No seu sentido mais amplo, educação significa o meio em que os hábitos, costumes e valores de uma comunidade são transferidos de uma geração para a geração seguinte. A educação vai se formando através de situações presenciadas e experiências vividas por cada indivíduo ao longo da sua vida.
A finalidade da Educação, principalmente em países como o Brasil, deve ter como principais objetivos a formação humana do educando, transformando a escola em uma prática regular de vivências de cidadania, equidade, inclusão e socialização. Sendo assim, a educação é, portanto, um processo social que se enquadra numa certa concepção de mundo, concepção esta que estabelece os fins a serem atingidos pelo processo educativo em concordância com as ideias dominantes numa dada sociedade.
Desta forma, não se pode falar de educação sem falar do professor que deve ser um mediador, facilitador e articulador do conhecimento e não apenas aquele que detém a informação. Ele deve atuar como um pesquisador, que provoca o aluno a ser também curioso e descobrir a partir de seus próprios questionamentos. Deve convidar o estudante a ver a realidade como seu objeto de estudo.
E isso faz com que a educação seja um mar de histórias fantásticas na vida daqueles que fazem da educação algo essencial para as suas vidas. Histórias essas que nos surpreendem e nos motivam a continuar acreditando na educação como um meio de grande mudança pessoal e social. História como a Dalzira Maria Aparecida contada no decorrer deste texto. Nos mostrando que a Educação é o caminho.
Mãe de santo, formada em Relações Internacionais pelo Centro Universitário Autônomo do Brasil, mestra em Tecnologia pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná, e agora doutora em Educação pela UFPR (Universidade Federal do Paraná) aos 81 anos de idade. Dalzira Maria Aparecida realizou o maior sonho da mãe: ver a filha alfabetizada e estudando – algo que ela só pôde fazer aos 13 anos, porque o pai a proibia aprender a ler e escrever.
Ela contou sua história:
“Na infância, não estudei. Fui alfabetizada aos 13 anos. Para o meu pai, as filhas mulheres não precisavam estudar. A gente morava em uma área rural de Guaxupé, Minas Gerais, e não tinha escola perto. Só os filhos homens iam para a escola. Para as meninas, ele inventava inúmeros pretextos. Os anos foram passando, e eu sempre cobrando. Queria muito aprender a ler e escrever.
Minha mãe se casou com outro homem e foi morar no Estado de São Paulo. Me mandava cartas, mas como eu não sabia ler, meu pai que as lia. Ele falava o que bem queria. Tentei voltar a estudar aos 18 anos, mas tive que parar de novo, a vida me obrigou. Tentei de novo aos 30 e dei uma nova pausa. Aos 47, concluí a EJA (Educação de Jovens e Adultos).
Anos depois, minha filha disse que achava que eu deveria fazer o vestibular. Fiquei assustada, disse que não. Pensei que não fosse capaz de acompanhar o ritmo. Tinha medo de ficar para trás. Mas aí vi em um panfleto de uma universidade o curso de Relações Internacionais, e nele tinha uma disciplina chamada História da América Latina.
Sempre quis saber o porquê dessas diferenças entre o Brasil e nossos países vizinhos. Claro que cada país tem sua peculiaridade, mas por que essa rivalidade? É que Brasil e Argentina, por exemplo, olham para países diferentes. A Argentina está para a Inglaterra assim com o Brasil está para os Estados Unidos.
Fiz vestibular aos 63 anos, passei no Centro Universitário Autônomo do Brasil. Estudava muito. Lia até de madrugada para tentar acompanhar. Mas sofri discriminações. Na hora de formar equipes para os trabalhos, ficava só. Eles só me queriam se fosse algo sobre questão racial, por saberem que sou militante. Teve professor me dizendo que o curso não era para mim, que eu deveria fazer serviço social. Fui seguindo desse jeito, persistindo.
Aos 72 anos, comecei o mestrado em Tecnologia pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Entrei e foi mais suave. Já estava mais descolada, mas mesmo assim o racismo estava sempre presente. Não tem como não aparecer porque é institucional. Está em todos os meios. Aí tem uma hora em que a gente tem de fingir que não entendeu.
Um dia, fui para a universidade com um botão em que estava escrito “inclusão”. Uma professora olhou para mim, na sala de aula, e sem falar meu nome disse: “Não sei o que que eles acham que tem que incluir”. Recebo muitos e-mails falando de inclusão, mas nem leio”. Fiquei quieta e fingi que não era comigo.
Concluí o mestrado aos 74 anos e, depois, fiquei um tempo fora da universidade por outras razões, por questões da vida mesmo. Mas segui em frente nos estudos. Sigo em frente porque me lembro de minha mãe me incentivando. Meu pai dizia que eu não era inteligente, mas minha mãe sempre exaltou minha inteligência.
E eu persisto. Comecei o doutorado em Educação na UFPR (Universidade Federal do Paraná) e, logo, a pandemia começou. Não digo que ela me desestimulou, mas atrapalhou bastante o processo. Os estudos foram todos online. A gente tinha dificuldade para se encontrar. Fiquei um pouco isolada mesmo pela necessidade, por causa da pandemia e porque não queria correr o risco.
Quando comecei o doutorado, meu glaucoma [doença ocular] piorou. Fiquei um bom tempo sem enxergar quase nada. As pessoas me guiando para eu não cair. Mas fomos nos adaptando, insistindo, até a conclusão do curso. Não sei se vou fazer um pós-doc. Não digo que não vou porque tudo que disse que não queria acabei fazendo.
A gente sempre teve as dificuldades, mas agora, com as políticas afirmativas e, se a gente conseguir garantir, teremos o caminho nas mãos. Não tem idade determinada para quem quer estudar. Há muitas mulheres que servem de inspiração. Aqueles que não tiveram oportunidade, mas correram atrás. Aquelas que estão querendo mudar a sua história de vida. Estão na medicina, na odontologia. Principalmente as mulheres negras.
Meu orgulho é saber que a vontade da minha mãe foi cumprida. O doutorado, para mim, é um ponto aonde eu não acreditava que conseguiria chegar, mas cheguei. A todas as mulheres que querem chegar: estudem. A educação é o caminho.”
Um carinho na alma
Se o Brasil começasse a dar valor
a quem nunca se sentiu valorizado
invertendo o que ganha um deputado
pela esmola que ganha um professor.
Pode até me chamar de sonhador
por sonhar que um dia essa nação
passará por uma transformação
e os livros serão a nossa cura.
Um país desnutrido de leitura
só se salva comendo educação.
A nação que investe em sua gente
nunca tem desperdício ou prejuízo.
Observo atento e analiso:
só se muda agindo diferente.
O poder de um povo está na mente,
é a chave que abre essa prisão,
é a luz que aponta a direção
pra seguir por qualquer estrada escura.
Um país desnutrido de leitura
só se salva comendo educação.
(Bráulio Bessa)