Não sou um homem de poucas batalhas. Tive extraordinárias experiências de peleja na vida. Minha origem humilde fez pequenas conquistas se tornarem imensas, até ter, de verdade, grandes conquistas. Todas as minhas vivências exitosas tiveram o carimbo da orientação primorosa de meus avós. Assim, tinha o sonho de ser avô, porque, como diz João Nogueira, o espelho era bom. Conquistar as coisas que dependem de você é duro, mas é possível, porque o resultado depende de seu esforço, mas o sonho de ser avô é uma conquista que escapa do seu domínio. Você fica na expectativa angustiante de que uma hora a boa notícia virá. Enquanto isso, você fica blefando com o destino dizendo, tal qual o personagem Chaves, que não queria mesmo.
A notícia da chegada do primeiro neto me impulsiona a apressar o tempo, numa frenética luta contra o calendário. O sangue na veia corre com outra temperatura e a ansiedade me priva de raciocínios mais lógicos. Há um turbilhão de fantasias na minha mente que vão desde atos mais banais até o absurdo de imaginar o futuro do neto que ainda virá. A verdade é que avós de primeira viagem são sonhadores veteranos numa experiência nova. Não há, acredito, um avô de primeira viagem que não tenha um pacto interno secreto para adiantar o tempo, num poético ato de vandalismo temporal.
Já me imagino adiando minhas urgências para cuidar do neto que virá. Há dentro de mim um espaço imenso para as concessões impensáveis, para o exercício da tolerância máxima e do perdão, como ato verdadeiramente humano. Há dentro de mim, um movimento articulado para frear minha dificuldade no poder de síntese e me tornar compreensível ao contar minhas histórias heroicas. Pulula dentro de mim uma preparação metódica para defender os direitos inalienáveis do meu neto a ser feliz e brincar, sem regra, no jardim imaginário e perfeito que construí, cuidadosamente, para ele nos devaneios de pretenso avô. Agora já começo a entender a voz suave da minha avó Isaura que, como julgadora, absolvia todos os netos das travessuras, com a advertência sisuda aos críticos de que o entendimento ou sabedoria só viria quando fossem avós.