Imagine-se, assim, a hipótese de se receber a missiva de um médico, alheio a exercícios metódicos do pensamento, a criticar o conteúdo de uma reflexão sobre algo, ancorado na miopia de sua visão política, escravizado pelo viés elitista de seu modus vivendi. A hipótese recomenda uma viagem nas fábulas de Esopo, recheadas de moralismo popular, cujas alegorias, sem saltos, abrem os olhos para as pretensas investidas dos leões famintos e doentes.
A luta política é cheia de nuances. Contudo, nela está embutida a ideologia de seus contendores que é razão dos embates nos tecidos sociais. Compreenda-se ou não seu conceito, como dizia Deleuze, essa realidade é o fundamento das digladiações no meio social que separam os indivíduos pelas ideias que alicerçam sua visão de mundo. Assim, não há possibilidade de pessoas com visões de mundo distintas verem a mesma realidade de forma igual. O universo já demarcou entre elas a experiência da separação, mesmo que se amotinem para negar essa realidade. É aqui que entra a necessidade da fábula de Esopo na hipotética carta do médico.
Há de se narrar a fábula do leão doente que se associa a raposa para jantar o incauto e ambicioso veado da floresta. A raposa, encarregada de conduzir o veado até a cova, leva em seu discurso a possiblidade de o veado suceder o leão no trono, visto que este já se aproximava da morte. O veado escapou da primeira tentativa, mas na segunda foi servido como jantar para o faminto leão. A raposa, sorrateiramente, degustou o cérebro do veado. Quando o leão perguntou pelo cérebro à raposa, esta, sempre astuta, respondeu que um animal que vai duas vezes na cova de um leão não pode ter cérebro. A moral da história é que não se pode repetir erros parecendo que não se tem cérebro.
A hipotética carta do médico, na verdade, encerra a lição lapidar do convite do leão, por intermédio da raposa, para todas as vítimas incautas e ambiciosas. Todavia, esse não é o caso dos que tem o cérebro no lugar e funcionando. Não há de se desafiar quem exercita, como dizia Deleuze, o pensamento a partir de determinada realidade. Ademais, se na missiva hipotética do médico há menção expressa à ideologia que abraça, há de se identificá-lo com a raposa na sua missão perversa de persuadir a pretensa vítima à cova do leão faminto. Aqui não!