Diretas, Já – nessa pauta o povo estava lá, apoiando. Caras pintadas de verde e amarelo ganharam as ruas. Era o povo.
Paris, 1968! Quinhentas mil pessoas nas ruas e greves disseminadas no dia seguinte, com 10 milhões de grevistas, demonstrando que a pauta era mais do que sindical e, em verdade, deslegitimava o governo. Após poucos e poéticos dias tudo voltou ao normal.
Brasil, 2013. Manifestações com variadas pautas levaram o povo a tomar as ruas em todo o Brasil – e não foi pelo aumento das passagens, em vinte centavos.
A população também tomou as ruas ao saber do suicídio de Getúlio Vargas e, entre lágrimas e sofrimento, acompanhou o corpo ao aeroporto, de onde iria para São Borja/RS, quando ocupou todo o imenso Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.
Após a renúncia de Jânio Quadros, o povo foi para as ruas na campanha pela legalidade, que proporcionou a posse de Jango, com a mesma autonomia e liberdade de opinião com que foi, logo depois, marchar pela sua deposição – apoiando ações militares que geraram o Golpe de 1964.
O povo não compreende os intrincados mecanismos de interpretação do Sistema Constitucional e das normas legais, também não entende de macroeconomia ou de tratados ou compromissos multilaterais.
Todavia, é soberano ao saber o preço da carne e do arroz e do combustível e das passagens e do pão e da perda do poder de compra dos salários. É craque em entender do que está certo ou errado, por bom senso e sentimento nato e descompromissado.
O povo sabe muito bem criticar quando o jogador de futebol não está bem, do mesmo modo com que sabe elogiar quando o oposto ocorre. Critica o time que joga e se lembra dos melhores times de outrora, mas se reconhece sempre apaixonado pelas cores e bandeiras do seu time. Cada um tem o seu e cada um sabe como se sente e tem conhecimento de histórias apaixonantes próprias e alheias – e ninguém troca de time de futebol por causa de um momento ruim.
É crível que cada um desses protestos e manifestações seja mais pelo Brasil do que contra ou a favor de qualquer partido ou coligação ou governo.
Quem é contra o povo marchando, soberanamente, de mãos dadas e cantando o hino nacional?
Quem é ou foi contra o povo francês cantando a Marselhesa para levantar o seu moral durante o opressivo regime de Vichy, na 2ª Guerra Mundial? Quem não se emocionou com a cena do filme Casablanca na qual, sob lágrimas, os franceses cantavam a Marselhesa ante atos pró nazistas? Já houve quem dissesse que aquele Hino tem mais força do que um batalhão de mil soldados.
Bella Ciao. Quem a conhece sabe que foi música símbolo de resistência e que era cantada pelo povo italiano contra o fascismo de Mussolini, na 2ª Guerra Mundial, com seus versos fortes, dentre os quais “morto per la libertà” (morto pela liberdade).
Os governos e partidos precisam de líderes, mitos e salvadores da pátria. O povo precisa de representantes e, quando não se os vê bem os representando, eleva o seu tom e marcha sozinho.
Nesse momento, não há quem possa se apropriar do discurso eloquente do povo. Mesmo o seu silêncio é eloquente. Não se precisa de líder, quando o povo “soberanamente” se impõe.
Em primeiro lugar, vamos logo enaltecer o fato de que, sendo democráticas, as manifestações são fortalecedoras da própria democracia.
Redes mundiais de computadores ou aplicativos não são causa de nada. São meros mecanismos de comunicação. Não causam, não induzem e não são culpados de nada. Se fosse assim, não haveria nenhum anterior manifesto livre e popular de povos em todos os lugares do mundo, já que a internet é um fenômeno recente.
Há coincidências em sensações naturais nos seres humanos. Quando essas individuais percepções se somam a outras, o povo sai às ruas. E tem saído, ao longo da história mundial e nacional.
Independentemente do que se diga, em cada uma delas – e por causas, momentos ou países diferentes – há e havia unidade de manifestação do povo, demonstrativa de sua pujança, identidade cultural e política. Os que não foram para as ruas, concordaram ou se submeteram à legitimidade dos movimentos dos que marcharam por todos.
Tudo isso encontra apoio em algo não escrito expressamente no texto constitucional ou em qualquer lei – mas que está lá! É a percepção do questionamento da legitimidade do alto poder, distorcido da realidade, algo como “se o cinto é para minha segurança, porque ando em pé em ônibus cheio”? De fato, estar em ônibus cheio, em pé e sem cinto de segurança parece potencialmente mais perigoso do que dirigir um veículo de passeio sozinho e sem cinto…
Há percepção da não lógica em muitos discursos, que não combinam com a realidade e, inegavelmente, movidos por profundo senso filosófico e crítico, levam o povo a gritar para demonstrar a falta de bom senso de tantas coisas, de tempos em tempos.
Existe algo em cada indivíduo que simplesmente encontra eco em outros a partir do momento em que alguém percebe algo errado e grita que “o rei está nu”, como no clássico conto de Hans Christian Andersen.
Assim, de tempos em tempos, o povo marcha, alimentado pelos reflexos da alma humana, demonstrando uma pequena ruptura do entorpecimento quase permanente e latente… por vezes parece movido por pauta da “esquerda” ou da “direita”, mas é sempre o mesmo e único povo brasileiro que simplesmente se reúne constitucionalmente (aliás, o povo sequer poderia imaginar se reunir inconstitucionalmente)!
Engana-se também quem desconhece que isso não está previsto no texto constitucional. A nossa Constituição Federal de 1988, democrática e opondo-se às constituições do período da ditadura, prevê o direito à desobediência civil em seu art. 5º, Parágrafo Segundo, quando expressamente admite outros direitos não expressamente ali redigidos. Daí que, em manifestação de apoio a governos ou de resistência, o povo atua constitucionalmente e deve ser respeitado.
Tropeçará quem afirmar que essa atuação nas ruas foi tão ostensiva que contrariou a imagem de um povo alegre e pacífico: o povo agiu pacificamente, certo de que exercia sua cidadania e com mais liberdade do que quando o faz pelo exercício do voto obrigatório, tanto que havia milhares de idosos, pais com seus filhos de colo, grávidas e pessoas com jovens espíritos, de todas as idades. Era o povo, sem partido, sem ser dirigido… Era o povo fazendo política e sendo político, mas sendo natural.
Outros dirão que não havia uma “causa” de fácil identificação ou que foram levados às ruas como massa de manobra. Mas não foi sempre assim?
Será que, mais uma vez, tantas mobilizações serviriam para “mudar tudo para não mudar nada”? Oxalá o povo alcance a vitória cantada em versos como “o povo unido jamais será vencido”.