizamento propriamente humano. Estamos ao mesmo tempo dentro e fora da natureza.
Referente à condição cósmica, abandonamos recentemente a ideia do universo ordenado, perfeito, eterno pelo universo nascido da irradiação. Encontramo-nos no gigantesco cosmos em expansão, constituído de bilhões de galáxias e bilhões e bilhões de estrelas. Aprendemos que nossa terra era um minúsculo pião que giram em torno de um astro errante na periferia de pequena galáxia de subúrbio.
A condição física é uma porção de substância física, organizada de maneira termodinâmica sobre a terra: por meio de imersão marinha, de banhos químicos, de descargas elétricas, adquiriu vida. A vida é solar: todos os seus elementos foram forjados em um sol e reunidos em um planeta cuspido pelo sol: ela é a transformação de uma torrente fotônica resultante de resplandecentes turbilhões solares.
A terra agregou-se há cinco bilhões de anos a partir provavelmente de detritos cósmicos resultantes da explosão de um sol anterior. A terra autoproduziu-se e auto-organizou-se na dependência do sol e tornou-se um complexo biofísico a partir do desenvolvimento da biosfera, da qual dependemos vitalmente como seres vivos deste planeta.
A antropologia pré-histórica mostra-nos como a hominização é uma aventura de milhões de anos. É ao mesmo tempo descontínua – surgimento de novas espécies: “habilis”, “erectus”, “neanderthal”, “sapiens” e desaparecimento das precedentes, aparecimento da linguagem e da cultura – e contínua – processo de bipedização, manualização, erguimento do corpo, cerebralização, juvenescimento, complexificação social (aparecimento da linguagem propriamente humana, constituição da cultura, capital adquirido de saberes, de fazeres, de crenças e mitos transmitidos de geração em geração).
O homem é um ser a um só tempo biológico e cultural. Se não dispusesse plenamente da cultura seria um primata do mais baixo nível. O homem somente se realiza plenamente como ser humano pela cultura e na cultura. Não há cultura sem cérebro, mas não há mente (capacidade de consciência e pensamento) sem cultura.
Há um evidente circuito razão/afeto/pulsão. O cérebro humano contém: a) paleocéfalo, herdeiro do cérebro reptiliano, fonte da agressividade, do cio, das pulsões primárias; b) mesocéfalo, herdeiro do cérebro dos antigos mamíferos, no qual o hipocampo parece ligado ao desenvolvimento da afetividade e da memória a longo prazo; c) o córtex, já bem desenvolvido nos mamíferos, chegando a envolver todas as estruturas do encéfalo e a formar os dois hemisférios cerebrais. Hipertrofia-se nos humanos no neocórtex, que é a sede das aptidões analíticas, lógicas, estratégicas, que a cultura permite atualizar completamente.
Assim, emerge outra face da complexidade humana, que integra a animalidade (mamífero e réptil) e a humanidade na animalidade.
As relações entre essas três instâncias são não apenas complementares, mas também antagônicas, comportando conflitos bem conhecidos entre a pulsão, o coração e a razão. A racionalidade não tem poder supremo, podendo ser dominada, submersa ou mesmo escravizada pela afetividade ou pela pulsão.
No nível antropológico, a sociedade vive para o individuo, o qual vive para a sociedade; a sociedade e o indivíduo vivem para a espécie, que vive para o indivíduo e para a sociedade.
As cegueiras do conhecimento são provocadas pelo erro e a ilusão. A educação é cega quanto ao que é conhecimento humano e não se preocupa em fazer conhecer o que é conhecer. O conhecimento não vem pronto. Há que se desenvolver o estudo das características cerebrais, mentais, culturais dos conhecimentos humanos, de seus processos e modalidades, das questões psíquicas e culturais que conduzem ao erro ou à ilusão.
O erro e da ilusão é o calcanhar-de-aquiles do conhecimento e a educação deve mostrar que o conhecimento é ameaçado por ele. Aos erros de percepção acrescenta-se o erro intelectual. De fato, o sentimento, a raiva, o amor e a amizade podem nos cegar, havendo estreita relação entre inteligência e afetividade, podendo a capacidade de raciocinar ser prejudicada pelo “deficit” emocional.
Nenhuma teoria científica está imune contra o erro e o conhecimento científico não pode tratar sozinho dos problemas epistemológicos, filosóficos e éticos.
Isso se dá principalmente em função dos erros mentais. Não se distingue a alucinação da percepção, o sonho da vigília, o imaginário do real, o subjetivo do objetivo. As vias de entrada e saída com o mundo exterior do sistema neurocerebral representa 2% enquanto que o sistema interno representa 98% (sonhos, desejos, ideias, imagens, fantasias). Cada mente é dotada de potencial de mentira, que é fonte permanente de erros e ilusões.
Os erros intelectuais também devem ser sopesados. Está na lógica de qualquer sistema de ideias resistir à informação que não lhe convém ou que não pode assimilar. As teorias resistem à agressão das teorias inimigas ou dos argumentos contrários.
Os erros da razão também são importantes nessa análise. A racionalidade é a melhor proteção contra o erro e a ilusão. A racionalidade construtiva elabora teorias coerentes, observando o caráter lógico da organização teórica, a compatibilidade de ideias, a concordância entre suas asserções e os dados empíricos, mas deve permanecer aberta ao que a contesta para não se fechar em doutrina e se converta em racionalização, pois daí a racionalidade traz possibilidade de erro e ilusão quando se perverte em racionalização.
A racionalização se crê racional porque se constitui um sistema lógico perfeito, fundamentado na dedução ou na indução, mas fundamenta-se em bases mutiladas ou falsas e nega-se à contestação e à verificação empírica e se constitui numa das fontes mais poderosas de erros e ilusões.
As cegueiras paradigmáticas ocorrem também com muita frequência. Não se joga o jogo da verdade e do erro somente na verificação empírica e na coerência lógica das teorias. Joga-se, também, profundamente, na zona invisível dos paradigmas. Os indivíduos conhecem, pensam e agem segundo paradigmas inscritos culturalmente neles. O paradigma é inconsciente, para irrigar o pensamento consciente, controla-o e, neste sentido, é também supraconsciente. Em resumo, o paradigma instaura relações primordiais que constituem axiomas, determina conceitos e comanda discursos e/ou teorias.
Ao determinismo de paradigmas e modelos explicativos associa-se o determinismo de convicções e crenças, que, quando reinam em uma sociedade, impõem a todos e a cada um a força imperativa do sagrado, a força normalizadora do dogma, a força proibitiva do tabu.
Isso determina os estereótipos cognitivos, ideias sem exame, as crenças estúpidas não-contestadas, os absurdos triunfantes, a rejeição de evidências em nome da evidência e faz reinar em toda parte os conformismos cognitivos e intelectuais.
Há o imprinting cultural, marca matricial que inscreve o conformismo e a normalização que elimina o que poderia contestá-lo. Imprintig é um termo proposto por Konrad Lorenz para dar conta da marca indelével imposta pelas primeiras experiências do animal recém-nascido e marca os humanos desde o nascimento, com a cultura familiar, escolar, depois prossegue na universidade ou na vida profissional.
A noologia e a possessão agem também negativamente. Noosfera significa a esfera das coisas do espírito, que surgiu com os mitos e os deuses. O levante extraordinário dos seres espirituais impulsionou e arrastou o homem a delírios, massacres, crueldades, adorações, êxtases e sublimidades desconhecidas no mundo animal.
O inesperado é um ingrediente terrível para o homem. Instalamo-nos de maneira segura em nossas teorias e ideias e estas não tem estrutura para acolher o novo. É preciso ser capaz de rever nossas teorias e ideias, em vez de deixar o fato novo entrar à força na teoria incapaz de recebê-lo.
Quantos sofrimentos e desorientações foram causados por erros e ilusões ao longo da história humana, mormente no século XX. Por isso o problema cognitivo é de importância antropológica, política, social e histórica.
É necessário conhecer dos problemas globais e fundamentais para inserir os conhecimentos parciais e locais. O conhecimento fragmentado impede o vínculo entre as partes e a totalidade. Deve ser substituído por um modo de conhecimento contextualmente complexo, em conjunto. É preciso ensinar métodos que permitam estabelecer relações mútuas e influências recíprocas entre as partes e o todo em um mundo complexo.
É problema universal de todo cidadão do novo milênio o acesso às informações sobre o mundo e como ter a possibilidade de articulá-las e organizá-las. Como perceber e conceber o contexto, o global, o multidimensional, o complexo?
O conhecimento das informações ou dados isolados é insuficiente, sendo preciso situar em seu contexto para que adquiram sentido, tem que ser global, um conjunto das diversas partes ligadas ao contexto de modo inter-retroativo ou organizacional.
De outro quadrante, devemos tratar o ser humano como multidimensional, pois é ao mesmo tempo biológico, psíquico, social, afetivo e racional. Já a sociedade comportar as dimensões histórica, econômica, sociológica, religiosa… O conhecimento deve reconhecer este caráter multidimensional.
É vero que o conhecimento é complexo. “Complexus” significa o que foi tecido junto e há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis constitutivos do todo (como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico).
Mas há uma antinomia na escadaria do conhecimento. Os progressos no conhecimento estão dispersos, desunidos, devido à especialização que fragmenta os contextos, as globalidades e as complexidades. A hiperespecialização impede tanto a percepção do global quanto do essencial. O recorte da disciplina impossibilita apreender o que está tecido junto, o complexo.
Há um processo de redução e disjunção. Até meados do século XX a maioria das ciências obedecia ao principio de redução, que limitava o conhecimento do todo ao conhecimento de suas partes. Pode cegar e conduzir a excluir tudo aquilo que não seja quantificável e mensurável, eliminando dessa forma o elemento humano do humano (paixões, emoções, dores e alegrias).
A falsa racionalidade (racionalização) abstrata e unidimensional triunfa sobre as terras. Por toda parte e durante décadas, soluções presumivelmente racionais trazidas por peritos convencidos de trabalhar para a razão e para o progresso e de não identificar mais que superstições nos costumes e nas crenças das populações, empobreceram ao enriquecer, destruíram ao criar.
Resultaram disso catástrofes humanas cujas vítimas e consequências não são reconhecidas nem contabilizadas, a exemplo das catástrofes naturais.
O “homo sapiens” também pode ser “demens”. O homem da racionalidade é também o da afetividade, do mito e do delírio (“demens”), o do trabalho é também o do jogo (“ludens”), o empírico é também o imaginário (“imaginarius”), o da economia é também o do consumismo (“consumans”), o prosaico é também o da poesia. Assim, o século XXI deverá abandonar a visão unilateral do homem pela racionalidade.
Surge, pois, o “homo complexus”. O homem é complexo porque é ao mesmo tempo infantil, neurótico, delirante, racional e irracional, capaz de medida e desmedida, sujeito de afetividade intensa e instável, sorri, ri, chora, mas sabe conhecer com objetividade; é sério e calculista, mas também ansioso, angustiado, gozador, ébrio, extático; é um ser de violência e de ternura, de amor e de ódio; pode ser invadido pelo imaginário e pode reconhecer o real, e é consciente da morte, mas pode não crer nela; que secreta o mito e a magia, mas também a ciência e a filosofia; que é possuído pelos deuses e pelas ideias, mas duvida dos deuses e critica as ideias; nutre-se dos conhecimentos comprovados, mas também de ilusões e quimeras.
O século XX deixou alguns legados: o da guerra, massacre, deportação e fanatismo; o da racionalização, que só conhece o cálculo e ignora o indivíduo, seu corpo, seus sentimentos, sua alma e que multiplica o poderio da morte e da servidão técnico-industrial.
Agora no século atual surgem novos perigos como a morte ecológica, pois a degradação da biosfera ameaça envenenar o meio ambiente em que vivemos e conduzir a humanidade ao suicídio. Estamos anunciando a morte da modernidade.
Acreditava-se num futuro de progresso infinito, mas Hiroshima nos deu uma lição. A razão retrocedeu e ocorreram delírios como de Stalin, mostrando que a democracia não estava garantida. O desenvolvimento industrial causou danos à cultura e poluição mortal e a “civilização” também causa mal-estar.
Na era das telecomunicações, da informação, da internet, estamos submersos na complexidade do mundo, as incontáveis informações sobre o mundo sufocam nossas possibilidades de inteligibilidade. O próprio desenvolvimento criou mais problemas do que soluções e conduziu à crise profunda de civilização que afeta as próprias sociedades do ocidente.
Assim, a educação do futuro deverá fazer o exame e o estudo dessa complexidade humana numa visão holística, pois os problemas globais são cada vez mais essenciais e nunca são fragmentados.
Adilson Garcia
Professor, doutor em Direito pela PUC–SP, advogado e promotor de justiça aposentado.