No Ocidente, mais conhecemos o jogo de xadrez, no qual, gambitos e jogadas à parte, o objetivo é derrubar o Rei. Muitas guerras e batalhas seguiram essa influência de pensamento.
Diferentemente, há outros sistemas e, particularmente, distinto simbólico jogo de poder em tabuleiro aparentemente inocente, com a vitória ocorrendo pelo estrangulamento do adversário, sem a necessidade da sua derrubada.
É importante registrar que quem acha demorada a partida de xadrez se surpreenderá com jogo equivalente, existente no Oriente, que possui mais complexa movimentação e com partidas muito mais demoradas.
O jogo se chama “go”, uma das artes a ser dominada pela antiga aristocracia chinesa.
O seu objetivo não é tão óbvio e direto como no xadrez. Neste jogo, o vencedor não precisa derrubar o rei. Basta-lhe cerca-lo e esgotar as suas forças.
Essa percepção deve nos fazer refletir sobre a filosofia política por traz dessa arte.
No jogo “go” o tabuleiro é maior do que o do xadrez, possibilitando mais movimentos e com mais longa duração, gerando infinitas combinações de jogadas.
Esse contexto surpreende o Ocidente, que não tem essa tradição e a paciência necessária.
Somos mais imediatistas e tendemos à visão simplista, dos amigos e adversários e do bem contra o mal… temos mais dificuldades em perceber os dois lados das questões e as energias distintas, opostas e complementares, do Yin e Yang, como princípio da filosofia chinesa. Se um é a luz, outro é a treva e, de certo modo, um existe pelo outro.
Também tendemos a logo “medir forças” e isso talvez esteja na herança das gestões do poderoso (e temido!) exército romano e nas “blitzkrieg” dos exércitos de Hitler, nas chamadas guerras-relâmpago, com impressionantes demonstrações de poder, força e agilidade para massacrar adversários e os povos conquistados e garantir, assim, rápidas e esmagadoras vitórias ao exército alemão, com ações integradas da infantaria, da aviação e dos blindados, para forçar a rendição total do adversário.
Portanto, para o estrategista ocidental, o foco tende a ser mais direto, finalístico e significativo, para derrubar o opositor.
Isso nos limita a capacidade de compreensão das causalidades distintas, tanto as profundamente enraizadas nos seios sociais e culturais quanto de outras, mais superficiais e indiretamente afetas ao contexto, embora todas tenham a sua potencial capacidade de interferir em ações, prazos e resultados.
Em parte, talvez aí estejam ingredientes envolvidos nas dificuldades ocorridas nas guerras do Vietnã e do Camboja – mas isso não nos compete analisar além desta superficial cogitação.
A verdade é que a forma ocidental de lidar com os jogos de poder não é distinta do campo de ação simbólico do jogo de xadrez. Distintamente, Sun Tzu, o secular grande estrategista chinês, lido e estudado em todo o mundo, valorizava extremamente o cuidadoso planejamento, desde o primeiro ao último passo. Dizia, ainda, o quanto é importante o ardil e, portanto, a manipulação, ensinando a exibir incapacidade, se for capaz, fingir inatividade quando decidido a atacar e, quando próximo do seu objetivo, ludibriar que assim não está e vice-versa.
Nessa toada, já fica claro o quanto são diferentes as abordagens abstratas e as guerras reais, sendo crível que as condições planejadas nem sempre se verificam e isso pode ser exemplificado com ações açodadas e/ou que não levaram em conta todas as circunstâncias, como na vitória do “general inverno” russo sobre os poderosos exércitos de Napoleão e de Hitler.
Com a mundialização do capital, no contexto da Globalização, o dinheiro e o fluxo de mercadorias ganham outro patamar e se transforma em armas poderosas, tanto quanto os armamentos bélicos.
Aliás, não podemos desprezar o fato de a China era a maior credora estrangeira dos Estados Unidos. Sem precisar esgotar os profundos veios da argumentação, não é difícil considerar o quanto os devedores sofrem influências do exercício do poder pelos credores…
Mais ostensivamente do que isso, os chineses habilmente começaram a liquidar títulos do Tesouro dos EUA para não forçar o fortalecimento do Yuan e, assim, criar obstáculos às suas exportações.
Portanto, não é surpresa que as lições de Sun Tzu não se limitem às guerras convencionais e ecoem por todo o globo, com a China seguindo a sua peculiar estratégia de crescimento, desprezo aos pruridos externos e, como no jogo “go”, agindo para vencer o inimigo sem pressa e sem precisar da guerra armada.
Noutro foco, apesar do seu imenso território, pouca é a área agricultável para a sua enorme população, não passando despercebido que está se projetando fortemente no mercado global e na política mundial com a ampliação desse contingente, com ações que a literatura nacional pouco explora, embora estejam bem tratadas em obras de autores estrangeiros, com títulos que, traduzidos para a língua portuguesa, soariam como “Segundo continente da China: como um milhão de migrantes estão construindo um novo império na África”, “O presente do dragão: a estória real da China na África”, “A África alimentará a China?”, “Como o mercado de terras cria o novo colonialismo”, “A grilagem de terras e a guerra na África” e “Grilagem de terras na África: a corrida pelas ricas terras agrícolas da África”.
Além disso, consta que fundos e estatais seus fizeram aquisições de companhias europeias e até do Milan, famoso time de futebol.
Sem perceber, parece que o modo de expansão do império romano se reproduz na ação política e econômica da nova imensa potência dos nossos tempos, que se espraia por cenários nunca antes imaginados, envolvendo mais do nosso cotidiano do que parecemos perceber.
Uma das nuances curiosas dessa abordagem é que tudo parece ocorrer em clima de paz.
Assim, sem despertar os sentimentos de resistência de povos e nações em defesa de valores pátrios e da sua Soberania, a balança do poder e das zonas de influência parece que se inclina para o Oriente e de modo nunca antes visto.
Outrora se dizia que no Império Britânico “o sol nunca se punha”, dado o tamanho da sua extensão territorial. Parece que o exemplo está para ser superado em breve e sem parâmetros de comparação com as lições da história global.
Nesse contexto, a Soberania pode parecer respeitada enquanto os “reis” obram na ampliação da economia e do ciclo de exportações e importações e tentam salvar o possível.
Continuamos com a mesma nacionalidade, vendo o erodir de aspectos fundamentais da Soberania e o renascer de quadrantes expansionistas talvez mais expressivos do que outrora vimos, quando nações outras prosperaram enormemente, em parte por frear a nossa potencialidade e o nosso nacionalismo desenvolvimentista, enquanto sorríamos por ser o “país do futuro” – sem dominar as regras dos jogos e os nossos destinos.